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Página de entrada do blogue (últimas) DANOS COLATERAISNotou-se muito, ontem, que ando numa fase fodida de todo? As minhas desculpas ao Filipe Guerra e aos leitores do A Oeste Nada de Novo, que não deveriam ter que apanhar com os estilhaços do meu dia-a-dia... FG 24/09/2004 PRODUTIVIDADE (um caso), CADEADOS E COLOCAÇÕESDe Filipe Guerra (também ele FG, mas não compliquemos as coisas) recebemos o seguinte comentário:
Da produtividade de FG sabem FG, os colegas e os chefes de FG. Do que pensa FG sobre a colocação dos professores sabem os que almoçam com FG, que é onde FG tem actualmente tempo para falar sobre o que pensa. Do que pensa FG sobre o uso dos cadeados nas universidades sabem os que leram este blogue na altura certa (aqui e aqui). FG (baixando a sua produtividade para responder) 23/09/2004 COORDENASSÃO PEDROLei empírica: O nível de coordenação dos meios da Protecção Civil para prevenção e combate aos fogos florestais é directamente proporcional ao nível de humidade do solo e inversamente proporcional à temperatura ambiente. (Definitivamente, temos um ministro pouco empirista, o que nalguns contextos será uma virtude.) FG 21/09/2004 POLÍTICA E ADJACÊNCIASNum artigo do Independente, intitulado Por outra Direita, Manuel Falcão escreve que «uma sociedade contemporânea não pode viver refém de religiões», visto que, «quando são as posições religiosas a mandar na política, o mundo anda para trás e não para a frente». Certo. Mas seria bom esclarecer que só tem necessidade de «mandar na política» aquela religião (ou, melhor, aquele sector religioso) cuja sobrevivência depende de mecanismos autoritários. Além disso, conviria alertar para a diferença entre moral e religião: se esta é do âmbito privado, aquela não é alheia ao espaço público (malgré Maquiavel). Observa também o articulista que «as mais das vezes, a Direita é esteticamente triste e pobre, objectivamente, cultiva o mau-gosto em nome do popularucho», pelo que faz falta «uma direita liberal, radical e livre, inovadora e criativa». Ou eu muito me engano, ou o autor acha que a política é uma forma de arte. Se a separou (e bem) da religião, que a não misture, agora, com a estética. Saliento ainda, do mesmo artigo, a afirmação segundo a qual «governar tem sido, sobretudo, resolver crises e não provocar mudanças». Pergunto: o que provoca as desejadas mudanças, em política, não será, precisamente, a tentativa de resolução das crises? JFB 11/09/2004 ACERCA DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTONa edição de hoje do jornal Público, Francisco Jaime Quesado, gestor do Programa Operacional para a Sociedade da Informação, assina um artigo intitulado O desafio da sociedade do conhecimento. «O conhecimento é a nova marca para o território português», observa o autor, acrescentando que tal «conhecimento tem que ser prático, estruturado, flexível e adaptado às novas dinâmicas da evolução da economia global, com endogeneização estratégica das TIC na criação e alavancagem de valor». Embora com alguma dificuldade em compreender o que acabo de citar, penso ter captado o essencial. O articulista parece reduzir o conhecimento a um factor de «criação de riqueza» (unicamente a um nível material), susceptível de proporcionar «aumento de produtividade e reforço de valor na cadeia produtiva», de corrigir «assimetrias de desenvolvimento» e, em suma, de «dar ao país uma nova bandeira de maioridade global». Só um reducionismo desse género poderá justificar o tom optimista do último parágrafo: «Do interior ao litoral, de Norte a Sul, o caminho já começou. A sociedade do conhecimento é de todos e para todos. (...) Há claramente uma atitude nova. Uma vontade de falar e fazer diferente.» Que bom! Pena que o texto se situe estritamente no quadro da mentalidade empresarial, negligenciando aquele saber com que o homem procura conferir significado à sua existência: da arte à literatura, da religião à filosofia. É que a sociedade não é apenas o atalho para a saciedade. E o conhecimento é também sageza. A menos que o sentido da vida não exceda os axiomas do materialismo: ostentar entulho e regalar o ventre. JFB 10/09/2004 MATAR POR AMOR (1)Ser homem é correr o risco de perder a vida. Ser palavra é correr o risco de perder o sentido. O Correio da Manhã publica, hoje, uma reportagem sobre crimes passionais. Título: Matar por amor. JFB 01/09/2004 MATAR POR AMOR (2)Ser mulher é correr o risco de perder a vida. Ser homem é correr o risco de perder o sentido. (Reformulação em nome da verdade estatística.) FG 01/09/2004 MATAR POR AMOR (3)Tese: Crime passional = Matar por amor. Dúvida: Amor a quem?... FG 01/09/2004 ÉTICA E ABORTOA necessidade profissional levou-me a procurar na internet tópicos sobre Ética; por pura coincidência (pois é outro o assunto em concreto que actualmente me prende), descobri no excelente site Crítica na Rede uma sequência muito interessante de artigos sobre as implicações éticas do aborto. Ainda não os li todos (ai os afazeres, os afazeres...), mas tomo a liberdade e assumo o risco de recomendá-los aqui:
FG 30/08/2004 ESPREITANDO ALCOVASÉ sabido: as televisões tresandam a sexo. As televisões gostam de tresandar a sexo. Alguns jornais (não falando dos da especialidade) acusam, a espaços, idênticos apetites, iguais odores. Até o Independente. Não existe assunto? Dissertemos sobre sexo. Não há uma página disponível? Disponibilizem-se duas. Sexo é tema actual. Melhor: eterno. Convém demonstrar ao leitor os infindáveis teoremas de Afrodite. Compreende-se. Mas o irritante sucede ao nível de certas entrevistas. Há perguntas que plagiam dentes sequiosos: querem vampirizar o sangue ardente e a vida íntima do entrevistado. Importa que este revele tendências e segrede penetrações ou, para escândalo da corja, confesse ter optado pelo voto de castidade. As questões colocadas, no Independente, a Abel Xavier são sintomáticas do statu quo. «Onde é que cobre melhor: no campo ou na discoteca?» «Acha-se sexy?» «Ainda se lembra da Paula?» «Qual destas personagens é que nunca teve dúvidas quanto à sua sexualidade? a) Tatiana Romanova; b) Nádia; c) Cláudio Ramos; d) Carlos Castro.» As respostas, felizmente, surgem sucintas e pedagógicas. Perante a última questão citada, o futebolista aplica um remate certeiro: «A essa pergunta não respondo.» «Nem ao calhas?» «Não respondo. Desculpe, mas não comento essas coisas.» É assim mesmo, Abel! Prova-lhes que também sabes dar pontapés na curiosidade boçal e no voyeurismo patológico. JFB 30/08/2004 O TEMPO E A VIVÊNCIAEscreveu Santo Agostinho (celebrado hoje, segundo consta) que, se lhe não pedissem para definir o tempo, saberia responder, não o sabendo se a pergunta lhe fosse colocada. Apesar disso, empregou algum do seu tempo à volta deste conceito. No suplemento Saúde, do Independente, lemos um artigo que dá conta da verificação experimental de um lugar-comum: o tempo voa. E arrasta-se, como é óbvio. Mas estudos deste género deixam de fora a questão, matricial, de saber o que é o tempo. Dão como esclarecido o que falta deslindar. Pressupõem que o tempo é uma ave arisca, ou um gastrópode ronceiro, dotado da elasticidade dos relógios moles, de Salvador Dalí. Subentendem que ele é irredutível e singular, equivalendo à vivência. Contudo, esta não subsiste por si mesma: hoje é demorada, amanhã será fugidia; hoje é fagueira, amanhã será monótona. Torna-se, pois, necessário descobrir a condição que a possibilita. Talvez, a existir, essa condição seja igual para todos, distinguindo-se apenas no modo como se exprime. Talvez ela constitua o único tempo susceptível de ser pensado sem contradições nem redundâncias. Mas talvez seja, também, uma realidade acerca da qual nada pode ser dito. JFB 28/08/2004 SIM OU NÃO, EIS A QUESTÃODesde a derrota resvés do "Sim" no referendo de 1998 os partidários da despenalização do aborto dividiram-se em dois campos: uns, que advogam um trabalho mais direccionado para o futuro, em que se invista na sensibilização da população, das camadas mais jovens em particular, com vista a um claro reforço da base de apoio antes de se intentar novo referendo ou iniciativa legislativa (o que poderá não acontecer antes de passados 10-15 anos, quem sabe se uma geração); outros, que clamam por um segundo "round" para um futuro próximo, recordados da derrota tangencial (49.08% contra 50.92%) e confiantes de que a reviravolta será possível. Para os defensores acérrimos de nova consulta popular, aqui fica uma reflexão: os referendos ganham-se, não quando se contam as cruzinhas nos boletins, mas antes, quando se formula a pergunta que figurará neles. A despenalização do aborto só triunfaria num futuro próximo se a pergunta fosse: «Acha que as mulheres que abortam devem ser presas?» Como tal pergunta nunca será aceite (apesar de — ou exactamente por — ser a que mais correctamente exprime aquilo que está em discussão), o que há a fazer, entretanto, é deixar bem claro a todos que a questão é precisamente esta. Mas isso demora tempo, dá trabalho, exige o tacto de escolher as palavras e as estratégias que mais efeito surtam em quem queremos convencer, não as que melhor exprimem aquilo que nós pensamos. (Eu, pecador, me confesso.) FG 27/08/2004 A CULTURA DO «SAIR-SE BEM»Conhecer títulos de obras, alguns clichés e uma ou outra ideia menos usual constituirá um bom começo ou, ao invés, um mau princípio. Bom começo, quando suscita a busca do desconhecido. Mau princípio, quando alimenta a erudição balofa e pedantesca. Vem isto a propósito de algumas notas sobre figuras das artes e das letras veiculadas ultimamente pelo jornal Público. Em página concebida para o efeito, o leitor pode colher dados relativos a uma determinada celebridade, aguçando o apetite pela sua obra. A iniciativa é, portanto, louvável. Na letra, entenda-se. No espírito, nem por isso. À maneira de título, surge a expressão cultura afiada, unida a uma sequência pouco melódica: o essencial para não ficar mal numa tertúlia intelectual. Estamos esclarecidos. O alvo não é saber: é mostrar que se sabe. Não se trata de afiar a cultura: trata-se de polir a lábia. Não importa ganhar discernimento e ver melhor: interessa perder o anonimato e brilhar mais. JFB 24/08/2004 TIRO PELA CULATRAJoão César das Neves defende, na sua coluna do DN, que «a cultura portuguesa permanece». «Todos os dias, naturalmente, a cultura acontece». O texto do sr. das Neves pretende ser uma defesa do extinto programa Acontece e do «seu deslumbramento interessado», da sua «certeza pesquisante», da sua «humildade inteligente perante a cultura portuguesa». Esta defesa do Acontece traz às costas algumas críticas aos «nossos "cultos"», eventualmente responsáveis pelo fim do programa. E avisa: «O perigo secular da nossa elite é o pedantismo.» Esclarecendo que a nossa elite é «um pequeno meio, que sabe de cultura porque lê umas coisas estrangeiras». Nesse pequeno meio, de que são exemplo «os blogs actuais», apenas se move o ego de «génios ignotos recebendo aplausos de génios ocultos por obras a que ninguém liga». E, «entretanto, na realidade, longe das salas cheias de fumo e recriminação, a cultura acontece». Para que não restem dúvidas de que «a cultura acontece», o professor César das Neves dá exemplos: «a edição em fac-símile da tradução que Camilo Castelo Branco fez de O Génio do Cristianismo, de Monsieur de Chateaubriand»; a edição de um CD duplo com originais da professora Leonor Leitão Cadete, «uma das maiores concertistas da sua geração». Ora bem, não é precisa a «certeza pesquisante» do Acontece para perceber que apenas a «elite» que César das Neves despreza está em condições de mostrar algum «deslumbramento interessado» perante tais exemplos de "cultura happening". «Não podemos cair no erro de achar que a elite representa a realidade», sentencia César das Neves. Mas pior é cair na ingenuidade de acreditar que há clientela a rodos para Monsieur de Chateaubriand ou para a professora Leonor Leitão Cadete fora do círculo dos «cultos», por mais pedantes que estes possam ser (e, não raro, são). Arranje lá outros exemplos da cultura que «permanece», caro professor. RAA 10/08/2004 ERRO DE CASTINGNo DN de ontem, Luís Delgado aparece a defender a demissão de Del Neri do Futebol Clube do Porto:
Postas as coisas como Luís Delgado as põe, não haveria como não demitir Del Neri. A argumentação do administrador delegado da Lusa é sólida e parte de pressupostos meramente factuais. Depois disto, torna-se evidente que a insinuação de que Luís Delgado na Lusa é um «erro de casting» exige muita, mesmo muita «abstracção mental». RAA 10/08/2004 TOCATA PARA CÍTARA, BERBEQUIM E RECO-RECOBoas notícias para aqueles que, como eu, várias vezes e praguejando, deitaram a fugir de um concerto de música moderna. Balsâmicas as palavras da brilhante violonista Isabelle van Keulen numa entrevista de há dias: «Desde há pouco, felizmente, aceita-se que a música possa de novo ser bela, e as composições mais recentes voltam a ser melodiosas. Os charlatães vão desaparecendo. Depois de um concerto as pessoas querem regressar a casa com impressões, com emoções, e não de boca aberta, estupefactas, perguntando-se porque é que não compreenderam e se irritaram com o que ouviram.» Lembram-se do concerto de John Cage com três minutos e meio de silêncio, e das suas composições para percussão e prepared piano? Ou daquelas em que o barulho de utensílios de cozinha acompanha o chiar de violinos, o tilintar de moedas, o ruído de passos, guinchos, peidorradas e gemidos, isso e mais de mistura com citações do I'Tjing ("O Livro das Mudanças"), o manual para adivinhos, clássico da literatura chinesa do séc. X a.C.? Charlatanices justificadas com o argumento de que os sons não devem ser subordinados a estruturas causais, mas procurar a sua própria expressão no acidental. A partitura, tornada gráfica, deixa ao músico a escolha arbitrária do ritmo da interpretação e a liberdade de seguir ou ignorar a sequência da obra. O género vale tudo, como se diria em linguagem corrente. Porque ambos anunciam um tempo de mudança, quem gosta de música e ainda os não conhece deve anotar os nomes destes dois compositores: Erkki-Sven Tüür (1959), estónio, e o inglês Thomas Adès (1971). JRC 04/08/2004 RECADOO leitor Henrique Negro deixou-nos o seguinte recado no Livro de Visitas. Não o achámos despido de pertinência. Puxámo-lo para o blogue. RAA 04/08/2004
A VER NAVIOSPaulo Portas justificou ontem na Assembleia da República a acumulação, com a Defesa Nacional, da pasta dos Assuntos do Mar. Disse o ministro: «Foi pela Defesa Nacional que passou a recuperação da indústria portuguesa de contrução naval, foi pela Defesa Nacional que passou a questão da segurança marítima e a protecção contra o crime ecológico». Por mim, acho que o único pecado é o âmbito estreito do ministério de Paulo Portas, que deveria ser, de seu nome completo, «Ministério da Defesa Nacional, dos Assuntos do Mar e dos Assuntos Religiosos» pois, como é sabido, a protecção das águas portuguesas contra o crime ecológico do Prestige só foi possível graças à pronta intervenção de Nossa Senhora de Fátima... FG 28/07/2004 CONTRIBUTOPortugal, ninho de poetas, acumulou, durante os últimos tempos, matéria suficiente para uma nova epopeia. Até eu, que de versos pouco entendo, me sinto bêbado das águas de Hipocrene. Deixo, pois, uma sugestão para a primeira estância de um poema que (estou certo), mais tarde ou mais cedo, um vate a sério há-de trazer à luz. A imprensa eleva a dor que nos trespassa. Sursum corda! JFB 23/07/2004 BENEFÍCIOS DO ECRÃ OPACOA tese é de Giovanni Sartori. E de qualquer pessoa sensata. A televisão vai transformando o Homo sapiens em Homo videns. A imagem vence a palavra. O visível destrona o inteligível. Junte-se a isto um acervo de conteúdos televisivos que disputam entre si o galardão da mediocridade, e o efeito é desolador. As competências simbólicas definham. O poder da razão é gradualmente substituído por uma ordem acéfala e cavernícola. Todavia, a par destes golpes no intelecto, desferidos de modo impune, a televisão investe contra a saúde física dos cidadãos. A análise é revelada no Público: «As crianças que vêem televisão mais de duas horas por dia têm uma maior probabilidade de vir a fumar, apresentar um elevado nível de colesterol, ter problemas cárdio-respiratórios, ou sofrer de obesidade, segundo um estudo neozelandês, publicado sábado na revista de medicina "Lancet".» Partindo da fiabilidade dos resultados da investigação, deparamo-nos com uma espécie de bola de neve que engrossa em direcção ao abismo. Por um lado, ver televisão faz diminuir o grau de discernimento. Por outro, a publicidade enganosa (doce pleonasmo) tende a criar padrões de consumo radicalmente opostos aos princípios de uma alimentação saudável. Incapaz de se distanciar de mecanismos que o manipulam, o espectador deixa-se adormecer, até confundir o verdadeiro e o falso, o razoável e o utópico, o salutar e o deletério. «"Reduzir o tempo passado a ver televisão deveria tornar-se numa prioridade de saúde da população", afirmou Robert Hancox, especialista em medicina preventiva da Universidade de Dunedin, que realizou o estudo.» Correcto. E a resolução do problema talvez se encontre nos intervalos. Nos intervalos privilegiados. A televisão devia, pura e simplesmente, calar-se. Devia submeter-se à opacidade do ecrã, ao negrume que a dignifica. Se não em todos os minutos, pelo menos durante o chamado horário nobre. (Seria essa, aliás, a sua maior nobreza.) Em nome da saúde pública. Em homenagem à lucidez que ainda resta. Em prol de uma sociedade culta e civilizada. Em benefício da evolução física, mental e espiritual do ser humano. JFB 20/07/2004 A MATÉRIA E OS SEUS ROSTOSJoão Colobos, monge, disse a uma prostituta que via Satanás brincar no rosto dela. Admitamos que o tentador brinca, afinal, em cada rosto da matéria. A ciência procura conhecer o ritmo do folguedo. A arte inventa-lhe possibilidades de manifestação. Em entrevista ao Público, Tony Cragg, que vê hoje inaugurada uma exposição sua em Serralves, com esculturas realizadas sobretudo nos últimos cinco anos, conta que «acredita intensamente no material». E acrescenta: «Acredito que não há deus, acredito que tudo o que é uma qualidade nas nossas vidas é a inteligência, é a qualidade do material». Conferindo à matéria o estatuto de matriz absoluta do Ser, Tony Cragg revela-se cúmplice da eterna circularidade inerente à percepção sensível. Não há percepção que não remeta para outra. Reduzido a si mesmo, este reenvio é um ardil eficaz de distracção da mente, levando-a a julgar-se fruto de um desenvolvimento de «partículas muito rápidas, que se tornaram partículas atómicas, átomos, moléculas orgânicas, vivas, pensantes». A matéria recreia-se e arrasta o espírito consigo. A sedução, contudo, é um apelo. E o apelo pressupõe a diferença. Refere ainda o artista que «a paisagem é a moldura da existência». Esquece que a matéria é incapaz de circunscrever. Digamos, antes, que a existência é a moldura da paisagem. De outro modo, seria impossível ao anacoreta aperceber-se da folia do Demo no semblante da meretriz. JFB 17/07/2004 RUMO AO CAOSLeio a notícia no Público de ontem. Outra notícia da insanidade. Um novo passo para o caos simbólico. David Beckham falhou um penalti contra a selecção portuguesa. Óptimo, e depois? «O galego Pablo Carral, que assistia ao jogo atrás da baliza de Ricardo, recolheu a "Roteiro" (bola oficial da prova, concebida pela Adidas) desperdiçada pela estrela inglesa, conseguiu camuflá-la à saída do Estádio da Luz e agora leiloa o objecto na internet. Ontem, a bola de ouro atingiu os 10 milhões de euros!» O Público de hoje diz que «tal proposta não era para ser levada a sério e por isso a cotação dessa bola sofreu uma queda vertiginosa, para os 24.700 euros». Mas a letra não redime o espírito. Baixou o número, a demência não. O que a uns sobra em oportunismo a outros falta em racionalidade. É um equilíbrio que produz anomalias. É um acordo que gera aberrações. Uns propõem símbolos reles. Outros aceitam instituí-los. JFB 16/07/2004 CRÍTICA E ANTOLOGIA: OS PRINCÍPIOS DA CANONIZAÇÃOAntónio Guerreiro, no último Actual do Expresso, estendeu a sua prosa sobre as antologias que a Quasi deu à luz recentemente (a 3.ª edição de Anos 90 e Agora — Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa e Desfocados pelo Vento — A Poesia dos Anos 80 Agora). O artigo de Guerreiro é crítico das antologias. Antes de tudo, pela «mania» que elas têm «de escandir o tempo em décadas». A «década», diz Guerreiro, «não tem nenhum significado histórico», logo, nisto das antologias, «adoptá-la como critério de periodização» resulta «num mero inventário de nomes». Apesar de ter abusado do termo «escandir» (duas vezes numa só página é desregramento), António Guerreiro tem razão. «No campo da literatura e das artes» (como em quase tudo na vida, acrescento eu), «as leis da interrupção e da transição ignoram completamente» o divisionamento gregoriano do tempo, seja ele o da década que usaram os editores da Quasi (e que mereceu a reprovação de Guerreiro), seja ele, até, o do século. De facto, tirando o spleen que os fins-de-século costumam trazer aos supersticiosos e aos sensíveis ao horóscopo, a arte «em geral» não se dá por terminada, não se recria ou se regenera a olhar para o calendário. (Ok, o final do século dezanove é capaz de ser excepção, mas ignoremo-lo, a bem da tese.) As diferentes correntes que os historiadores da arte identificam no passado só por facilidade de catalogação ou coincidência se fazem encaixar no período de tempo que se convencionou chamar século ou década. As próprias transições sociais são transversais à dezena de anos. Quando hoje se fala dos "loucos anos sessenta" alude-se mais a uma postura social ou a um estado de espírito do que ao conjunto de anos que vai de 1960 a 1969. Organizar uma antologia com base nas décadas de 90 e actual pode ser, como afirma António Guerreiro, um exercício que serve «muito mais para racionalizar relações, para marcar uma posição estratégica nas batalhas da crítica literária, do que para prestar um serviço ao leitor». Será também claro para a maioria dos críticos que «uma antologia da nova poesia portuguesa» deveria iniciar-se mais cedo (quando, é coisa a discutir muito), ou não se deveria iniciar de todo, uma vez que nova poesia portuguesa, no sentido de recriação ou reinvenção literária, é coisa que não existirá. Ainda. Também se poderá conceder que o agora numa antologia não faz muito sentido. Mas aceitemos, por um momento, como Jorge Reis-Sá, que existe uma nova poesia portuguesa que se inicia nos anos 90. Ou, mais simples: aceitemos, naturalmente, sem pruridos, que se edite uma selecta de poetas que começaram a publicar numa determinada década, a de 90. E que a expressão «nova poesia» possa referir-se à poesia de novos autores. Certo. Isso não anula que o editor da Quasi possa estar, ainda assim, a adoptar «uma concepção da crítica como procura de tendências», «uma visão do crítico como canonizador». Mas não acontece isto com todas as antologias? A maioria dos "defeitos" que António Guerreiro encontra nas antologias da Quasi não está presente em qualquer antologia? Não se definem todas as antologias, também e sempre, «por aquilo que incluem e excluem, pelo que afirmam e negam, pelos critérios e tendências que assistem ao seu nascimento»? Não são todos os antologiadores críticos que procuram, em menor ou maior escala, «fixar», «definir», «congelar»? Não é todo o antologiador, na sua subjectividade, um canonizador? Ainda seguindo a prosa de António Guerreiro, não se pode dizer que Jorge Reis-Sá seja um historiador distanciado, um «profeta voltado para trás», dado que o editor se encontra dentro do período de tempo que escolheu antologiar. Pelo contrário: pode mesmo considerar-se, como defende Guerreiro, que o editor da Quasi ensaia um acto crítico que procura apenas marcar posições. Já António Guerreiro parece evitar marcar posições, detendo-se na depreciação do «critério periodológico» em vez de avançar para a análise dos critérios estéticos, qualitativos, técnicos ou outros que terão determinado arrebanhar aqueles poetas naquela antologia da Quasi. Se António Guerreiro discutisse os nomes presentes na antologia de Jorge Reis-Sá estaria a racionalizar relações? Se levasse o exercício crítico até ao fim revelar-se-ia, também ele, um «cool hunter»? Aquele «inventário de nomes» é suficientemente estreito para que Jorge Reis-Sá racionalize relações — mas minimamente lato para que o crítico prefira ficar pelo comentário ao «critério periodológico». Porque, tal como o que antologia, o crítico não deixa de ser um canonizador. RAA 16/07/2004 PERIFÉRICA n.º 10 (Verão 2004)O Verão da Periférica este ano é mais cedo. O número estival, habitualmente lançado em Setembro, chegará desta vez às bancas nos finais de Julho. Para assinalarmos o feito, esta edição conta, para além da já habitual badana, com quatro páginas interiores a cores (mais detalhes já a seguir). Neste seu décimo número, a revista consolida a sua faceta ibérica: vai ao País Basco buscar dois poetas, Rikardo Arregi e Harkaitz Cano, e aventura-se na arquitectura com um artigo sobre o catalão Enric Miralles. De volta a Portugal, retomamos o périplo pelas pequenas editoras: Black Sun Editores, de Fernando Guerreiro. Filipa Melo regressa às páginas da revista, desta vez na ficção. Acompanha-a Ondjaki. Na fotografia (páginas centrais a cores), Robert e Shana ParkeHarrison, a dupla que arrebatou a cena artística norte-americana há meia dúzia de anos atrás. E um segundo portefólio, a preto e branco, este do português Miguel Mealha. Na capa e na badana, Ricardo Leite, pintor. «And much more than this.» A edição online encontra-se já disponível. Muito reduzida, como sempre. Para abrir o apetite para a edição impressa. Esta começará a ser distribuída a partir de 26 de Julho (segunda-feira). As apresentações públicas da revista estão já marcadas: FNAC Almada, 30 de Julho (sexta-feira), 21:30 horas, e FNAC Colombo, 31 de Julho, 17:00 horas. Estão todos desde já convidados. RP 15/07/2004 PROLEGÓMENOS A UM PEQUENO ESTUDOO abraço do poder equivale, mutatis mutandis, a uma transmutação alquímica. É um repouso de homo viator. É um encontro de sabor nirvânico. É um sossego que prolonga o clímax. O corpo enche-se de luz. A razão encobre a astúcia. O instinto ganha brandura. Por que motivo isto acontece? Porque o líder tem de mostrar que a vitória é dos súbditos, sabendo, no íntimo, que o benefício é exclusivamente seu. Tem de fingir ser ponto de partida aquilo que para si é ponto de chegada. Daí a pose espiritual. A curvatura magnânima. A delicadeza frásica. A languidez no tom de voz. Estudemos Santana. JFB 15/07/2004 RUÍDO BRANCOCertos livros não têm começo. Nem fim. Seriam iguais à eternidade, se não fossem inexistentes. Tendem para um número infinito. Como todas as coisas apenas possíveis. Mas há livros reais com exemplares sem começo. O primeiro volume de O Conde de Monte Cristo que adquiri esta manhã, juntamente com o Público, trazia a abertura em branco. Um desafio tranquilo à minha imaginação. Mas o início é mais difícil de imaginar do que o fim. O fim é convergência. Mesmo quando surpreende. O início é promessa. Mesmo quando entedia. A página que tive diante dos olhos era tão-só promessa de uma promessa. Raridade editorial. Ainda bem! Assim a troca foi bastante fácil. JFB 14/07/2004 MEMORIAL DO DESERTOLeio, possuído de estranho zelo, um manual com ditos e feitos dos monges do deserto. De um deles, Agatão, narra-se que viveu com uma pedra na boca ao longo de três anos, até se tornar capaz de cumprir o silêncio. Deste modo, pelo menos, ninguém lhe saberia o tamanho da língua. Do mesmo não se pode gabar Sua Santidade. A notícia vem no Público: «Uma fotografia do Papa João Paulo II com a língua de fora encontra-se à venda na Internet por um milhão e 200 mil dólares (cerca de um milhão de euros).» Em sessão fotográfica, na década de 80, o sucessor de Pedro, entediado, não conseguiu manter a língua recolhida. Um fotógrafo expedito fez o resto. Fixou o órgão para a posteridade. O negativo já não existe. Só o positivo: um exemplar único da foto. Agora, é tempo de leilão. Há comentários para isto? Sim. Todavia são escusados. A alternativa é o silêncio. Sem pedra na boca. Ou uma retirada discreta para o deserto. O Sumo Pontífice teria, talvez, optado por este caminho, se a idade e a saúde lho permitissem. Mas nem tal opção valeria a pena. Afinal, no deserto já nós estamos. JFB 10/07/2004 PEQUENAS PÉROLAS JORNALÍSTICAS (3)No Público de hoje: «[Miguel Sousa Tavares] comprou um livro de fotografias do Rio no século XVIII [...]». FG 10/07/2004 LISBOA 1 – 0 PORTUGALUma vez mais, Lisboa sai a ganhar sobre o todo nacional: se Portugal herda um primeiro-ministro anedótico, Lisboa, em compensação, livra-se de um presidente de Câmara não menos anedótico. FG 10/07/2004 PEQUENAS PÉROLAS JORNALÍSTICAS (2)O Jornal da Tarde acaba de noticiar um aparatoso acidente na ponte da A4 sobre o Rio Tâmega, «no sentido Sul–Norte». Para quem nunca consultou o mapa, a A4 (Porto–Amarante) desenvolve-se no sentido Oeste–Este... FG 07/07/2004 Mais um comentário a "MORCÕES NO QUINTAL"Tem a palavra Filipe Guerra:
Caro Filipe Guerra, quanto às responsabilidades da Periférica perante os seus leitores, no meu entender essa responsabilidade existe antes de mais no que toca à revista propriamente dita. O blogue é um extra, fruto da impaciência para pôr cá fora as nossas opiniões e impressões apenas a cada três meses. Acontece que nem sempre nos ocorre comentar o mundo — porque não raro nem tempo temos para observá-lo. Para mais, conforme deixámos escrito no post inaugural de 17 de Abril de 2003, não prometemos regularidade. Nem contundência. Esta, a existir, deve ocorrer naturalmente e não ser uma questão de princípio. Como princípio, apenas a relevância (digo eu, e sem certezas). FG (substituindo o ainda mais atarefado RAA) 06/07/2004 PERIFÉRICA n.º 10 ESTÁ NO FORNOO n.º 10 da Periférica (Verão de 2004) está em pleno processo de fabricação. Correndo tudo conforme planeado, será entregue na gráfica no final desta semana. Depois é esperar duas semanitas. Esta edição tem duas particularidades (pelo menos): uma, é que devido ao compromisso com a FNAC*, a capa foi a primeira coisa a ser feita — algo quiçá irrelevante, mas uma particularidade não tem necessariamente de ser algo significativo; a outra novidade é que, pela primeira vez, o número de Verão não sairá em Setembro, o que quer dizer que desta vez vai ser possível ler a Periférica na praia — venham os comentários sobre a silly season. RP 05/07/2004 * Este número terá duas apresentações consecutivas, ambas em FNACs: dia 30 de Julho (sexta-feira) estaremos na margem sul do Tejo, na FNAC Almada, e no dia seguinte passaremos pela FNAC Colombo. Estão desde já convidados todos quantos possam comparecer num destes sítios (ou em ambos, já agora). GRÉCIA 1 – 0 PORTUGALClaramente, a gravata do Durão estava avariada. FG 05/07/2004 Um comentário a "MORCÕES NO QUINTAL"A propósito do meu último post, recebemos do leitor Pedro Peixoto o seguinte comentário:
Aqui no A Oeste Nada de Novo não sabemos quem leva o troféu do desperdício ou a taça da seriedade. A nossa assiduidade na blogosfera deixa muito a desejar. Mas a dúvida do leitor é pertinente. Talvez devêssemos fazer actualizações nos nossos links. Só que isso implicava muitas horas de leitura. Horas que, infelizmente, não temos. Por isso os links ficarão como estão. Aqueles blogues em concreto são (ou foram) bons. Quando por lá passamos confirmamos isso mesmo. No caso do Blogue-de-Esquerda não duvidamos que a qualquer momento José Mário Silva há-de arrumar a casa. RAA 02/07/2004 A FALÁCIA DO "MENOR DENOMINADOR COMUM"Vi de passagem a conferência de imprensa em que Durão Barroso anunciava aceitar o convite para se candidatar a presidente da Comissão Europeia. Mais concretamente, vi o momento em que um jornalista estrangeiro perguntava se Durão não teria sido escolhido por ser o «menor denominador comum» ("least common denominator", no original) de todos os líderes europeus. Ora, esta expressão — que já vi utilizada noutras situações e que pretende sintetizar o demérito daquele ou daquilo de que se fala — pois algo mais em evidência: a ignorância de quem fala, pois o «menor denominador comum» é não só algo que não existe, como é algo ilógico. Quem assim fala denuncia-se antes de mais como um utilizador acrítico de lugares-comuns, pois desconfio que a maioria não faz a mínima ideia para que conceito matemático tenta a falhada expressão remeter; simplesmente, repete a "tirada" de algum "iluminado" que o precedeu. Certamente, muitos recordarão de forma algo vaga dois termos, aprendidos nas já distantes aulas de Matemática do ensino preparatório: eram eles o "mínimo múltiplo comum" e o "máximo divisor comum" — mas nada de "mínimo denominador comum". Comece-se por esclarecer que máximo divisor comum é o mesmo que máximo denominador comum (m. d. c.). De que se trata? Em termos matemáticos, é o maior número inteiro que é, simultaneamente, divisor inteiro de dois ou mais números inteiros considerados: por exemplo, 6 é o m. d. c. entre os números 12, 18 e 24, pois os três são múltiplos de 6 e não há outro inteiro superior a 6 de que tanto o 12, como o 18 e o 24 sejam simultaneamente múltiplos (entre 12 e 24 o m. d. c. seria 12); já o m. d. c. entre 12 e 17 é 1, pois não há qualquer outro inteiro de que ambos sejam múltiplos (de resto, 17 é número primo, o que quer dizer que só é múltiplo da unidade e de si mesmo ou, o que dá no mesmo, tem como únicos divisores inteiros a unidade e ele mesmo). Mas passemos da Matemática à Retórica, antes que afugente toda a clientela... Como figura de retórica podemos dizer que alguém ou algo é o máximo denominador comum de um conjunto de possibilidades quando reúne em si o máximo de características que são comuns a todos ou que não se opõem a nenhum dos elementos considerados. Obviamente, esse máximo pode ser muita coisa (quando têm muito em comum, cf. um cão e um lobo) ou quase nada (o máximo denominador comum entre um calhau encontrado no fundo do oceano e uma borboleta não irá muito para além de ambos serem provenientes do mesmo planeta...). O que não tem sentido falar é em menor denominador comum, muito menos em política: quando se procura uma solução de compromisso (se quisermos ser mauzinhos, chamemos-lhe de recurso...), como é claramente a opção por Durão Barroso, o que se tenta obter é o candidato que tenha o maior número de qualidades que agradem a todos, sem ter — e isto é muito importante — qualquer qualidade que desagrade a alguém. Por assim dizer, vai-se tão longe ou tão alto quanto se pode (mesmo que não se vá muito longe, fruto das circunstâncias). Porquê, então, o uso quase consagrado da expressão «menor denominador comum»? Por ignorância, obviamente, mas não só. A principal razão da troca da palavra correcta (maior) pela incorrecta (menor) deve-se, fundamentalmente, a uma questão simbólica: involuntariamente, associamos a palavra "maior" a algo positivo e a palavra "menor" a algo negativo. Por isso, se o objectivo é denegrir uma solução (neste caso, um candidato), apelidá-lo de maior denominador comum pareceria um elogio, logo contraproducente: nas cabeças menos avisadas uma caracterização negativa deve ser feita à custa de palavras com semas negativos — perde-se em Lógica, ganha-se em impacto. FG 01/07/2004 |
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
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