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O blogue da Periférica

Página de entrada do blogue (últimas)

MORCÕES NO QUINTAL

Os blogues são um espaço de liberdade de opinião com o qual dificilmente algum outro medium poderá competir. Dessa inigualável liberdade devia resultar uma responsabilidade equivalente. Há blogues que ignoram a responsabilidade e se transformam em albergue de patetices ou, mesmo, em sítios onde o insulto boçal encontra terreno fértil. Esses são os blogues que não contam. Onde os imbecis vão buscar entretenimento. Os outros, os que acrescentam alguma coisa ao debate, à discussão, à troca de ideias, à informação de quem os lê, conhecem a responsabilidade acrescida que lhes advém da imensa liberdade. Abominam a censura — mas conhecem os limites do bom-gosto, do bom-senso, os limites éticos.

Numa passagem pelo Blogue-de-Esquerda (BdE) leio num "cartaz": «Um morcão à frente da nação? Antes a morte que tal sorte!». O "cartaz" alude à eventual promoção de Santana Lopes a primeiro-ministro. Já antes me havia perguntado se o actual figurino do BdE teria acrescentado alguma coisa àquele que foi um dos blogues pioneiros e dos mais interessantes da galáxia bloguística nacional. Com o acréscimo de colaboradores, passou a haver mais opinião, mais militância, mais intervenção. Como não posso acompanhar o ritmo dos textos, ainda não pude saber com certeza se, no BdE, "mais opinião, mais militância, mais intervenção" significou mais interesse.

Leio mais alguns posts e volto ao slogan contra Santana Lopes. Dou por mim a sorrir paternalmente do alto dos meus 35 anos. No BdE há mais meninos travessos — e o equilíbrio de José Mário Silva perde-se no meio das travessuras dos outros. No BdE há mais intervenção e militância (sobretudo militância) — e a opinião interessante tem um rácio menor. O BdE extremou-se. Perdeu algum bom-gosto e bom-senso. O José Mário Silva fez mal em escancarar as portas da casa. RAA 28/06/2004

P.S. A promoção de Santana Lopes também a mim dá arrepios. Ocorre-me que se tivesse menos dez anos era rapaz (e pateta) o suficiente para subscrever o slogan do BdE.

SUBSÍDIOS PARA UMA NOVA ÉTICA

Não sei se Manuel Vilarinho conhece de todo o articulado da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Algumas afirmações suas veiculadas no Independente parecem indiciar ignorância nesta matéria. Pelo menos no tocante a uma prerrogativa essencial reconhecida a cada ser humano: o direito de ver salvaguardadas a sua honra e a sua reputação. Ouçamos Vilarinho: «Ele não pode gozar do direito de não ser difamado.» O ex-presidente do Benfica refere-se a Tomás Taveira, que moveu contra si uma queixa-crime por difamação. Vilarinho reage, evocando as imagens do arquitecto (divulgadas pela imprensa) em práticas sexuais que escandalizaram o país nos anos 80. Partindo desse escândalo, e pontificando do cume da sua autoridade moral, o cavalheiro parece considerar legítimo o acto difamatório. E acrescenta, com a profundidade típica de um patriarca: «Toda a gente no mundo o pode injuriar.» Como se uma acção privada, que a imprensa tornou pública, viesse conferir legitimidade moral ao eterno arremesso, por mãos universais, de inumeráveis pedras. Além disso, note-se que Taveira «não pode pôr uma acção de difamação a ninguém.» Vilarinho dixit.

É fácil arquitectar a lapidação do arquitecto. Mais fácil ainda é observar que Taveira, à semelhança de Vale e Azevedo, «tem falta de cabelo, é um bocado agordalhado e tem a pele gordurosa». Com estas palavras, Vilarinho reveste de um colorido fisionómico uma argumentação atrabiliária e ad hominem, mediante a qual revela ao orbe alguns princípios da sua ética pessoal e transmissível. Edificante, sem dúvida! JFB 20/06/2004

ACERCA DOS ERROS NAS LISTAS DE GRADUAÇÃO DE PROFESSORES

Sobre os erros anteriores não me pronunciei. Fui excluído? Sim. Paciência! A legalidade seria reposta. Problemas de informática. Sobre os actuais, contudo, vejo-me obrigado a pronunciar-me. Fui excluído? Não. Mas os erros persistem. E eu decido sondar-lhes a raiz. Vícios de computador? É dizer pouco. Freud chamar-lhes-ia, antes, actos falhados. O Ministério da Educação parece reclamar um estudo de natureza psicanalítica. Pelo menos facilitar-lhe-ia as desculpas. Errar é político. Perdoar é humano. JFB 16/06/2004

SÍMBOLOS QUE O VENTO LEVA

Nunca, em Portugal, o vento pôs a drapejar tanta bandeira. A lusitana é a que mais oscila. E eu também oscilo, numa dúvida. Uma vez atenuado este delírio futebolístico, a bandeira das quinas ainda manterá a mesma carga simbólica? Ou será esta subvertida (se o não foi já) por idolatrias de claque e renovadas emoções tribais? Ditosa pátria a esvanecer ao vento... JFB 16/06/2004

DO IDEAL EUROPEU

Na edição do jornal Público de 15 de Junho, Eduardo Prado Coelho escreve que «a Europa é uma ideia demasiado distante numa época em que a política se faz sem imaginário ou visão». E acrescenta: «Ninguém vê a Europa. Ninguém sonha com ela. Deixou de ser um ideal, uma força motivadora.» Palavras exactas, se descontarmos o pressuposto que lhes subjaz: a ideia de que a Europa já terá sido um ideal. Talvez em tempos míticos, quando Zeus, metamorfoseado em touro, a raptou. Mas em tempos prosaicos a coisa é distinta. Mormente numa época de globalização. O homem globalizado oscila entre um nacionalismo intermitente e um cosmopolitismo indefinido. E nenhum europeu, em rigor, sente a Europa como a sua nação, ou crê que o mundo se encerrou dentro das fronteiras que a circunscrevem. JFB 16/06/2004

SER FIEL ATÉ ÀS PONTAS

A foto é reproduzida no jornal Público. Na legenda pode ler-se, entre outras coisas: «O adepto do dia.» Um capacete viking assenta na cabeça de um dinamarquês. Pormenor subversivo: os cornos do capacete ostentam pequenas bandeiras nas pontas. Fidelidade à pátria, pois então! JFB 16/06/2004

ENTREVISTA À GRANDE REPORTAGEM
(the uncut version)

[Na edição de dia 12 da Grande Reportagem (suplemento de sábado do DN e do JN) foi publicada uma entrevista ao director da Periférica, da autoria de João Pombeiro. Por questões de espaço, as nossas respostas foram substancialmente cortadas, ficando mais pobres e "formatadas". Uma das perguntas foi mesmo reescrita a posteriori, originando o caricato de "respondermos" a uma pergunta diferente da que fora formulada. Porque achamos ser do interesse da Pátria, apresentamos aqui a versão original, sem cortes nem reescritas.]


Como é que nasceu a Periférica?

— De parto natural. Para combater o tédio. Porque o acaso nos juntou. Por uma inevitabilidade: It's a dirty job but somebody's got to do it.

«Queremos ser famosos, queremos ganhar dinheiro. Nos próximos vinte anos queremos arrecadar pelo menos três prémios Nobel», podia ler-se no primeiro editorial em 2002. Já conseguiram alcançar algum destes objectivos?

— Em dois anos alcançámos quase todos os objectivos propostos — excepto a parte do dinheiro (não se pode ter tudo). Mas temos tempo.

E os Nobel?

— Para isso também temos tempo: dezoito anos mais.

A Periférica é uma revista alternativa de crítica cultural? O que acabei de perguntar faz algum sentido?

— É cultural por princípio fundador e é crítica por natural inclinação dos seus autores e por necessidade nacional. Quanto a ser "alternativa", há menos unanimidade quanto ao que isso seja do que sobre quanto calça o Yeti. Chamemos-lhe uma revista independente e plural que não se limita a ser um aglomerado amorfo de criações "literárias e artísticas" — o que já não é dizer pouco.

Propriedade do Grupo Desportivo e Cultural do Vilarelho (GDCV), a revista tem sede em Vila Pouca de Aguiar e é impressa em Chaves. Como é que sobrevivem?

— De facto, a Periférica é impressa em León, Espanha, através de uma empresa com escritório em Chaves, mas isso é um pormenor... A nossa contabilidade (à merceeiro) é muito simples: a publicidade paga a impressão, as vendas e as assinaturas pagam as despesas de distribuição; uma vez ou outra dá para pagar um jantar ao pessoal. Havendo uma necessidade pontual, o GDCV adianta dinheiro. Ninguém recebe nada pelo que faz — o que nos poupa um ror em salários e royalties. Nestas condições, não damos prejuízo ao GDCV.

É puro prazer?

— É certamente prazer, mas não será puro: vem diluído em muito trabalho. O principal prazer está no resultado e na sua antecipação: ter a revista nas mãos, vê-la ser comprada, sabê-la lida e comentada. Até chegarmos aí, o que há mais é suor, e muitas vezes a obrigação (auto-imposta) sobrepõe-se ao prazer. Não acreditamos em prazeres constantes, do princípio ao fim. Tudo o que vale a pena traz associada uma dose de esforço.

O apoio do IPLB revelou-se fundamental?

— Não. O apoio do IPLB só começou com o último número (o nono), o que torna evidente não ser fundamental para a sobrevivência do projecto. Esse apoio traduz-se em 135 assinaturas anuais, distribuídas pela Rede Nacional de Bibliotecas de Leitura Pública. É como nós gostamos: não nos pagam para fazermos seja o que for, simplesmente nos adquirem um produto que de qualquer modo faríamos. A principal vantagem do apoio do IPLB é o reconhecimento da qualidade do trabalho feito (pelo menos esperamos que, se algum dia baixarmos o padrão de qualidade, nos retirem o apoio e poupem as bibliotecas do entulho cultural que, nessa eventualidade, produziríamos).

A vossa independência tem um preço?

— Tem: somos pouco convidados para jantares. Agora (mais) a sério: obriga-nos a uma maior atenção quanto à coerência; custa-nos um ou outro colaborador. Mas respira-se melhor e quando se palpa a coluna vertebral ela está lá. Não é só vantagens, mas o saldo é sem dúvida muito positivo. Mas sejamos honestos: o facto de nenhum de nós viver disto facilita imensamente essa independência.

Disse um dia que «Vilarelho era uma metáfora». Pode explicar?

— Obviamente, a revista não é produzida em Vilarelho, e da equipa só um é de Vilarelho. A revista é produzida entre Vila Pouca de Aguiar e Vila Real, onde vivem/trabalham os membros do colectivo redactorial. Mas os meios financeiros à nossa disposição são os que um clube com a dimensão do de Vilarelho pode disponibilizar. Por isso Vilarelho é uma metáfora, ou várias: do que se pode fazer quando se dá mais importância às possibilidades do que aos obstáculos, de que a "actividade cultural" das pequenas colectividades não está condenada à trilogia folclore-ágatas-futebol. Reclamarmo-nos de Vilarelho é também uma questão de reconhecimento: porque foi o GDCV que nos lançou o desafio inicial, porque sempre nos deram toda a liberdade, e porque é justo homenagear um clube de aldeia serrana que, para além do futebol, tem cortes de ténis e um grupo de montanhismo, organiza recitais de música clássica e leva o teatro contemporâneo à aldeia e até à sede do concelho.

Depois, claro, há aquela questão do mais cínico marketing — mas não vamos por aí, não queremos tirar o trabalho aos detractores.

Até hoje, qual foi a grande conquista da Periférica?

— Existir, e esse facto não ser irrelevante no panorama cultural nacional.

A equipa é formada por seis pessoas. Pode apresentá-las?

— De facto, actualmente somos apenas cinco. Seguindo a ficha técnica: Rui Ângelo Araújo, director, 35 anos, programador cultural; Carlos Chaves, director-adjunto, 36 anos, assistente de produção cultural; Fernando Gouveia, subdirector, 32 anos, engenheiro electrotécnico; Paulo Araújo, subdirector, 37 anos, músico, designer, técnico de som, e tudo; Vítor Lamas, 36 anos, professor de música.

A tiragem de 1500 exemplares chega para as encomendas?

— Terá de chegar, ou pelo menos não passará os 2000 exemplares, por várias razões: orçamentais; logísticas (não é conveniente alargarmos a rede de distribuição); de qualidade (um aumento significativo da tiragem indicaria que algo de mal se passava com o conteúdo e a postura da revista — não temos ilusões quanto a isso).

Até onde querem ir?

— Obviamente, até Estocolmo.

RP 14/06/2004

O LABIRINTO DA «ESPERANÇA»

O cenário é quase invariável. Achamo-lo em bibliotecas e livrarias. Os volumes encostam-se uns aos outros. E assim se mantêm de pé. Sucede o mesmo com as pessoas. Mas também há homens e mulheres que enfrentam, de rosto descoberto, os reveses da sorte e as humilhações da vida. Passa-se algo de semelhante com certos livros. Quem já visitou a Livraria Esperança, no Funchal, sabe do que falo. Em vez de obedecerem à ordem clássica, os volumes encontram-se dispostos ao longo das paredes, suspensos por molas. As excepções não perturbam o imperativo do espaço: cada livro deve exibir a capa com frontalidade. E são para cima de oitenta mil. Em várias salas. Conheço poucas paisagens da Ilha. Mas em nenhuma vi (ou verei) maior beleza do que neste cadenciado labirinto. JFB 11/06/2004

OITO MINUTOS OU O TEMPO DE UMA REVELAÇÃO

É possível seduzir através da palavra quando a palavra já não seduz? A resposta é afirmativa: a palavra não tem de ser bela, mas certeira. E é possível que alguém saiba revelar-se em oito minutos? Talvez. Ou, pelo menos, há quem acredite nessa possibilidade. A história é contada no Independente. Os americanos descobriram uma estratégia para acharem «o amor da sua vida: chama-se "speed dating" e consiste em encontros de oito minutos». Se o diálogo já pouco significa, importa concretizá-lo num tempo sucinto. Convém reduzi-lo à troca de olhares e de banalidades da praxe. O amor não se tece: acontece. No fundo, como explica uma das participantes, «oito minutos é o tempo ideal para perceber se há química entre duas pessoas». É um problema de átomos e não de verbos, de matéria e não de espírito. Se as relações são frágeis, inventem-se começos que também o sejam. Descubra-se uma justificação a priori do fracasso. Oito minutos é tempo suficiente para as pessoas revelarem o melhor de si. A revelação do pior fica para mais tarde. JFB 06/06/2004

RADICALISMO JUVENIL

No prato do dia da edição do Independente de 4 de Junho, à pergunta «Qual é a utilidade para a sociedade de um político com o seu perfil?», João Almeida, líder da Juventude Popular, brinda-nos com um lance previsível: «Abrir o espectro político ao centro-direita ao nível da juventude e, por outro lado, ser alguém que diz exactamente o contrário do que toda a gente quer que um jovem diga.» A segunda parte da resposta é um sintoma do mal de certos meninos (à esquerda, ao centro e à direita) que tencionam dedicar-se aos assuntos públicos: julgam que a acção política é um desporto radical. JFB 05/06/2004

QUOTAS EM MEDICINA

A diminuição da percentagem de homens que entram para o curso de Medicina é um problema. Mas não pelas razões apresentadas por Germano de Sousa, bastonário da Ordem dos Médicos, ou por António Sousa Pereira, presidente do conselho directivo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. O problema não é a menor dedicação das mulheres ao serviço, nem tão-pouco um homem não se sentir bem perante uma urologista. O problema é as mulheres, de facto, optarem pouco por certas especialidades: a já referida urologia, mas também, por exemplo, ortopedia ou cirurgia.

As mulheres são em geral mais responsáveis e estudam mais do que os homens (conforme admitiu o próprio bastonário da Ordem) — tudo características necessárias aos futuros médicos e médicas. Não admira por isso que actualmente sejam maioritárias nos seus cursos e se situem geralmente no topo das tabelas de classificação. Serão elas, pois, as primeiras a optar pelas especialidades que seguirão. O problema — que de facto existe — é as especialidades a que as mulheres tradicionalmente fogem poderem num futuro não muito distante estar condenadas a ser opção para uma minoria cada vez mais reduzida e constituída pelos piores da sua classe: os homens. Porque o problema quanto aos homens não é a sua menor quantidade, mas as suas menores qualidades: capacidade de trabalho e empenho, responsabilidade, focalização nos objectivos.

A solução, obviamente, não passa pela instituição de quotas para a entrada de candidatos do sexo masculino. Isso não melhoraria o destino das especialidades preteridas pelas mulheres: simplesmente garantiria a diminuição geral da qualidade dos cursos de Medicina, pois os homens que entrariam a mais seriam aqueles que, num contexto de selecção baseada no mérito, ficariam de fora. Nas próprias palavras do bastonário da Ordem dos Médicos, «as quotas parece sempre que são para defender um ser inferior» (eu exprimir-me-ia de forma menos dubitativa).

Aquilo que alguns (homens...) vêem como um problema é, de facto, a solução: se são melhores, há que sensibilizar as mulheres para todas as especialidades médicas, para bem dessas mesmas especialidades. Pois o grande problema não será a falta de à-vontade do paciente que se vê perante uma urologista — o problema será esse mesmo paciente ser atendido por um urologista, refugo do seu curso. FG 05/06/2004

O MASSACRE FOI UM BOM MASSACRE

Segundo o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Liu Jianchao, o massacre de Tiananmen (4 de Julho de 1989) «desempenhou um óptimo papel na estabilização da situação, que permitiu à China desenvolver a sua economia, e contribuiu para a paz e o desenvolvimento do mundo». Post hoc, ergo propter hoc. FG 02/06/2004

ENSAIO SOBRE A IGNORÂNCIA OSTENSIVA

Consumo pouca televisão. Sete minutos por dia, ultimamente. Existem alternativas. E o tempo é escasso, e a vida é breve. Desconheço cada vez mais o mundo nas suas imagens móveis. E os véus e caricaturas que o disfarçam. O meu sucinto saber do que desfila no pequeno ecrã é garantido por indirectas vias, mormente em forma crítica. E eu agradeço. Na edição do Independente de sexta-feira passada, Miriam Assor assina um texto sobre determinado programa televisivo — Um sonho de Mulher — que, no dizer da articulista, «poderia ser recomendado para o tratamento das depressões e do stresse». O artigo evidencia, mediante exemplos, a ignorância das candidatas a Miss Portugal 2004. Ignorância ostensiva, capaz de gerar uma angústia subterrânea e a hilaridade que a liberta. Mas apontar estes aleijões do intelecto é ocupação redundante. A ignorância ostensiva não necessita de ser posta em relevo. Encontra-se a cada passo. Corrijamos com discrição. E nada de rir, que a coisa é séria. Quase tão séria como a coisa é a causa — a causa do fenómeno: o ódio e, no limite, a indiferença relativamente ao conhecimento e à sabedoria. Um ódio e uma indiferença por cujo despontar a televisão é a grande responsável, a causa primordial. Claro que há programas culturais. E concursos em que se aprende muito. Mas isso constitui a fachada incerta de um edifício em ruínas. A televisão não fomenta directamente o ódio e a indiferença ao saber: alimenta um hedonismo que dispensa e avilta qualquer preocupação de natureza intelectual. O que interessa, na orientação filosófica da TV, é o divertimento imediato, aquilo que se leva desta vida. Como se desta vida se levasse alguma coisa. Ou como se aquilo que se leva pudesse haurir-se da banalidade e do efémero. O resto, o espírito de sacrifício, a busca paciente do conhecimento (e, sobretudo, do auto-conhecimento), é relegado para segundo plano. É tarefa de seres envelhecidos. É mister que entedia. Sócrates terá dito, Platão registou: uma vida sem exame não vale a pena ser vivida. A televisão tenta provar outra tese: a vida só vale a pena ser vivida se não for examinada. Em consequência, instala-se uma atmosfera onde é indiferente que o autor de Os Maias seja Virgílio Castelo ou Schopenhauer, ou um pintor americano, ou Eça (ou aquela). Procurar saber? O que é que isso contribui para a minha felicidade? Pergunta imbecil, resposta imediata: nada. Se a felicidade é à superfície, o conhecimento é inútil. JFB 31/05/2004

PEQUENAS PÉROLAS JORNALÍSTICAS

Inicio hoje uma recolha (necessariamente incompleta) de "pequenas pérolas jornalísticas" que vão ocorrendo na nossa imprensa, escrita e televisionada. É algo que tenho adiado sucessivamente — não por falta de stock, mas por desleixo ou indecisão. De hoje não passa.

Antes de mais, a definição: por "pequena pérola jornalística" entenderei toda a afirmação ou comentário breve que denote uma profunda e inaceitável ignorância por parte de quem a produz — alguém que, por ser profissional da informação num mundo altamente mediatizado, contribui para a propagação dessa mesma ignorância.

Um exemplo já com alguns meses foi o anúncio (não me lembro em que televisão) de que os americanos pretendiam «julgar à revelia» o ex-ditador iraquiano que acabavam de capturar... Outro, fora do âmbito jornalístico, foi a campanha anterior à adopção do euro, em que se explicava que este valia 200 escudos e 482 centavos.

E agora, a pérola do dia:

Alexandra Campos, Público, 26/05/2004: «[...] a taxa bruta de nupcialidade passou de 7,2 por cento (por mil habitantes) em 1991 [...]» FG 26/05/2004

DE KANT A ABU GHRAIB

Kant pôs o princípio em evidência: age apenas de acordo com uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal. Simplificando: age como gostarias que todos agissem. A fórmula parece vulgar. Parece frágil. Talvez não resolva certos conflitos. Talvez não evite de todo o nosso espontâneo egoísmo. Descontadas estas fatalidades, o imperativo adquire o estatuto de lei suprema. Porque emerge da consciência. O valor moral das acções não reside nos efeitos a que estas conduzem, antes na intenção que as orienta. Nada é mais difícil de conhecer do que as intenções. Sejam do eremita ou do mártir, do político ou do vendedor. Mas a natureza das intenções de quem tortura não costuma suscitar dúvidas: que centelha de humanidade se aninha atrás da violência gratuita?

A edição do Independente de sexta-feira passada publica uma entrevista a Lynndie England, a jovem que aparece em várias fotografias tiradas na prisão de Abu Ghraib. O riso anotado ao longo das respostas faz-nos adivinhar o pior. A revelação surge perto do fim: «Se pensar bem, nós só os humilhámos, despimo-los, fizemo-los correr para cima e para baixo até ficarem exaustos.» A desculpa nasce de uma soma breve. «O que é isto [acrescenta] se compararmos com aquilo que eles fizeram aos americanos, que foram queimados vivos, arrastados pelas ruas e atirados de pontes abaixo?» Como se a selvajaria pudesse, afinal, ser redimida mediante a sua comparação com acções de idêntico jaez. Como se o bem e o mal fossem estabelecidos por uma figura de retórica.

O filósofo procurou o fundamento da moralidade. O imperativo é universal. É categórico. Não se submete a condições. Mas favorece a discussão, à míngua da qual a ética definha. Kant acreditava no progresso moral dos homens. Na elevação. Na saída da menoridade. A jovem militar ilustra o avesso. Não exalta a virtude: escamoteia o vício. Não argumenta com a razão: avalia com o disparate. Não discute valores: compara humilhações. JFB 24/05/2004

PERIFÉRICA MUDA DE SERVIDOR

Se estão a ler este post é porque se concluiu com êxito a mudança de servidor do site da Periférica.

Nas últimas duas semanas o nosso servidor anterior (HerculesHoster.com) não tem funcionado convenientemente. Inicialmente o problema restringiu-se ao servidor de e-mail (conforme alertámos há já alguns dias), tendo como consequência perda de todas as mensagens enviadas para os endereços @periferica.org. Desde ontem também o servidor de FTP deixou de funcionar, o que nos impedia de actualizar o nosso site (que esteve sempre activo).

Em virtude disso, tornou-se inevitável a mudança para outro servidor. Esperemos que seja, efectivamente, para melhor. RP 21/05/2004

O PRESSUPOSTO FUTEBOLÍSTICO

Os mais desatentos já se deram conta: os anúncios publicitários tendem a colar-se ao futebol como a um patriarca absoluto. O refrigerante não é só vigor: é corolário de uma jogada. A instituição não é só ordem: é sucursal do estádio. O supermercado não é só troca: é chamamento de claque. Se o exibicionismo publicitário adere com tanta facilidade à matéria futebolística, é porque o futebol se transformou numa instância logicamente anterior à publicidade. O futebol não se reduz a um desporto: traduz um pressuposto. Recusar ser adepto constitui uma falta de difícil remissão. Mostrar-se indiferente aos destinos da bola é atitude que denota incultura, ou uma ligação atávica a horizontes pouco nossos. O exemplo vem de cima: nenhum político prescinde da bancada, do palpite, do evento e, nalguns casos, de orientar o culto e a arruaça. O exemplo vem de baixo: a plebe descobriu nos ingredientes do espectáculo a sua decisiva consolação, uma promessa de beatitude. O exemplo, enfim, já não é exemplo: é conduta instituída, arquétipo realizado. Em certo anúncio, um futebolista recita: «Esta é a tua alma, a tua vida, a tua emoção...» Não ouço mais. Rejeito o artifício poético, a vaga rudimentar do gosto. Mas percebo a estratégia: a alma rendeu-se ao esférico; a vida, ao campeonato; a emoção, ao pontapé. A publicidade vai assim afeiçoando os espíritos mais rudes. O futebol tomou conta de tudo, asfixiou as últimas resistências, invadiu a política, a economia e a metafísica. Hoje, com mais propriedade do que nunca, dir-se-á que Portugal é um jardim à beira-mar: o território converteu-se em relvado. Mas esta relva esconde o deserto. Este verde é apenas um disfarce da nossa pobreza. JFB 20/05/2004

PERIFÉRICA, 2 ANOS: festa / convívio / conferência de imprensa

Na próxima sexta-feira, 21 de Maio, a partir das 21:30, realizar-se-á a festa/convívio que assinala os dois anos da revista Periférica. O evento terá lugar no bar da Aquilae Disco, em Vila Pouca de Aguiar. Estão desde já convidados todos os colaboradores, amigos e inimigos que desejem aparecer. Não é preciso gravata nem vestido de noite.

Antes do convívio haverá uma conferência de imprensa, onde será feito um balanço destes dois anos de edição e se discutirão as perspectivas de futuro. Soa algo árido, mas tentaremos que não o seja. RP 17/05/2004

DÚVIDA GASTRONÓMICA

De algum tempo a esta parte, o Independente resolveu dar «voz ao português não anónimo». Em página concebida para o efeito (prato do dia é a expressão que a identifica), o semanário põe figuras públicas a falarem «sobre o país, a filosofia, a arte, o amor, a verdade e a vida». O modelo adoptado é o da entrevista despojada de «complexos ou tabus», ainda que as respostas surjam eivadas de «rodeios e reticências de toda a espécie». O jornal sente-se ainda na obrigação de acrescentar que as «entrevistas são mesmo verdadeiras», como se houvesse a possibilidade de as figuras públicas oferecerem passivamente o nome a depoimentos fictícios. Nesta semana, a entrevistada é Isabel Figueira, e as questões vão desde o legado de Kant à essência do orgasmo, sem esquecer o número de cantos d' Os Lusíadas e a índole cancerígena da globalização. Até aqui tudo bem, ou quase tudo, e o prato do dia é servido com os ingredientes indispensáveis para abrir o apetite ao leitor. Duas colunas laterais vão exibindo notas que visam emendar as calinadas, ou obturar os hiatos cognitivos, das criaturas sujeitas à entrevista. Trata-se de uma série de condimentos destinados a corrigir o sabor do manjar. A minha dúvida, elemento perturbador da deglutição, situa-se menos ao nível da letra que do espírito inerente a esta iniciativa: o Independente deseja ensinar o público, mediante a ignorância do entrevistado, ou sujeitar o entrevistado a uma forma indirecta de humilhação pública? JFB 15/05/2004

PROBLEMAS COM OS E-MAILS DA PERIFÉRICA

Comprovámos agora aquilo de que já desconfiávamos: os e-mails da Periféricanão estão a funcionar convenientemente. Este problema afecta não apenas o e-mail geral da revista (revista@periferica.org), mas todos os endereços de e-mail @periferica.org (isto é, também os dos nossos colaboradores) e verifica-se há já alguns dias (ao certo, não sabemos quantos). Assim, a grande maioria das mensagens que nos enviaram nas últimas duas semanas não chegaram ao seu destino.

Em face disto, agradecíamos que dirigirem toda a correspondência para revistaperiferica@gmail.com. Obrigado e desculpem o incómodo. RP 14/05/2004

ESTALINISMO BÍBLICO

Quem, como eu, faz da escrita uma arma contra o tédio e não se importa de acirrar uma ou outra consciência está preparado para contra-ataques, ressentimentos, indignações e até vinganças geladas. Está preparado para o melhor que a vida nos pode oferecer. Mas o telefonema de Tiago Gomes, director da Bíblia, na passada semana, excedeu aquilo que me atreveria a considerar uma normal reacção impensada, uma tolice provocada pela precipitação e pela raiva do momento. Foi delicioso.

Já vi e li de tudo um pouco. Já vi gente inteligente espalhar-se ao comprido porque não compreendeu uma ironia. Já vi alguns intelectuais perderem a compostura por, num mau momento, não controlarem emoções primárias perante a crítica. É público o esforço de muitos para transformarem em maledicência alguns textos que, desinteressadamente, pensando apenas no bem público, escrevo. Mas, confesso o júbilo, uma reacção como a de Tiago Gomes ainda não tinha tido.

Recordo aos leitores deste blogue que publiquei há dias um texto de opinião sobre a revista Bíblia. Não tive o consentimento do episcopado nem paguei qualquer bula, é certo, mas também não desejei incorrer em pecado mortal nos comentários que fiz àquelas folhas sagradas. Era uma opinião e apenas uma opinião, pensava.

Concedo que havia alguma polémica na tese que defendi. Concedo, até, que não era muito simpática a minha opinião. Mas, que raio!, não se tratava de um decreto. Não era uma acção judicial. Não emiti um mandato de captura. Não condenava aos calabouços ou a trabalhos forçados ninguém que trabalhasse na Bíblia. Mais: o meu texto não era um mandamento. Tenho testemunhas de que nenhuma sarça ardeu por um gesto ou ordem minha. O meu médico pode atestar a minha infeliz mortalidade — e nos anais da História de Portugal há décadas que não se fala em ditadores.

Mas quem convence disso Tiago Gomes? Para ele é impossível que eu, criatura cheia de certezas, não tenha um bigodinho e um nome giro como o de Hitler.

No simpático telefonema que me fez, Tiago Gomes, despreconceituado, mostrou-me o seu estado de alma. Lembrou-me que anda nisto há oito anos. Que tem uma grande família (parece que mais de 400 pessoas). Que houve um qualquer problema de comunicação com o jornalista que lhe fez a entrevista para a Notícias Magazine que eu comentei. Empolgado ou auto-irónico (aqui não percebi bem) até me ameaçou: que iria escrever um texto a demolir a Periférica. Melhor: pediria a alguém que escrevesse um texto a demolir a Periférica, que ele não tem tempo para estas coisas.

Por momentos assustei-me. Um texto a demolir a Periférica é coisa preocupante. Na Bíblia, ainda por cima, tem força de lei. Divina. Mas depois fiquei descansado. Não sendo Tiago Gomes a escrever o texto diminuíam-se as vítimas. Penava eu, poupava-se a língua portuguesa. RAA 12/05/2004

ESTRANHOS SÃO OS CAMINHOS...

Graças ao Sitemeter, podemos saber de onde vêm as visitas que chegam ao nosso site. A maior parte seguiu links que, pelas mais diversas razões, apontam para aqui, ou escreveu directamente o endereço que encontrou algures na imprensa (esperemos que nas próprias páginas da Periférica, depois de a terem comprado...). Mas há também aqueles que vão a algum motor de busca ou portal e chegam cá em resultado de uma pesquisa.

Graças ao Sitemeter (o serviço é grátis, tenho de o gabar), podemos saber o que procuravam essas pessoas que encontraram o site da Periférica. E se há pesquisas mais ou menos óbvias, como o nome da revista ou de algum colaborador, este ou aquele tema que abordámos na edição em papel ou no blogue — se há estas formas expectáveis de cá chegar, dizia, há por outro lado percursos que, desconcertantemente, conduziram até nós.

Vejamos alguns exemplos dos últimos dias. Como é possível que procurando saber «tudo sobre o sismo na Turquia no dia 17 de Agosto de 1999» se acabe entre os bytes da nossa edição online? Garanto-lhes que nada temos a ver com o assunto — se mais não fosse, porque a Periférica ainda não existia nessa altura.

Pior: «animal de estimação dos nigerianos» e «mamíferos líderes do rebanho» foram outras duas vias que conduziram até nós. (E aqui surge a dúvida: insultam-nos ou procuram informação sobre polémicas passadas?)

Talvez a feitura da Periférica seja para nós um acto masturbatório (e nesse caso só não damos a mão à palmatória porque a temos ocupada), mas não será por isso que este é terreno fértil para encontrar «fotos secretas de decotes sensuais». E só mesmo se nos dedicássemos à pornografia é que publicaríamos «fotografias de Garcia Pereira MRPP»... FG 12/05/2004

HISTÓRIA DO ATEÍSMO

Foi finalmente publicado em Portugal o livro que, desde há pelo menos cinco anos, eu indicaria se algum dia me perguntassem a clássica «Que livro gostaria de ver traduzido em português?» (infelizmente, nunca ninguém quer saber essas coisas — ou muitas outras — de mim...).

Refiro-me a História do Ateísmo, de Georges Minois, setecentas e tal páginas a que tenho de me dedicar o mais rapidamente possível.

O aspecto menos positivo (a priori — espero enganar-me) foi a Teorema ter entregue a tradução a Serafim Ferreira, que recordo por ter traduzido outra obra do mesmo autor saída na Teorema: História do Futuro. Li o livro há não muitos meses (esteve anos na fila de espera) e surpreendeu-me pela negativa um tão pouco rigoroso trabalho de tradução... FG 06/05/2004

SOBRE AS PUBLICAÇÕES "INDEPENDENTES"

Em sequência do post "Bíblia", o nosso colaborador Rui Lúcio Carvalho enviou-nos as seguintes observações:

A edição (mais ou menos independente) em Portugal é como o resto, surge à imagem do país. Mas há que convir que a Periférica, a Bíblia, a Flirt, a Satélite Internacional, a Rata, a V-Ludo, a Zundap, a Mundo Bizarro e todas as outras, independentemente do "contrato" que tenham com os públicos que conquistam (é a eles que têm de responder), servem a cultura e o que resta do país. Bem ou mal é o que somos, e é o que seremos. Elas ajudaram-nos a crescer. Não se pode esperar que quem edita pela primeira vez, como normalmente acontece com a maioria das pessoas que fazem este tipo de publicações, o faça com perfeição. Com certeza que se evolui desde as primeiras tentativas. Mesmo nas publicações que pouco ou nada evoluíram, ou cujos limites não percebemos bem, há um contributo.

As revistas não são só a edição em si. São também a discussão dos limites da norma. Qual é o problema de fazer uma revista que só vale em termos gráficos? Da Bíblia e da Flirt, por exemplo, saiu o que de melhor se faz actualmente em termos visuais. Ver e responder ao que se vê são mecanismos fundamentais do desenvolvimento (não só visual).

É claro que podemos ficar seguros com o que dominamos, mas ficamos mais pobres. Onde se percorrem caminhos alternativos senão nas publicações desalinhadas da edição conservadora e redutora dos grupos editoriais portugueses?

E porque não recusar publicidade, mesmo que isto seja um reflexo retrógrado de doutrinas passadas?

Não deixa de ser válido o que se tem para dizer, mesmo que seja pouco. É a experimentação que vale. Foi da experimentação que nascemos e crescemos intelectualmente, e é nela que podemos continuar a crescer, penso eu.

Vale tudo, até pedir dinheiro às instituições públicas que nós suportamos.

30/04/2004

REVISTAS ALTERNATIVAS

No universo das revistas alternativas (ou como se lhe queira chamar), há uma de que não gosto nada, mas invejo, e outra que é demasiado ingénua e branda para que a aprecie, mas que admiro. Confraternizei com os directores de ambas no "Livro Aberto", de Francisco José Viegas. Trocámos contactos e bebemos copos. Ficámos amigos (se se pode aplicar o termo), por isso estou à vontade para a crítica.

A 365, do simpático, dinâmico e radiofónico Fernando Alvim, não presta. Raramente há um texto que escapa. É tipo "televisão em movimento", com muitos pulos e ideias "giras" — mas quase nenhuma se aproveita. No entanto, tem um leque de patrocínios publicitários que me causa calafrios na carteira. Proponho ao Alvim & Companhia: nós ensinamo-vos a escrever e vocês trabalham para nós como angariadores de publicidade...

A Ilhas, de Pedro Arruda & Friends, não critica, por opção. É mole. Os textos são geralmente fracos, sem rasgo. Mas a revista vive, com nobreza, da publicidade que angaria. E mais: os autores da revista concebem e desenham eles próprios a publicidade. O design é um luxo. Se perder alguns pudores, se amadurecer a linha editorial, se apertar a bitola dos colaboradores, se perder a tentação regionalista — se levantar âncora, em suma — a Ilhas ainda pode ser uma boa revista. E pode causar-nos preocupações. RAA 28/04/2004

CAPITALISTAS SELVAGENS

Naturalmente, após a leitura do meu post de ontem sobre a Bíblia, os mais finórios dirão: «Falais muito, mas não dispensais o IPLB, a Delegação da Cultura, o Inatel...» Só aparentemente, meus caros, só aparentemente. A nossa relação com estas instituições, como com outras entidades, é meramente comercial. Assumidamente capitalista. Selvaticamente capitalista. Não reivindicamos subsídios: vendemos páginas de publicidade e assinaturas. A quem as queira comprar. A quem veja utilidade nessa compra. Tentámos as Caves Aliança, por causa do whisky Grant's. Não resultou. Conseguimos o IPLB, que nos assinará a revista para a distribuir pela Rede Nacional de Bibliotecas. Havemos de tentar, se vier a ser necessário, a Santa Madre Igreja — esperando que a Bíblia nos perdoe a intromissão. RAA 28/04/2004

PERIFÉRICA n.º 9

Já está disponível a edição online do n.º 9 da revista Periférica. Como sempre, apenas oferecemos um aperitivo para tudo o que se pode encontrar na edição impressa.

Quanto a esta, começará a ser distribuída pelos locais de venda habituais a partir de quinta-feira, dia 29 (fora de Trás-os-Montes apenas segunda ou terça-feira da semana que vem).

Finalmente, a sessão de lançamento está marcada para dia 7 (sexta-feira) na FNAC Chiado, pelas 18:30. RP 27/04/2004

BÍBLIA

Nos últimos anos tive alguns contactos com a Bíblia. Não se tratou de leituras religiosas. Refiro-me à revista mais ou menos underground e "independente" de Tiago Gomes. Há uns tempos li na Notícias Magazine a entrevista com o director e recordo uma apresentação da Bíblia em Torre de Moncorvo, onde Tiago Gomes anunciou temer pelo fim da revista com a saída de João Soares da Câmara de Lisboa, autarquia que patrocinava o magazine. Na altura questionei-o sobre outros meios de subsistência, como por exemplo o mecenato particular ou a publicidade. Impossível. Fora de questão. Ninguém o faria.

Revistas como a Bíblia têm vários pecados capitais. Raramente são feitas para serem lidas (talvez o sejam para serem olhadas). A pobreza da maioria dos textos é franciscana e a sua legibilidade perde-se habitualmente nas experiências gráficas. No entanto, os autores não abdicam de as fazer — o que está muito bem —, mas reivindicando um direito inalienável ao subsídio — o que está muito mal.

Estes «casos de culto» estão geralmente contra o sistema — excepto na hora de recolher a avença. Posicionam-se contra o «capitalismo selvagem», uma «injustiça» em que estamos «mergulhados» por factores como «ganância, falta de educação e de cultura, injustiça [ei-la de novo!], mesquinhez e tacanhez» (itálicos meus).

Na Notícias Magazine, a propósito do lançamento de um livro (legível, espera-se) que antologia vários textos saídos na Bíblia, Tiago Gomes repete a ladainha dos apoios. A Bíblia, que se anuncia como sendo «mais lida do que a outra», considera, sem notar o paradoxo, que os apoios estatais ou autárquicos são «indispensáveis a um projecto que não se rege por princípios comerciais».

Não sei quem pagará o livro que comemora os vinte números da Bíblia (espero que os leitores), mas estou curioso para ver no que deu oito anos de experiências financiadas pelo erário público. RAA 27/04/2004

POR ACASO OU POR MIL COMBINAÇÕES QUÍMICAS

O número da Periférica que sairá nos próximos dias poderia ser um número temático. «Por acaso ou por mil combinações químicas», diferentes rubricas confluíram para uma nebulosa comum — que, no universo da literatura, é de facto uma nebulosa incomum: a Ciência. Na entrevista, após sucessivos adiamentos, Jorge Buescu, matemático e divulgador científico. Não tem livro recente (talvez em 2005), mas de qualquer modo desconfiamos quando o interesse de algo depende do calendário. Não é o caso. Na crítica literária, mais Ciência, ou uns ares da sua graça: abrimos os baús e procurámos o seu rasto sob a pele da Literatura. Encontrámo-la: Abbott, muito Calvino, Lightman. Tudo boas alternativas ao enfadonho mercado do trimestre (ou seria desatenção nossa?). Ciência ainda na BD (exactamente: também aí) — na badana pré-publicamos "A Insuspeitada Beleza do Teorema de Tutte", história retirada do quarto volume da série A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes.

Mais BD (isso mesmo: venha a lapidação) na nova rubrica "Encontro de irmãos". A ideia inicial era passar para banda desenhada uma tentativa de poema deixada na gaveta — afinal, já havia uma banda desenhada sem palavras à espera destas. «Por acaso ou por mil combinações químicas.» Acreditem se quiserem.

Mais coincidências («por acaso ou por...») em "A Barreira Invisível": J. Rentes de Carvalho fala-nos de judeus, Pedro Paixão escreve sobre palestinianos. Os judeus são portugueses, mas coincidências exactas só mesmo por encomenda. Não foi o caso: de um lado alguém que é da casa, do outro alguém que bate à porta. Se há harmonia nas esferas, não nos cabe especular — quanto muito, tiramos partido dos acordes. Publicamos aquilo de que gostamos: haverá melhor critério?
(Adaptado do "Relatório Minoritário" da Periférica n.º 9)

UMA AULA EXEMPLAR EM TEMPOS DE LIBERDADE

Assisti ontem, pela RTP 1, à lição do professor Marcelo sobre o 25 de Abril. Uma autêntica maravilha pedagógica! De um lado, o mestre cheio de sorrisos idóneos, a ensinar com devoção e a corrigir com brandura; do outro, uma turma de alunos asseados, educados, civilizados, inteligentes, participativos e detentores de conhecimentos hauridos no berço, ou de genética raiz, ou impressos na alma desde sempre. Confesso que, diante do panorama, várias vezes me acerquei do limiar da emoção. A aula terminou com o professor a aplaudir a turma, a oferecer jogos, grato pelo ensejo e a prometer voltar. Aí, não pude suster uma lágrima discreta, ou duas, acompanhadas de uma terceira, ao desfilar apoteótico da canção: uma criança dizia, dizia: "quando for grande não vou combater". (Et pour cause.) Eu limitei-me a suspirar: ah, se todas as minhas aulas fossem programas televisivos! JFB 24/04/2004

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