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Página de entrada do blogue (últimas) Ainda sobre «O FUTURO DA LÍNGUA PORTUGUESA»Com uma semana de atraso em relação à sua redacção e recepção, aqui vai mais um comentário, desta feita de Filipe Guerra, ao post de RAA.
RP 31/12/2004 A COMÉDIA DA TRAGÉDIAÉ do conhecimento geral o panorama tragicómico da tradução em Portugal. Seja porque os preços de mercado desincentivem o surgimento de uma verdadeira classe de tradutores profissionais e promovam a proliferação de biscateiros incultos, seja porque esses mesmos preços obriguem a um ritmo de trabalho incompatível com o rigor, o certo é não ser raro depararmo-nos com uma tradução de bradar aos céus e, pelo contrário, ser raríssimo cruzarmo-nos com um livro cuja tradução mereça louvor. (A maioria das traduções situar-se-á algures a meio do espectro, cumprindo os mínimos.) Este cenário pouco animador é particularmente habitual em livros que poderíamos classificar como "ensaio para não especialistas", em que as pálidas perspectivas de venda não permitem o "luxo" do profissionalismo e a dimensão das obras incentiva a apressar o passo: assim de repente, ocorrem-me os livros de Georges Minois (Teorema), prodigiosamente (quase) assassinados por Serafim Ferreira. (Há, no entanto, esperança: o último — As origens do mal — foi entregue a outro tradutor. A ver vamos...) Mas também no âmbito da ficção pode dar vontade de escorraçar os vendilhões do templo: veja-se a Europa-América, que consegue o feito quase único de vender caro livros com mau papel, má impressão, má encadernação e pior tradução.
Vejamos um livro em concreto: A Origem da Tragédia, de Friedrich Nietzsche. A edição que tenho é a oitava, de 1997, mas estamos perante uma simples reimpressão da tradução portuguesa de 1953. O editor não só não promoveu a retradução, como manteve o prefácio («Anotação do tradutor»), um texto involuntariamente cómico, ainda mais pela acção demolidora que o tempo e as mudanças políticas exerceram sobre ele. A um ritmo alucinante, sucedem-se os enunciados da superioridade moral e material da filosofia portuguesa, os juízos de valor («verdade», «falsa orientação», «diabólico», «ignorante», «soluções fictícias»...) e as afirmações teológicas que, se legítimas no âmbito de uma tese, são inaceitáveis na pessoa de um tradutor enquanto tal. Lemos aquelas quase sete páginas introdutórias (sintomaticamente datadas do «Dia de S. João Evangelista. Ano de 1953») e sabemos que, se o mais importante ainda está para vir, o mais divertido ficou certamente já para trás. Mais do que uma anotação do tradutor (Álvaro Ribeiro), o prefácio funciona como uma advertência ao leitor: lemo-lo e ficamos imediatamente de pé atrás. Para quem não consegue ultrapassar a barreira da língua alemã, não há como evitar a dúvida: terá o tradutor adulterado as teses originais, terá suprimido as que menos lhe agradavam, terá acrescentado algo da sua lavra? Perguntas (insinuações) injustas, talvez, mas naturais. Por isso, enquanto a Guimarães não substitui esta e outras traduções jurássicas, dêmos graças por manter também os prefácios, que tão eficazmente denunciam as rugas da edição portuguesa. Mas ilustremos com alguns excertos, para que quem não conhece a obra também se possa rir um pouco:
Decididamente, ao nível do melhor humor português de sempre! FG 27/12/2004 Sobre «O FUTURO DA LÍNGUA PORTUGUESA»De Ângelo Eduardo Ferreira recebemos os seguintes comentários ao post «O futuro da língua portuguesa»:
RAA 23/12/2004 PRIORIDADES JORNALÍSTICASNa passada quinta-feira encerraram no Porto as comemorações dos 30 Anos do 25 de Abril. O evento, quase tão clandestino como a primeira reunião do Movimento dos Capitães, teve bem menor participação: umas trinta pessoas, em que, com poucas excepções, o público da sessão da manhã era o painel da sessão da tarde e vice-versa. Na abertura do encerramento (digamos assim) estiveram o ministro-gestor Nuno Morais Sarmento e o anfitrião, Rui Rio. Seguiam-nos a habitual chusma de jornalistas, que ingloriamente tentaram espremer das palavras de ambos alguma referência, por fugaz que fosse, à actual situação política. Findas as intervenções de um e de outro, e posto que surgia uma pausa para café, foram-se Sarmento e Rio — seguiram-nos os jornalistas, como a cadelas no cio. Por que será que os jornalistas abandonam sempre a sala quando começa a melhor parte? FG 21/12/2004 DA DEPRESSÃO À SAGEZAHá algum tempo atrás, a Imprensa decidiu estabelecer que o País andava tristonho, deprimido e carrancudo. Muitos acreditaram na autoridade. Pessoalmente, jamais subscrevi esta teoria gratuita e infundada. Por essa altura, alinhei no presente blogue duas ou três reflexões sobre o assunto, tendo considerado que o conceito de pessimismo luso é tão vazio quanto o espelho mediático e superficial que o vai alimentando. Não modifiquei até agora tal ponto de vista, e acrescento-lhe inclusive uma hipótese explicativa para a persistência operatória daquele conceito: a projecção de demónios individuais na esfera pública ou, por assim dizer, a generalização abusiva do pathos privado. Nesse sentido, saúdo a resposta de Vasco Pulido Valente à jornalista que lhe pergunta se é um pessimista crónico: «Isso é um estado de alma. As pessoas devem olhar para a realidade e para o mundo onde vivem para tentar compreendê-los e saber o que se pode mudar e como se pode fazê-lo. Não se trata de estar bem ou mal disposto, mas de fazer um juízo exacto e sóbrio sobre a realidade da sociedade portuguesa e a realidade do mundo onde se insere.» A entrevista vem no Independente, que publica uma outra, a Pedro Paixão, a quem é perguntado a certo passo: «É um vencido da vida, desiludido com o mundo?» Paixão responde: «Sou antes um ferido de morte. Eu e mais seis ou sete amigos, pobres rapazes, fizemos agora um clube que, em vez de se chamar "Os vencidos da vida", se chama "Feridos de morte".» Embora não especifique o âmbito e a natureza da ferida, Pedro parece afinal sugerir o pessimismo que Pulido Valente substitui pelo distanciamento crítico. E isso não obstante a referência ao célebre grupo dos Vencidos da Vida. É que o pessimismo destes derrotados era, paradoxalmente, envolvido pela ironia sábia e epicurista de quem deixou de se perturbar com a mediocridade reinante. O homem é animal político? Saiba, pois, intervir. E gritar em nome da liberdade e da justiça. E acreditar em causas, manifestos, revoluções. Mas nunca em demasia, sempre com alta moderação, e a ponto de não olvidar o imperativo que, pela voz de Cândido, Voltaire nos legou: «O que é preciso é cultivar o nosso jardim.» JFB 20/12/2004 TRAIÇÃO, ESSE LUGAR-COMUMHá perguntas ingratas. Sobretudo se a resposta é uma nova pergunta. Ilustremo-lo com um excerto da entrevista a Pedro Paixão, no Independente:
Espantoso! O problema é que a traição convertida em lugar-comum já não é traição: é consentimento. JFB 20/12/2004 Na sequência de alguns textos e comentários sobre a língua portuguesa e o seu futuro, na imprensa e em alguns blogues, fiz uma reflexão. O (longo) texto que se segue tem opiniões, dúvidas, birras e perguntas. O FUTURO DA LÍNGUA PORTUGUESAO debate sobre a língua portuguesa e o seu futuro está, como dificilmente poderia deixar de estar, impregnado de ideologia. Ou, pelo menos, sob a sua influência. Nesta questão, como em muitas outras, há uma postura conservadora e uma postura liberal. Existem os reaccionários e os revolucionários. Aos que «amam» a língua, uma postura conservadora face à sua evolução parece a coisa mais ajuizada — e é-o, quase sempre. Por outro lado, os revolucionários vêem a atitude condescendente como sendo a indicada. Mas por que raio há-de a tendência ideológica ser chamada para tutelar o evoluir da língua? A língua, ao fim e ao cabo, não é mais do que um meio de nos entendermos e uma ferramenta para nos ajudar a decifrar o mundo. A Secretaria de Estado do Turismo, o Ministério da Cultura (designadamente o departamento que zela pelo património) e o Ministério da Economia podem ter as suas próprias opiniões sobre a língua portuguesa. Mas, em rigor, o cerne da questão quando se discute a língua é (ou devia ser) o seu carácter de ferramenta intelectual. Ora, a uma ferramenta intelectual destas interessam duas coisas: a «universalidade» e a «riqueza». Convirá a uma língua ser entendível na máxima profundidade pelo maior número de desgraçados que dela venham a necessitar. Por outro lado, a bem dos utentes, especialmente dos que a tenham como primeiro idioma, convirá à língua possuir uma riqueza e uma proficuidade tais que lhes permitam representar com vasta eficiência o intrincado vórtice dos pensamentos e emoções humanas, a espantosa complexidade do mundo e, cereja que não pode faltar ao bolo, lhe concedam o dom de passar para a boca ou para o papel a fértil imaginação e os exercícios abstractos em que os cidadãos utentes possam, eventualmente, ser pródigos. A «universalidade» do dialecto é condição para que ele cumpra convenientemente o papel primordial da comunicação dentro do universo dos utentes. A «riqueza» é atributo imprescindível para garantir ao universo de utentes o máximo de capacidades para as grandes olimpíadas da civilização. Disto resulta que a evolução da língua deve observar, com a flexibilidade que à frente se verá, estes dois pressupostos. Uma das discussões acerca da evolução da língua portuguesa passa exactamente por aqui. Deverá ou não a língua evoluir por aquilo a que chamam a crioulização, a mestiçagem? Pois bem: as práticas correntes não obedecem a normas. Cada país, cada região, cada classe social, cada tribo urbana adopta os vocábulos e constrói as frases como muito bem lhe apetece. E isso resulta. Até certo ponto. Quando a comunicação precisa de se fazer num círculo mais alargado, o indígena escolhe melhor os termos — ou aceita que não o entendam. Daí ser, ao que me parece, a atitude conservadora a que deve vigorar quando se pondera a integração de novas morfologias ou novos termos no idioma. A universalidade dentro do país deve estar assegurada, sob risco de terem os governos de formar equipas de alfabetização que integrem toda a comunidade nas novidades que esta não absorveu pelo processo normal de evolução das línguas: a propagação e a adopção generalizada. Significa isto que está vedado aos escritores a experimentação? A adopção de regionalismos, de estrangeirismos, a criação de neologismos? Seria ridículo pretender tal. A literatura vive num universo paralelo onde a anarquia é possível. Quando o autor faz as suas redacções num «esperanto» próprio, o risco é todo seu (e do eventual editor). Isso não afecta a vida dos cidadãos — como afectará um documento das finanças escrito em mirandês ou uma lei redigida em crioulo (sendo certo que alguns documentos e algumas leis que vigoram estão redigidas em dialectos indecifráveis, com os subsequentes problemas de interpretação que se conhecem — quod erat demonstrandum). O escritor que arrisca confia na capacidade de dedução dos seus leitores. Mas, na utilização não literária, o desejo de uma comunicação clara (mesmo que, por necessidade, complexa) deve vir antes da ambição de efeitos estilísticos, das experimentações. Ou seja: a literatura pode ser terreno fértil para testar a evolução da língua, mas as evoluções não devem ser adoptadas oficialmente enquanto não for garantida a universalidade da inovação, ou algo próximo disso. Por outro lado, a evolução não deve acobertar a adopção do erro, como está implícito no pensamento de alguns mais tocados pela ideologia da libertação, simpatizantes da luta dos pobres (de espírito) contra os opressores (os compêndios). A simplificação, a libertação de espartilhos gramaticais só aparentemente tornam mais eficaz a comunicação. Se «simplicidade» significasse sempre melhor comunicação, nunca teríamos abandonado o urro como idioma corrente (bem, é certo que nem todos abandonámos). A integração de certos erros gramaticais no panteão das letras, mesmo quando se trata de erros comuns, cometidos pela maioria, aumenta a confusão e o ruído. Permite a ideia de que, afinal, não há normas. Potencia uma variedade tal de fórmulas que, em vez de enriquecer o idioma, corre o risco de o tornar babélico. Se, na maior parte dos casos, isso até pode não causar mossa (a não ser à sensibilidade estética), lembre-se, no entanto, a diferença que uma vírgula ou a sua ausência pode causar em certos documentos e ter-se-á uma ideia da quantidade de casos em que o erro pode afectar, efectivamente, a polis. Depois: a disciplina e o rigor na utilização do idioma não são totalitarismos — são a certeza de que nos obrigamos a ter método, a pôr de lado a preguiça, a vencer a tendência natural para o desleixo, coisas que nos conduzem a um laxismo intelectual pouco propício ao desenvolvimento da massa encefálica. Quanto a certos neologismos e estrangeirismos, por mim não teria pressa em integrá-los formalmente na língua. Há maneiras de os utilizar assinalando a sua origem estranha (o itálico, as aspas). Em certas prosas muito modernas integra-se o inglês, o crioulo ou os neologismos no corpo de texto como quem não quer a coisa. Grafam-se em letra de tipo igual ao que se usa nas palavras naturais da língua. Resultam daí, não raro, obstáculos desnecessários para a compreensão do texto. Em redacções literárias experimentais, a integração de vocábulos estranhos pode ter um objectivo fonético, poético, rítmico, e o risco é salutar. Na prosa comum, mesmo que literária, este comportamento corresponde a maneirismos inúteis e novo-ricos. Bem sei que o advento da informática, ao permitir que imprimamos os textos sem um tipógrafo ou editor de permeio, veio dar a cada um o seu modo de trabalho. O que significou, quase sempre, abrir portas à preguiça. Recursos como o itálico, as aspas e o negrito, aparentemente mais fáceis de usar do que na escrita manual, passaram, para o cidadão comum, a ter uma função meramente eventual e estética. O que torna certos textos pouco legíveis. Claro que o escritor moderno (seja ele um estudante, um burocrata ou um romancista de nova geração) gosta de confiar na nossa competência dedutiva, de pôr à prova a nossa capacidade de entendimento com a sua prosa avant-garde — transformando-se as mais das vezes num escritor «mal entendido». Com propriedade. Mas, quando digo que a evolução da língua deve ter em conta a «universalidade», de que «universalidade» falo? Da que se confina ao rectângulo nacional ou a da lusofonia? Ora ainda bem que me faço esta pergunta (posso assim soltar o reaccionário que me habita). O melhor, pelo menos para o brio dos portugueses, seria que a evolução da língua nos diversos países lusófonos se desse de um modo convergente — quero dizer: que Timor, os PALOPs e o Brasil convergissem connosco. Mas isso constituía um problema para a moral «de esquerda»: então não há que preservar a identidade de cada povo? A nossa ética obriga-nos a respeitar as especificidades de cada tribo — e isso também é válido para a língua. Chatice. Mas agora viremos o bico ao prego: não tem Portugal o direito a manter um português próprio, de acordo com a evolução da sua identidade? A aproximação dos diferentes linguajares terá forçosamente de ser feita à custa da crioulização do português de Portugal? Que a língua nos diversos países lusofalantes evolua de modos diferentes não é, em minha opinião, a catástrofe que a muitos aflige — desde que seja fornecida aos cidadãos uma segunda língua, uma língua que garanta a universalidade a um nível mais lato (como acontece com os países do norte da Europa, que ambicionam menos expandir a língua do que aprofundar o domínio do inglês). Os portugueses precisam de aprender português porque vivem em Portugal, e aqui a vida desenrola-se em português. Não seria proveitoso para o autóctone nascer e viver em Portugal tendo como único idioma o checo. Teria, digamos, alguns problemas de integração e certas dificuldades na compreensão do mundo, mesmo do pequeno mundo que o rodeia. Mas, para lá do «universo» que é o território pátrio, é mais proveitoso para o indígena aprofundar o domínio duma língua franca (o inglês, claro está) do que ficar à espera da convergência dos outros povos. O que é que acontece em Portugal? Falha a aprendizagem duma língua internacional e falha a aprendizagem da língua materna. E é aqui que bate o ponto. A discussão sobre a aprendizagem do português torna quase ocioso o debate sobre o futuro da língua, torna-a matéria para a Academia de Ciências e para os futuros etnólogos, para os promotores da mestiçagem e para os curadores dos museus da língua. Antes da evolução e da expansão do idioma (tão cara aos saudosos do império que somos todos em algum momento) é preciso assegurar que as gerações lusoparlantes, nadas e criadas num jardim onde a moeda de troca intelectual é o português, fiquem dotadas com as ferramentas mínimas para se entenderem. Para entenderem os jornais e os livros que deviam ler (não é de esperar que, ignorante do português, a rapaziada desate a ler originais estrangeiros). Para entenderem os impressos dos impostos que não pagam. Para entenderem os relatórios sobre o fracasso da economia. Para, enfim, entenderem a certidão de óbito da pátria. Em muitas das discussões sobre a língua portuguesa, os contendores não se apercebem, mas debatem mais os problemas decorrentes de um mau ensino do que propriamente assuntos atinentes à língua itself. Porque esta é a verdadeira discussão. Se o Brasil se afastar mais um oceano de nós, podemos perder influência geopolítica (influência que, a vir, viria por «arrasto»), perder um mercado (que não temos), precisar de legendar as novelas. Se em Timor evoluir um português que exija intérprete, teremos de nos conformar: sempre assim foi. Se a percentagem de falantes de português nos PALOPs diminuir, lá se vai a commonwealth à portuguesa (que, caso não tenham reparado, nunca existiu). Mas, se cá na pátria o cultivo da língua continuar viçoso como nas últimas décadas, então o futuro já não será uma questão de mestiçagem ou de manutenção do português de lei. O futuro será uma questão de ter uma nação inteira de voltar ao «a-e-i-o-u» — soletrado ao som da régua em compasso binário. RAA 17/12/2004 LÓGICAO meu herpes labial tem duas manias irritantes: a primeira é aparecer com frequência; a segunda é irromper logo acima do lábio superior — o que (pensava eu) fazia dele, em todo o rigor, um herpes supra-labial. Erro meu: este herpes é, de facto, labial — eu é que sou 1 cm mais baixo do que o previsto. FG 15/12/2004 ENTRE O CONFRANGEDOR E O DESASTREO programa "Prós e Contras" de ontem à noite (tema: o humor) confirmou aquilo que já penso há muito tempo: o jornalismo televisivo português — concretamente, a entrevista de fundo e o debate — anda pelas horas da morte. (Dou o benefício da dúvida ao "Diga lá, Excelência", que — confesso — nunca vi.) Vejamos o caso da RTP. Na entrevista (que a estação do Estado tem o despudor de classificar de "Grande") pontifica Judite de Sousa. Serei só eu que não consegue ver do princípio ao fim uma entrevista conduzida por esta senhora? Judite de Sousa é do mais sem sal que pode existir: não se trata de sobriedade, é mesmo incapacidade para puxar pela personalidade convidada. Quando se vê perante um "vulto", consegue um feito quase ímpar: simultaneamente não perguntar nada a que o convidado não queira responder e não formular qualquer questão que os telespectadores queiram ver respondida. (Frequentemente umas e outras coincidem, mas nem sempre.) E se com convidados ligados à política Judite de Sousa é fraquinha, quando o tema de conversa é outro (p. ex., literatura) a sua prestação situa-se entre o confrangedor e o desastre: o mais das vezes, não sabe muito bem do que está a falar, pelo que não lhe ocorre nada de jeito que perguntar. (Exemplo retirado do álbum de memórias: entrevista a José Saramago em 1998, na sequência da atribuição do Nobel.) E é este o grande problema tanto de Judite de Sousa como de Fátima Campos Ferreira (já lá vamos): um frequente desconhecimento dos assuntos em discussão, o que poderá revelar falta de preparação (falta de trabalho, portanto), falta de interesse (o que é preocupante num jornalista), ou mesmo falta de capacidade (mas é melhor não ir por aí). Voltemos, então (para terminar), ao "Prós e Contras", programa que não o assume, mas navega nas margens do infotainment: tenta manter uma imagem de seriedade e discussão aprofundada, mas não abre mão do "espectáculo" (indispensável, só mesmo que o público bata muitas palmas, mostre que vibra com tudo — e lá está o sucedâneo da "coelhinha" do Tony Silva a solicitar o aplauso). O tema de ontem até nem era dos mais propícios a demonstrações de falta de preparação e rigor, mas ainda assim, valor seguro, Fátima Campos Ferreira não deixou os seus créditos por mãos alheias: claramente, não sabia ao certo quem era um dos seis convidados principais. Refiro-me a Ricardo Araújo Pereira (vulgo RAP), que no programa vinha identificado como "Ricardo Pereira" e de quem, se não ouvi mal, a apresentadora disse ser vulgarmente conhecido como "Rato", assim o tratando por mais de uma vez ao longo do programa. Quanto ao "Gato Fedorento", é, na classificação avalizada de Fátima Campos Ferreira, um programa de "stand-up comedy"... Quando é que alguém avisará a RTP que ter jeito para ler um teleponto no Telejornal e fazer uma ou duas perguntas insípidas no pouco tempo de antena dispensado a cada comentador ou convidado não é qualificação para manter um programa de entrevista ou de debate que dure uma hora ou mais? FG 14/12/2004 COMENTÁRIO DE FILIPE GUERRA
Só uma ressalva: nas referências que fiz aos que submetem os seus comentários a posts não generalizei. E até descobri gente boa. Um dos meus dois posts é, aliás, sobre isso mesmo. RAA 10/12/2004 TODOS À FOTODiz Vicente Jorge Silva: «Quase ninguém terá querido ficar fora da fotografia dos oitenta anos de Soares.» Reparei nisso quando li, no final de um comentário, José Manuel Fernandes revelar que tinha sido convidado e iria à festa de Mário Soares. Aos políticos exige-se-lhes transparência. Mutatis mutandis, a consciência do director do Público exigiu o gesto corajoso. E reparei nisso hoje quando li o início do texto de Vicente Jorge Silva. «No jantar dos 80 anos de Mário Soares, alguém sentado ao meu lado...» RAA 10/12/2004 O SUBMUNDO DOS COMENTÁRIOSNo submundo constituído pelos comentários a posts de alguns blogues desenrolam-se debates de interesse. No Blog de Esquerda (e também no Barnabé) acompanhei dois. Sobre a crítica literária e sobre o futuro da língua portuguesa (acerca dos quais discorrerei depois, so help me God). O carácter diarístico e confessional dos blogues não permite, obviamente, um grande controlo da qualidade e da pertinência daquilo que se publica. Esse, como já foi suficientemente dito, é um dos seus méritos. O mérito principal depende dos autores dos blogues. No Blog de Esquerda e no Barnabé, com a excepção de José Mário Silva no primeiro, não estão, decididamente, bloggers que muito admire. Pelo contrário, um esquerdismo confundível com clubite futebolística, clubite que consegue espraiar-se espantosamente pelo grosso dos comentários independentemente do assunto, afasta-me muitas vezes daquelas paragens. Com resultados nefastos. Como o de só agora ter descoberto o submundo dos comentários. Naquelas paragens subterrâneas pode a gente perder-se com evidente interesse sociológico e antropológico. Ocasionalmente, com interesse no debate. No underworld aparecem os habituais indigentes, anónimos ou não, que vão ali apenas justificar a sua existência imbecil. Apoiam ou contestam o post a que se subordinam com urros informáticos. Os «vivas» ou «abaixos» que expressam são o natural rumor das manadas. «Sim» porque «sim» ou «não» porque «não»: eis o máximo que atingem. «Sim» para somar aos «sins» anteriores e, se possível, ganhar em número aos «nãos» que se atrevem (mais raros, há que dizê-lo). Como o departamento dos comentários não deixa de estar no universo da Internet, o anonimato (sob a forma de pseudónimo) floresce, naturalmente. Para dizer as maiores banalidades e, claro, para lançar os insultos do costume. Falar em cobardia aos utentes do pseudónimo é congregar as hostes (os próprios e os tradicionais defensores da liberdade de expressão) e cerrá-las num aqui d'el rei contra o fascismo. O pseudónimo ganhou na Internet direitos absurdos que os blogues não conseguiram contrariar. Mas no submundo dos comentários habitam outros seres que merecem a nossa atenção. Gente com opiniões sérias e seguras. Gente que escreve bem. Gente que só na secção dos comentários se revela. Gente de outros blogues e gente que não tem (que se saiba) o seu blogue. Sobretudo, gente que assina. São estes, conjuntamente com os próprios bloggers, que realmente debatem alguma coisa. São estes que me fazem lamentar os meus preconceitos. RAA 09/12/2004 EFEITOS COLATERAIS DA CRÍTICA-BULLDOZERNo Blog de Esquerda, uma referência de José Mário Silva e um elogio de Luís Rainha à «falta de subtileza» da «crítica-bulldozer» de João Pedro George deu origem a um curioso debate. O tema e, sobretudo, alguns comentários ao tema, suscitaram-me uma pequena reflexão. João Pedro George é um admirador de Luiz Pacheco. Construiu uma relação de proximidade com ele. Essa proximidade influenciou-lhe a maneira de ver o mundo literário. Que se traduz nos textos que escreve. Textos cujo mérito é potenciado, precisamente, pela «falta de subtileza». (E cuja debilidade é a falta de alguma ironia a temperar a indignação da prosa.) Ora, crítica como a que João Pedro George pratica é necessária, mesmo que nem sempre acerte «na mouche». Mesmo que nem sempre concordemos com ela, como José Mário Silva. Por vezes, só a crítica-bulldozer tem o dom de agitar as águas «demasiado paradas e consensuais da literatura portuguesa». Mas precisamente porque agita as águas do pântano, a crítica-bulldozer atrai alguma necrofilia, uma franja do leitorado que se preocupa pouco com a literatura. Uma franja ressentida e impregnada de fel que adora ver as «vacas sagradas» serem «demolidas». Adora que se descubram razões para um ódio que existe mas não está explicado. Um «ódio de classe», parafraseando Pereira Coutinho a propósito de outro assunto. Uma franja que delira com os atentados ao «estatuto» dos «grandes». Por aqui, na Periférica, sentimos muito esse «apelo» dos leitores. Há em algumas fileiras um desejo enorme de que se escrevam textos a «demolir» as «vacas sagradas». E nem sempre são apresentadas razões válidas para a «demolição». Ser «sagrado» ou, menos mitologicamente, consagrado, é razão suficiente para atrair o desprezo de contribuintes cujo amor aos escritores é inversamente proporcional ao sucesso daqueles. Ora, como importaria perceber, nem sempre o sucesso é indício de má qualidade literária. É verdade que existem escritores sobreavaliados, obras com cotação excessiva, autores cujo sucesso depende mais do seu mediatismo, da sua visibilidade em aspectos exteriores à obra. É verdade que alguma crítica não ousa tocar em determinados autores, que os envolve numa esfera de inimputabilidade, por excessivo respeito, por servilismo, por amizade, por distracção. Mas também é verdade que para uma característica franja do leitorado, os Amantes da Crítica-Bulldozer (os AC-B), importa mais a demolição do que a argumentação. Os AC-B adoram a profanação — mesmo que injusta. Deliram com a ridicularização — ainda que esta não tenha motivo. Até dão risadinhas com o insulto gratuito — desde que ninguém saiba que eles reconheceram a gratuitidade da injúria. Para estes AC-B não apetece escrever. Porque eles não valorizam a pertinência ou a mestria da crítica — mas sim os efeitos espectaculares que ela possa obter. Eles, regra das regras, não são leitores — são voyeurs em busca da nudez exposta, abutres que aguardam a próxima refeição, não importa como ela é servida. Os AC-B não procuram páginas sobre literatura, mas uma versão literária da revista Notícias Choque. Para os AC-B (que parasitam não só a crítica literária, mas também a crítica política e a crítica social), um crítico não é alguém que reflecte e decide expor um ponto de vista, com maior ou menor simpatia, com maior ou menor acutilância, com maior ou menor grau de corrosão. Um crítico é sempre um mercenário, alguém a quem pagariam para «demolir» os seus odiozinhos privados ou o seu grande ódio: o «estatuto», algo que invejam. Por imbecilidade. Na literatura como na política, a crítica-bulldozer tem, entre os seus vários méritos, o de trazer à superfície os «indignados da vida». Nos debates na Internet, nos comentários dos blogues, eles pululam. Intervêm para aplaudir. Para acrescentar uma farpa. Para gritar «esfola». Mas não entendem uma linha do que se escreveu. São, paradoxalmente, acríticos. A política e a literatura portuguesas precisam de crítica. Na Periférica tentamos fazê-la. Mas algumas hostes que amam a crítica precisam de ratax. RAA 09/12/2004 |
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
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