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O blogue da Periférica

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JOGAR PELO SEGURO (ISLÃO VI)

Conforme disse anteriormente, a apregoada tolerância islâmica quando o Islão está no poder necessita de maior verificação antes de ser aceite como um facto. Aos mais apressados convém lembrar que: (1) o Islão dos sécs. XI ou XVI não é o Islão do séc. XXI — os traumas e os fanatismos alimentados por séculos de inferiorização não se apagam com a (hipotética) reconquista da dignidade e da supremacia; (2) a "tolerância" dos sécs. XI ou XVI é a barbárie do séc. XXI — a nossa exigência enquanto cidadãos aumentou de então para cá.

Assim sendo, no que toca à tolerância islâmica quando "na mó de cima", ponho de parte a minha natural curiosidade científica e sociológica e prefiro nunca ter de verificar se tal é, de facto, assim... (Para mais, não cumpro os seus "critérios mínimos" do direito à vida.) FG 19/04/2004

TEOREMA DA EXISTÊNCIA (ISLÃO V)

Uma amiga minha discorda comigo quanto à inexistência de relação causa/efeito no facto de os Direitos Humanos se terem desenvolvido como ideia e afirmado como princípio legal no seio da civilização de tipo ocidental, de matriz cristã. Em sua defesa (da minha amiga) aponto o seu estatuto de descrente, o que aumenta as suas probabilidades de isenção nesta matéria.

Não nego que existe uma certa correlação, pelo menos no sentido Democracia => país de tipo ocidental, mas é mais do que sabido que uma correlação, ainda que forte (o que não é o caso), não basta para inferir uma relação de causalidade. Em especial, é preciso levar em linha de conta que a correlação existente não é Democracia => país cristão (veja-se o caso do Japão) e muito menos país cristão => Democracia (os contra-exemplos são tantos que nem vale a pena enumerá-los).

Também não nego que, historicamente, as ideias de Direitos Humanos, liberdade religiosa, igualdade perante a lei e tratamento condigno (abolição da escravatura e da pena de morte, proibição da tortura, etc.) surgiram de forma generalizada e ganharam estatuto legal em países ocidentais de matriz cristã. Mas convém recordar que muitos desses princípios remontam, pelo menos na sua versão embrionária, a sociedades pagãs (código de Hamurabi, democracia grega, direito romano). Uma vez mais, de um acontecimento circunstancial não se pode deduzir uma relação causa/efeito ou uma condição sine qua non. É nesta ideia de circunstancialidade que reside a diferença fundamental: todos os mamíferos têm sete vértebras cervicais, mas daí não se pode concluir que tal seja uma condição sine qua non para um qualquer animal, em qualquer tempo e lugar, ser mamífero, muito menos que foi o facto de ter sete vértebras cervicais que levou esse animal a ser mamífero; simplesmente, por acaso da selecção natural ocorrida no nosso planeta, todos os mamíferos descendem de uma espécie animal com sete vértebras cervicais, conservando essa característica dos seus antepassados. O mesmo se passou, sustento eu, com a Democracia e o Cristianismo.

Por outro lado, a elevadíssima correlação entre civilização islâmica e regime político repressivo não deve ser escamoteada. Se está por provar a existência de causalidade, também está por verificar a compatibilidade entre uma sociedade islâmica sem influência ocidental e os conceitos básicos de Democracia e Direitos Humanos. Não peço muito: só um exemplo que nos mostre que tal é possível, que nos dê a esperança de que tal pode acontecer mais vezes. Só um. Nas ciências de carácter mais empírico chama-se a isso Teorema da Existência. FG 19/04/2004

TOLERÂNCIA ISLÂMICA? (ISLÃO IV)

Em conversa com o Pedro Mexia sobre o livro de Bernard Lewis, O Médio Oriente e o Ocidente — O Que Correu Mal? (que ainda não li), abordámos algumas das questões que deixei registadas nos posts anteriores. A certa altura o Pedro citou alguém (Lewis ou outro autor?) que disse ou escreveu algo como «O Islão é tolerante quando está por cima e intolerante quando está por baixo».

Analisando um pouco a História parece ser uma conclusão sustentada. Até à criação do Estado de Israel os judeus tinham muito menos razões de queixa dos governantes muçulmanos — árabes ou otomanos — do que dos governantes da Europa cristã. (Na década de 1950 a remanescente comunidade judaica de Marrocos ainda agradecia anualmente a Deus, no chamado "Purim de Dom Sebastião", ter concedido a vitória aos Mouros em Alcácer Quibir...) Há também provas de que, com uma ou outra excepção de exacerbamento fundamentalista, o tratamento dispensado aos cristãos no al-Andalus sob o domínio muçulmano foi muito mais tolerante do que o dispensado à minoria muçulmana quando o poder mudou de mãos.

As razões (e a factualidade) desta tolerância islâmica são discutíveis. Alguns verão aqui a prova de que o Islão é, por natureza, não só tolerante como mais tolerante do que as demais religiões monoteístas. Eu permito-me relativizar um pouco.

Por um lado, só com mais algumas alternâncias nas relações de poder seria possível verificar a veracidade desta suposta relação "Islão poderoso = Islão tolerante"; extrapolar uma regra geral a partir de uma única observação histórica é muito pouco sério. Depois, há a dúvida legítima sobre se o comportamento dos governantes islâmicos adviria de uma natural tolerância do Islão, seria uma característica cultural exterior ao Islão, ou, terceira hipótese, não mais do que uma consequência do mais puro pragmatismo económico e social.

Antes de mais, os factos: aos povos não muçulmanos conquistados (dhimmis) que não fossem pagãos (critério mínimo para o direito à vida) era concedida alguma liberdade religiosa, desde que: (1) se submetessem pacificamente à lei islâmica e ao poder político; (2) mantivessem a sua fé na esfera privada (nada de manifestações pública de fé, nada de igrejas ou sinagogas com porta para a rua); (3) se abstivessem de toda a prática proselitista e não interferissem com as práticas proselitistas islâmicas; (4) pagassem a jizyah, espécie de imposto religioso ou multa pelo facto de não serem muçulmanos, de facto um penhor para que lhes fosse permitido viver fora da "verdadeira fé". Pelos padrões actuais parece pouco, mas a verdade é que na Cristandade de então não se fazia melhor, bem pelo contrário.

Mas agora a dúvida legítima: não residiria no interesse económico da jizyah muito da tão apregoada tolerância? Cumpridos os "critérios mínimos" do monoteísmo, aos governantes interessavam infiéis pagantes e socialmente inferiorizados, logo mais rentáveis e fáceis de controlar. (Há relatos de senhores que obstruíam a conversão dos seus escravos, pois a conversão significava a liberdade desses mesmo escravos.) O que nos leva a uma hipótese, expressa na forma de pergunta: seria o Islão tão tolerante (admitindo que o foi) se, nesses tempos de antanho, soubessem os seus líderes da riqueza que se escondia sob o seus pés e tivessem como explorá-la? FG 19/04/2004

TOLERÂNCIA CRISTÃ? (ISLÃO III)

Alguns gostam de contrapor à intolerância islâmica a tolerância cristã. E dão como exemplo (supostamente, como prova) disso as realidades árabe e europeia no que toca aos Direitos Humanos. Convém não confundir as coisas: os Direitos Humanos não são uma consequência do Cristianismo. Historicamente, as conquistas neste campo foram conseguidas, com muito sangue, em guerra aberta contra um suposto "Direito Divino": os Direitos Humanos afirmaram-se não por causa do Cristianismo, mas apesar do Cristianismo.

Repito-o (desta vez sem recorrer ao açaime): a tolerância no mundo de influência cristã aumentou na medida em que essa mesma influência cristã diminuiu, recuando para limites mais próximos dos domínios que deverão ser os das religiões: os do plano espiritual. Religião organizada com poder temporal resulta sempre em intolerância.

Todas as religiões (pelo menos as três "Religiões do Livro") pregam a tolerância, a fraternidade, os bons valores e sentimentos — tal como advogam a intolerância, a guerra, a submissão do "outro". É tudo uma questão de escolher sabiamente, no Livro de que se reclamam, as páginas que mais nos convêm (estas, sendo muitas, têm sempre algo que agrada aos diversos gostos e sensibilidades). FG 16/04/2004

PRECONCEITOS (ISLÃO II)

Na afirmação final do post anterior podem alguns apontar os pecados do preconceito religioso, da ideia de uma superioridade civilizacional do Ocidente, etc. Admito que são conclusões com alguma legitimidade: por isso mesmo — em nome dos valores do humanismo secular em que me revejo (cada vez mais me interrogo porquê...) e da total convicção na igualdade à nascença de todos os seres humanos — é que me autocensurei até agora, evitando verbalizar tais pensamentos, tentando mesmo reprimi-los. Mas chega uma altura em que os factos se impõem: se a igualdade existe — e acredito que sim — à nascença, ela é destruída pela cultura, nas suas várias vertentes.

Para não haver ambiguidades quanto ao que penso: pelos seus valores humanistas (nem sempre coerentemente defendidos), pelas suas conquistas tecnológicas, pelo bem-estar que permite aos seus cidadãos, pela maior abertura de espírito, a civilização que se convencionou chamar "de tipo Ocidental" é, com todos os seus defeitos, superior à civilização de matriz islâmica e, de facto, a qualquer outra, passada ou presente. É talvez horrível pensá-lo — alguns verão aqui um desafio para o futuro —, mas isto é o melhor que conseguimos até agora!

Não se trata de um preconceito: uma conclusão resultante de uma análise histórica é, quanto muito, um pós-conceito (boa ou má conclusão, é outra questão). Também não é racismo: o Islão não é uma raça, e mesmo os árabes não estão geneticamente fadados a viverem em sociedades repressivas do corpo, do espírito e do intelecto. Mas precisam, como os europeus no passado, de açaimar a religião, colocá-la tanto quanto possível no seu lugar e não deixar que ela tolha toda a realidade circundante.

Gostaria de poder dizer que para haver progressos nas sociedades islâmicas (pelo menos naquelas mais apegadas aos tradicionais valores árabes, que parecem ser as mais retrógradas), para haver progressos nessas sociedades, dizia, basta os povos quererem — mas é mentira: o Ocidente chegou onde chegou à custa de muito esforço, de muita guerra, de muita dor. E de muito tempo. Como disse (ao que consta) um certo governador francês da Argélia, «Então é preciso começar já esta tarde...» FG 16/04/2004

FEITOS CIVILIZACIONAIS (ISLÃO I)

De dia 8 a dia 11 estive com uns amigos em Nova Iorque. (Foi a primeira vez que lá fui; antes só tinha estado em trânsito no JFK.)

Obviamente, foi inevitável uma passagem pelo "Ground Zero". Este tipo de coisas é preciso ver para crer — e mesmo assim sai-se de lá incrédulo como tal foi possível. O mais impressionante (talvez) é o silêncio, comparado com o bulício da Broadway não muito distante: naturalmente, sem que haja qualquer solicitação nesse sentido, as pessoas calam-se ou falam mais baixo.

Confesso que me custa tomar consciência da dimensão da tragédia. As tragédias não se medem em andares, mas o facto é que sou incapaz de imaginar a altura dos edifícios desaparecidos. Tenho ali as fotografias de testemunho, os prédios que se mantêm fornecem um termo de comparação — mas simplesmente não dá.

A certa altura uma amiga desabafa: «Como é possível que alguns muçulmanos, ao verem isto, ainda sintam orgulho?!...» Suspiro: «É compreensível: em quinhentos anos, foi a única coisa de significativa que fizeram.» FG 16/04/2004

O TEU UMBIGO NÃO É O NOSSO

Na edição de Março da revista Os Meus Livros, Desidério Murcho, escrevendo sobre o blogue oteuumbigo.blogspot.com, diz: «Se pensa que a irreverência saudável e inteligente é exclusivo da Periférica, pode ser que esteja enganado... a não ser que o autor ou autores do Umbigo sejam os periféricos. Esperemos que não, a bem da diversidade.»

Mais à frente acrescenta: «Mesmo quando é injusto o Umbigo aponta para um aspecto central do meio cultural nacional: a vaidade dos seus protagonistas e a atitude servil da imprensa.»

Caro Desidério Murcho, a segunda citação resolve a dúvida contida na primeira: as nossas críticas nunca são injustas, pelo que fica provado para lá de qualquer dúvida razoável que o Umbigo pertence a outras barrigas. FG 04/04/2004

A PIOR BANDA DO MUNDO NA MELHOR REVISTA DE PORTUGAL (ou pelo menos a mais modesta)

Começamos esta semana a paginação do número 9 da Periférica. Pela primeira vez em dois anos, temos mesmo uma deadline a cumprir! Se tudo correr como previsto, lá para fins de Abril, princípios de Maio, estaremos, entre outras coisas, a pré-publicar uma história do quarto volume da série A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes. (Se as coisas se complicarem — isto é, se os prazos se "cumprirem" como é habitual em muitas publicações nacionais —, a pré-publicação acabará por ser uma pós-publicação...) RP 31/03/2004

DA INEVITABILIDADE DOS FANATISMOS RELIGIOSOS

Hoje, enquanto folheava ao acaso um livro (A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, de Laurence Sterne) que trouxera de casa para emprestar a uma amiga, deparei-me com a seguinte sentença, que sublinhara quando o li:

«A exaltação está em proporção directa à falta de conhecimento verdadeiro.»

Então compreendi a inevitabilidade dos fanatismos religiosos — sendo as religiões, como são, baseadas na convicção do conhecimento (ainda que parcial) do Divino. FG 25/03/2004

«Ó SOFIA, APONTA AÍ NA AGENDA...»

Comparados aos da sharia islâmica os mandamentos da doutrina cristã são de inegável doçura: nada de apedrejamentos, amputações, forcas ou crueldades medievais. E no mundo dito ocidental podemos, com algum orgulho, mostrar aos nossos irmãos árabes — se eles ainda não se deram conta — que, embora sem termos chegado a uma verdadeira igualdade dos sexos, entre nós, regra geral, as mulheres não temem ser consideradas como simples animais de carga ou aparelho reprodutor.

Claro que há aqueles casos de violência doméstica, em que nem os vizinhos gostam de se intrometer, nem a Polícia se apressa a acudir. E em consequência da igualdade antes mencionada, acontece também que já não são apenas as mulheres a fugir espavoridas do lar: aqui na Holanda criaram-se os primeiros refúgios destinados aos homens que se querem pôr a salvo da violência física e/ou da crueldade mental das suas caras-metades.

Esta sensível medida demorará certamente a ser adoptada no Arkansas, o estado de que Bill Clinton foi governador antes de chegar a presidente dos EUA: a legislação estadual estabelece que o marido só será punido por bater na esposa se o fizer mais de uma vez por mês. JRC 22/03/2004

UBI SUNT? ou PANEM ET CIRCENSIS

Na primeira página do Público de hoje:

«MINISTÉRIO DA SEGURANÇA SOCIAL DIZ QUE, SE TIVESSE NÚMEROS SOBRE A FOME, LOCALIZARIA AS PESSOAS E ESTAS SERIAM ALIMENTADAS»

Só falta o circo... FG 22/03/2004

CADA CABEÇA SUA SENTENÇA

Segundo o Público de hoje, um clube de futebol da Austrália decidiu obrigar contratualmente os seus jogadores a irem à missa pelo menos uma vez por mês. Pretende-se, desta forma, combater os recentes escândalos sexuais.

Com objectivos similares, os membros das equipas juvenis deverão ser desaconselhados de irem a essas mesmas missas... FG 18/03/2004

69–68–69

Não, não se trata do título do novo programa de moda da Sofia Aparício (desta vez na versão "cilindro com pernas"). É, simplesmente, a trilogia que marcou as eleições presidenciais na Rússia: segundo o Público de hoje, a campanha de Vladimir Putin teve direito a 69% das referências aos candidatos nos canais de televisão e a 68% na imprensa escrita, tendo obtido 69% dos votos. (Está sob investigação o que terá acontecido ao 1% de referências em falta na imprensa escrita.) FG 15/03/2004

WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS

Leio no Público que uma das promessas da candidatura de Vladimir Putin foi «atingir o nível de desenvolvimento de Portugal em quinze anos». Cheira-me que, se esse objectivo for alcançado, se deverá em muito à nossa colaboração. Sempre solidários, sempre uma mão amiga... somos uns corações moles! FG 15/03/2004

CORTESIA INTER PARES (4)

Nova reacção de Filipe Guerra:

1. Como comentário aos seus comentários do meu comentário (e nunca mais daqui saíamos), esclareço apenas que me servi da sua feliz expressão «inter pares» para qualificar a tese, que não digo que é sua, mas da direita, neste caso espanhola, subsequente aos atentados terroristas de Madrid: para a direita espanhola no poder, numa análise fria, é mais conveniente dizer que foi a ETA, ou lançar a confusão e a suspeição quanto a isso, do que os terroristas islâmicos, o que é altamente prejudicial para a mesma direita, pelas razões que apontei no meu comentário aos seus dois posts (apoio da Espanha a Bush). Escrevi o meu comentário ontem e, hoje, as notícias deram-me razão: a diplomacia espanhola recebeu «ordens» do poder para defender a tese da «autoria ETA» a todo o custo, quando tal autoria tende nitidamente para os islâmicos. É ou não uma decisão apriorística do governo espanhol, de pura estratégia política, de puro aproveitamento político de uma tragédia nacional? Quanto ao facto de eles «não descurarem» outras pistas, é mesmo assim: para ser credível, uma manigância não baseada em factos tem de revestir a forma, e apenas a forma, de alguma seriedade e objectividade. Eu, como ser humano que podia estar num dos comboios explodidos, considero este aproveitamento vergonhoso. Como vê, os políticos espanhóis da direita deixam o sentimento e a moral para os seus seguidores acéfalos, porque, quanto a eles, são frios e «políticos».

2. Como deve ter depreendido do meu comentário, penso e sinto (angustio-me) que o terrorismo é a grande praga dos nossos tempos e já não cabe nas categorias políticas ou de lutas sociais e nacionais a que estávamos habituados. Daí esta insegurança abissal, esta desvalorização total da vida, acompanhada de um rebaixamento cultural e de valores nunca visto. Falo de todo o terrorismo: da ETA, dos islâmicos, dos belicistas americanos e israelitas, franceses e... russos: a «guerrilha» tchetchena tem sido cuidadosamente desconotada pelos media dos grupos fundamentalistas islâmicos, com a al Qaeda à cabeça. É claro que a Rússia explora, naturalmente e como bom país capitalista que é, as riquezas da sua província do sul (a Tchetchénia é russa há séculos) e que usa métodos terroristas (tal como os americanos) para combater os seus terroristas, mas o que na Tchetchénia sobrepuja tudo é a luta pelo controlo de todo o Cáucaso (uma parte do qual é russo) por parte, principalmente, da França, da América e da Rússia. Ora, os escaninhos desta luta de geoestratégia e controlo não fazem dos terroristas tchetchenos terroristas melhores do que os outros (eles que têm cometido as chacinas mais bárbaras de entre todos os grupos terroristas) e não percebo por que devemos ser mais solidários com as vítimas do 11 de Setembro e do 11 de Março do que com as vítimas do metro de Moscovo e dos prédios de habitação das cidades russas.

Filipe Guerra 13/03/2004

CORTESIA INTER PARES (3)

A reacção de Filipe Guerra ao meu post «Cortesia inter pares» suscita-me alguns comentários ou explicitações:

  • Não duvido que ao PP dê jeito a versão de que foi a ETA a responsável pelos atentados de Madrid; também a mim ocorreu essa ideia (como a muita outra gente). Na verdade, o que me surpreendeu foi que o governo espanhol divulgasse a existência de algumas pistas (credíveis ou não) apontando na direcção de facções islâmicas. No mínimo, essa boa-fé (não descartar hipóteses possíveis em detrimento das conveniências políticas do momento) tem de lhes ser concedida.
  • Se a tese do inter pares é de direita ou não, não faço a mínima ideia, nem tão-pouco me interessa. A expressão (banalíssima, convenhamos) fui-a buscar ao meu limitado lote de locuções latinas, não ao guia de bolso da direita manhosa.
  • Quem colou a ETA ao terrorismo islamita foi a própria ETA (ou o Batasuna, o que dá no mesmo), ao classificar os terroristas islâmicos, eventualmente responsáveis pelos ataques de 11 de Março, como "resistentes", designação que, como referi e é consensual (acho), tem semas muito positivos, dada a história europeia do séc. XX.
  • Se a designação "resistência" pode ser aplicada às acções de grupos ou indivíduos palestinianos que têm por alvo o elemento israelita invasor (exército e colonos), qualquer acção cujo alvo sejam civis em zonas não ocupadas (território internacionalmente reconhecido como sendo de Israel) ou no estrangeiro só pode ser classificada como terrorismo.
  • Quanto à Tchetchénia, acho que a designação mais frequente (pelo menos em Portugal) é "guerrilha tchetchena", não "rebeldes tchetchenos". E não me parece que a escolha vocabular se deva ao interesse (que existe, claro) no petróleo e gás natural daquela região: se assim fosse, chamá-los-íamos "terroristas", designação muito mais do agrado de Moscovo, que é quem, com mais ou menos dificuldade, controla as torneiras dos pipelines...

FG 12/03/2004

Reacção a «CORTESIA INTER PARES»

(e-mail recebido de Filipe Guerra)

Mal soube do hediondo crime contra a humanidade perpetrado ontem em Madrid, eis a primeira coisa que disse Aznar: foi a ETA. Convinha-lhe (convém-lhe) que fosse a ETA, para ganhar as eleições e se perpetuar no poder e para não o acusarem de ser a causa indirecta da matança por ter apoiado a guerra injusta de invasão e ocupação do Iraque, no caso de ter sido o terrorismo islâmico (como tudo indica que foi). Entretanto, a direita, à cautela, avança já com a tese do «inter pares»: não foi a ETA, mas venha o Diabo e escolha. Não é este o fórum (o blog impõe brevidade) para debater a oposição terrorismo/guerra (como se toda a guerra de ataque não fosse terrorismo!), mas gostaria de trazer uma achega a essa dos vilipendiados «resistentes» islâmicos (que nos evocam a resistência antinazi, e já agora antifranquista): se todos os que cometem estes crimes hediondos são terroristas, por que é que aos terroristas tchetchenos os media ocidentais chamam carinhosamente «rebeldes» (o que nos evoca Che Guevara)? Não será porque o que interessa aos «Estados de direito» ocidentais é o gás natural e o petróleo da Tchetchénia, assim como aos americanos e outros o petróleo do Iraque? Creio que é nesta base real e objectiva que devemos discutir o terrorismo e tentar erradicá-lo de facto, e não com raciocínios (ou antes, malabarismos) morais. Não esqueçamos Bin Laden e Saddam quando eram «americanos». Cada qual elege os terroristas que lhe convêm.

Filipe Guerra 12/03/2004

GIBSON MEDIEVAL

Não tenciono ver A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, pelo que dificilmente estarei abalizado para julgar o filme ou as apreciações que outros dele fizeram ou farão — mas o artigo de Mário Jorge Torres no suplemento Y do Público de hoje parece-me um bom candidato a uma crítica equilibrada. Nada dos entusiasmos dos grupos cristãos radicais americanos, nada do repúdio puro e simples — espécie de crítica acrítica — de alguns representantes das comunidades judaicas (de resto, o mesmo equilíbrio se encontra nas análises do judeu Mark Robertson e do católico Peter Stilwell, resumidas no mesmo suplemento). E também nada dos preciosismos teológicos que passam ao lado da ignorância geral, erro em que frequentemente caem os sacerdotes católicos interpelados pelos media.

A grande vantagem da crítica de Mário Jorge Torres é que, em vez de analisar a imagem que o filme nos dá dos judeus, disseca a «religiosidade primitiva e acéfala» do cristão que está por detrás deste messias que agora nos servem, «como um "coelho esfolado"». Cito o parágrafo final (que não dispensa a leitura integral do artigo):

«Não se tema, pois, o reacender de um anti-judaísmo primário, com desejos de holocausto, mas antes o retorno a um cristianismo literal e "analfabeto". Depois dos fundamentalismos islâmicos, só nos faltava que a Cristandade voltasse vários séculos para trás.»

FG 12/03/2004

A PUTA DA RELATIVIZAÇÃO

O maniqueísmo é sem dúvida um mal que nos ronda permanentemente em questões políticas, religiosas ou, pensando bem, em qualquer questão, mas a mania da relativização também não lhe fica atrás. Conforme diz José Manuel Fernandes num dos editoriais do Público de hoje, «Os adversários das sociedades livres [...] facilmente encontram "explicações" para o radicalismo terrorista, mesmo quando não podem deixar de condenar a barbárie [...]. Têm sempre um "mas" no meio de cada frase [...].» Um exemplo muito claro disso foram algumas das reacções a 11 de Setembro de 2001: os ataques eram hediondos, «mas» os Estados Unidos até que "andavam a pedi-las"...

Mas nem só de «mas» se fazem as relativizações. Algumas surgem-nos sob a alçada de um «ainda por cima», explícito ou não: nestas, não se pretende justificar o horror, mas a sua inaceitabilidade. Uma inaceitabilidade que resulta, não do estatuto de civis desarmados das vítimas, mas da sua pertença à classe operária. É essa a outra, mais subtil, relativização. Veja-se (entre muitos exemplos que só as falhas da memória impossibilitam apresentar) este trecho de um texto do mesmo Público, duas páginas à frente do editorial já citado: «Entre os habitantes [que se deslocam nos comboios agora atacados] não há empresários, figuras do "jet-set".» Como se um ataque destas dimensões fosse menos terrível tivesse ele ocorrido nas chiques ruas do bairro de Salamanca. Como se o "horror" não fosse, por definição e em todas as situações, inaceitável, e fosse necessário invocar o estatuto de "pobrezinho" das vítimas para afastar de vez o espectro de que, se calhar, até mereceram o mal que lhes caiu em cima. FG 12/03/2004

CORTESIA INTER PARES

Ontem, enquanto desmentia as ligações da ETA aos atentados de Madrid, o ilegalizado Batasuna lançava para a mesa a hipótese (a não descartar) de estarmos perante uma acção da «resistência árabe». A primeira palavra é significativa: "resistência" (que imediatamente nos remete, não sem algum romantismo, para os gloriosos anos da luta antinazi) e não "grupo terrorista" (designação reprovadora) ou "organização" (objectivamente neutra). Tal escolha de palavras não é inocente: mostra que a ETA é bem educadinha e tem um forte sentido de classe — sabe que não se achincalha um colega de ofício. Se não fosse trágico, seria bonito. FG 12/03/2004

A PERIFÉRICA NO LIVRO ABERTO

A edição desta noite do programa Livro Aberto, de Francisco José Viegas, é dedicado às revistas. Convidadas, além da Periférica (representada pelo RAA), foram a 365 (Fernando Alvim) e a Ilhas (Pedro Arruda). Passa na NTV às 23:00. FG 11/03/2004

A LÓGICA DA INDISTINÇÃO

A definição é viciosa, mas serve: a figura pública é aquela que ao público vai deixando a sua figura. Ela exibe mil faces a partir de uma só. O ar festivo de ontem é carranca hoje. O ar carrancudo de hoje é disfarce amanhã. O público multiplica ainda essas mil faces. E faz pior: confunde rostos e intenções, acidentes e substâncias. (As sombras dançarão no fundo da caverna até que o mundo acabe.) O público julga a figura que lhe surge, continuamente, diante dos olhos como aquela que tem maior probabilidade de ser volúvel por dentro, já que por fora a vê assim. É a lógica da indistinção. Elaborar uma extensa lista de fotografias de figuras públicas para as apresentar às testemunhas do processo da Casa Pia revela, de certo modo, uma obediência tácita a esta lógica omnipresente. Divulgá-la, por sua vez, é alimentar a excitação e a barbárie. JFB 10/03/2004

PROLONGAMENTOS

Li ontem no Diário Digital que um fio de cabelo de John Lennon foi comprado no domingo por um cidadão de Hong Kong por 3.460 euros, na Feira do Disco de Girona, em Espanha. O referido comprador estaria disposto, de acordo com a organização, a pagar até 10.000 euros pelo fio em causa. Compreendo as metáforas e as analogias fabricadas por estas cabecinhas: tal como as cuecas de uma cantora podem ser um prolongamento das suas fissuras naturais (sobretudo se estiverem rotas), também o cabelo de um cantor pode ser um prolongamento do seu génio (sobretudo se não tiver caspa). A estupidez, essa, continua a ser um prolongamento da humanidade. JFB 09/03/2004

PUBLICIDADE E CONHECIMENTO

A publicidade é análoga ao berbequim: ambos furam — embora coisas diferentes. A publicidade não inventa orifícios nas paredes: inventa-os na faculdade humana do desejo, constituindo-se como promessa de enchimento das carências que suscita. Ao criar necessidades, ela adquire uma inegável dimensão ontológica: insere o vazio no ser e jura preenchê-lo, sempre à sua maneira.

Há dias, no entanto, reparei que a publicidade não se fica por aqui. Ela procura também manifestar uma vocação gnosiológica, isto é, impor-se como condição do conhecimento humano. Eu explico. A Rádio Renascença, que ouço de vez em quando, serve-se de um interessante mecanismo para colar o ouvinte aos anúncios publicitários. A antecedê-los, uma voz feminina e doce começa por colocar uma pergunta. Por exemplo: «Quantas constelações é que existem?» Quer o ouvinte saiba, quer não, essa voz acrescenta: «Eu digo-lhe já a seguir.» E diz, com efeito, mas só depois dos anúncios. A resposta, essa, chega envolvida por um tom igualmente doce, em que se misturam o júbilo da revelação e uma inocente languidez.

Estamos, pois, diante de três momentos — pergunta–publicidade–resposta —, cuja repetida sucessão acaba por relacioná-los no inconsciente do ouvinte. Privados, de início, de qualquer liame plausível, tais momentos passam, então, a ser ingredientes de uma tríade dialéctica. A publicidade torna-se o elemento decisivo neste processo, em virtude do seu carácter mediador. É como se, para alcançar o conhecimento, fosse necessário (e suficiente) dispensar alguns minutos de atenção aos apelos consumistas. Eu já sabia que a publicidade tolda o pensamento e a reflexão. Mas nunca supus que os quisesse amordaçar e substituir. JFB 08/03/2004

NÃO HÁ QUE DESESPERAR

É jovem? Está desempregado/a? O estudo não resultou numa situação brilhante e, o tempo a passar veloz, você já nem sonha com alturas, mas aceitaria alegre um empregozito nas Finanças? Escriturário no banco? Na câmara?

Outra pergunta: sente-se você libidinoso/a, e arregalam-se-lhe os olhos, quando na televisão aparecem aquelas mocinhas que cantam e saltam excitadas, com os bicos dos seios a furar a seda que os cobre? Sim?

Ora bem: esqueça o banco, as Finanças e, sobretudo, não desespere! Existe desde há pouco nos Estados Unidos, e de certeza se vai espalhar pelo mundo, uma profissão de sonho, daquelas para que não é preciso ter estudado, financeiramente compensadoras e, ainda por cima, oferecendo satisfações inesperadas: a de nipple squeezer.

Como é lógico, as estrelas e demais mocinhas não podem aparecer no palco aos saltos e aos gritos, mas com os biquinhos murchos. Por isso, antes do show, há que apertá-los, massajá-los, excitá-los, fazer com que, arrebitados, se mostrem melhor. Ora como as donas dos mesmos, stressed e com mais preocupações, não podem atender a tudo, chama-se o/a nipple squeezer.

Não acredita? Julga que brinco? Que crio falsas esperanças?

Leia os contratos de Cristina Aguilera. JRC 01/03/2004

FUTEBOLISMO

O Futebolismo é a religião oficiosa do povo português. O fervor imperante fez com que emergissem novas catedrais. A mística intensifica-se. O antegozo do Campeonato da Europa vai levando as massas a riscarem os dias no calendário com apaixonada devoção. A imprensa fervilha. A primeira página da edição do Público de domingo passado ilustra claramente esse fervilhar. Anuncia um novo coleccionável. Sobre futebol. A manchete principal — que expressa a vontade do PSD em usar a educação sexual para prevenir o recurso ao aborto — destaca-se de um fundo negro, emoldurado por um dos pentágonos de uma bola imensa. Uma bola onde cabe tudo. Até o Benfica de outros tempos. Uma bola proporcional à nossa vocação para o delírio. JFB 25/02/2004

EM NOME DA EMOÇÃO ESTÉTICA FUTURA

Noticia o Público de domingo passado que uma placa publicitária, de material rígido, tapa um painel de azulejos de Paula Rego, painel comprado em 1998 para decorar o Planetário do Porto. De acordo com a notícia, «os responsáveis do bar onde está afixada a obra, avaliada em mais de 25 mil euros, resolveram há algumas semanas aparafusar uma placa informativa sobre aquela superfície cerâmica». Aplaudo mentalmente (e por escrito) a decisão dos responsáveis do bar. Sem que o saibam, eles estão a contribuir para a realização futura da arte presente. Em que sentido? Reflictamos: as gerações passam, os painéis ficam. Um dia, varrida por completo a lembrança da obra, uma geração afortunada, tirando a placa, receberá a magia daquela dádiva artística, fruto de um tempo (o nosso) criativo, lúcido e profundamente generoso em relação aos vindouros. Ditosa pátria que tais filhos cria! Afinal, a descoberta de uma obra que os séculos, ciosos, ocultaram provoca emoções estéticas muito superiores àquelas que decorrem da contemplação de uma obra que tantos olhos devassaram já. JFB 25/02/2004

DE LEIRIA AO CHIADO

Conforme anunciado anteriormente, o lançamento nacional do n.º 8 da Periférica (já à venda) ocorrerá na próxima sexta-feira, dia 27 de Fevereiro, pelas 21:30, na Livraria Arquivo, em Leiria, com a presença de toda a Redacção. Entre outras coisas, será projectado (por assim dizer, em deuxième) o documentário "The making of Periférica".

Algo inesperadamente (para nós próprios), este número da Periférica terá uma apresentação posterior, no que será um regresso à FNAC Chiado. É na segunda-feira seguinte, dia 1 de Março, pelas 18:00. RP 24/02/2004

DEPRESSÃO (E) ÉTICA: um esclarecimento

Caro Pedro Peixoto, reajo ao teu comentário ao post «Depressão (e) ética» mediante o seguinte esclarecimento, em três pontos:

  • Primeiro: não é verdade que eu me colei à imagem que as últimas sondagens internacionais têm dado de Portugal, como um país depressivo, inferiorizado e sem esperanças no futuro. A ironia subjacente ao referido post expressa uma quase nula consideração pelas conclusões que tais sondagens veiculam.
  • Segundo: na sequência da observação anterior, entendo que o conceito de pessimismo luso é tão vazio quanto o espelho mediático e superficial que o vai alimentando.
  • Terceiro: com o meu post, não pretendi fazer uma arqueologia da tristeza, mas apenas indicar uma possível consequência ética decorrente da assunção acrítica desta litania depressiva: a desculpabilização. A este nível, não somos um povo ingénuo: somos mestres refinados. Não arrastamos a culpa de sermos pequenos: inventamos a desculpa de não sermos maiores.

JFB 16/02/2004

A TERRA ONDE O TEMPO PAROU

Não, não é um post sobre o livro homónimo de Bohumil Hrabal.

Também não é um artigo sobre o Vaticano ou outras redondezas episcopais de interesse para paleontólogos.

Vou, simplesmente, falar de Vila Real, uma terra onde o tempo parou há coisa de uma semana. (Não, também não é um post sobre a nomenklatura vila-realense: essa, independentemente do seu nominal posicionamento no espectro político, está parada no tempo há muito mais tempo, passo a redundância...)

Os factos: a acreditar nessa maravilhosa invenção, o "Relógio-Polis", «faltam 63 dias, 11 horas, 21 minutos, 05 segundos para o fim das obras» há pelo menos sete dias. Boa ideia: é só deixar o relógio assim parado um anito ou dois e a realidade recupera o atraso face a esse mesmo relógio. FG 15/02/2004

Reacção ao post «DEPRESSÃO (E) ÉTICA»

Pedro Peixoto, do Intimista, enviou o seguinte comentário ao post anterior:

Caro José Ferreira Borges, [...], escrevo-te, sobretudo, porque quero acrescentar algo ao teu artigo intitulado "Depressão (e) Ética". Efectivamente, parece-me que, pelas tuas afirmações, te colas demasiado à imagem que as últimas sondagens internacionais têm dado de Portugal, como um país depressivo, inferiorizado e sem esperanças no futuro. Quase que dás a entender que Portugal é assim por culpa "genética", como se o nosso fado fosse muito mais que um estilo de música...

Penso que a ideia que nos últimos tempos tem passado para a opinião pública de que nós, os portugueses, somos um povo pessimista, se deve sobretudo à fase sócio-económica que o país atravessa e não tanto a um fenómeno histórico que afecte o nosso estado de espírito.

Pelo contrário, até acho que Portugal, comparativamente com os povos nórdicos é, em situação normais, ou seja se não houver uma qualquer crise do tipo pelo qual estamos a passar, um povo efusivo, bem-disposto e até, infelizmente, demasiado optimista, que nos leva a esbanjar o que temos em tempos de vacas gordas, para depois nos queixar-mos em tempos de crise.

Enfim, o grande problema dos portugueses é ser um povo ingénuo, que rapidamente passa do 8 para o 80 e que pensa mais com o coração do que com a razão. E, depois temos a grande presunção de que somos os maiores em tudo o que nos metemos. Veja-se o que se passa com o futebol: cada vez que vamos a um Campeonato da Europa ou do Mundo não pensamos noutra coisa que não seja a vitória final...

DEPRESSÃO (E) ÉTICA

É escusado. Os estudos sucedem-se, e o panorama não sofre alterações: os portugueses são os mais tristes, os mais deprimidos, os mais desesperados, os mais acabrunhados, os mais insatisfeitos, os mais aborrecidos, os mais sorumbáticos, enfim, os mais indisponíveis para acolherem um grama de entusiasmo. Pensar o contrário não é apenas politicamente incorrecto: constitui autêntico sacrilégio. As conclusões são infalíveis, e só uma alma empedernida poria em causa tais evidências. Mas vamos ao que interessa. O estado emocional dos portugueses forma, antes de tudo, a superfície de um espelho mediático, ao qual nos vamos mirando a fim de alimentarmos a mitomania dos desgraçados. O mal maior reside nas consequências éticas que decorrem da assunção acrítica desta litania depressiva: em condições assim, nenhuma criatura é plenamente responsável pelos seus actos... JFB 14/02/2004

O SEU REINO NÃO É DESTE MUNDO

Descobri através de uma notícia saída no Público de sábado que num guia da responsabilidade da Pastoral da Família do país vizinho («Como evangelizar com audácia e levantar a voz para desmascarar a actual situação») a culpa da violência doméstica e dos abusos sexuais é imputada à revolução sexual. Que é como quem diz, para os senhores bispos das terras de Espanha o ano zero da violência doméstica e dos abusos sexuais foi 1960 (ou por aí); antes disso não havia dessas coisas...

Diz o Público que tal conclusão por parte da Igreja Católica «suscitou espanto e crítica na sociedade espanhola». A mim o que me espanta é que os espanhóis (ou seja quem for) ainda se espantem com tais declarações, vindo elas de quem vêm. Parando um pouco e reflectindo, veriam que a maioria das vezes os prelados católicos fazem questão de nos recordar, não só que o seu reino não é deste mundo (tal como o Mestre lhes ensinou), mas também (e aqui o discípulo ultrapassa o Mestre) que não é deste tempo.

É por estas e por outras que à palavra "jacobino" — cuspida por plumitivas ovelhas desse rebanho — a recebo eu como um elogio. FG 09/02/2004

PERIFÉRICA n.º 8

Já está disponível a edição online do n.º 8 da revista Periférica. Como sempre, apenas oferecemos um vislumbre de tudo o que se pode encontrar na edição impressa.

Quanto a esta, começará a ser distribuída pelos locais de venda habituais a partir de segunda-feira, dia 9.

Finalmente, a apresentação pública: dia 27 em Leiria, na Livraria Arquivo, pelas 21:30. RP 06/02/2004

BUSH, A CIA E O IRAQUE

Várias hipóteses foram já aventadas para a enorme diferença entre a ameaça que se dizia o Iraque ser e aquela que efectivamente era. Dependendo do quadrante político do opinador, temos: denúncias do maquiavelismo da CIA, dos militares ou do Presidente dos EUA; concessão quanto à possibilidade de se ter verificado algum excesso de dramatismo por parte dos mesmos protagonistas; comiseração por manifesta ingenuidade dos ditos; e até um esperançoso «as buscas ainda não terminaram...»

Há uns dias, numa conferência pública, o director da CIA veio garantir que os analistas da agência «nunca disseram que havia uma ameaça iminente» por parte do Iraque, simplesmente «traçaram uma avaliação objectiva» aos decisores políticos.

Depois disto, não há dúvidas — a guerra no Iraque é o corolário lógico de um problema de iliteracia: que esperam, quando apresentam uma «avaliação objectiva» a alguém incapaz de entender um enunciado escrito?... FG 06/02/2004

CONVENHAMOS QUE NÃO TÊM SIDO LÁ MUITO GENEROSOS...

«The President gets all the intelligence from us.» (George Tenet, director da CIA) FG 06/02/2004

CARAS OU COROAS?

A edição n.º 8 da Periférica (que está para muito breve) terá duas capas. Ou melhor, a contracapa também funciona como capa. Desta forma, se o leitor a meio do trimestre se fartar de uma das capas, pode dar a volta à revista, que lá está outra, novinha em folha e totalmente diferente. Indecisão nossa, lucro do leitor.

Quanto à edição online, disponibilizá-la-emos daqui a uns dias (idem para a edição impressa). Por agora, ficamo-nos pela divulgação das capas (aqui ao lado), em jeito de aperitivo.

Finalmente, alguns destaques: Luiz Pacheco (dossier especial), Suso de Toro (convidado especial) e Salustiano (portefólio de pintura, incluindo a da capa vermelha). RP 04/02/2004

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