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Página de entrada do blogue (últimas) FEHÉR ESTÁ MORTONão consumam o seu cadáver. FG 28/01/2004 PERIFÉRICA n.º 8O número de Inverno — uma edição cheia de surpresas — já está a caminho da gráfica. Dentro de umas duas semanas estará pronto. Entretanto, descansemos um pouco... RP 26/01/2004 O CAMARADA KIM TRATA-LHES DA SAÚDERazão têm os camaradas Cunhal e Bernardino em apresentar a Coreia do Norte como um dos exemplos a seguir: ao contrário dos pérfidos capitalistas da América, o sapiente Kim Jong-il não vai boicotar o programa de luta mundial contra a obesidade. Think globally, act locally... FG 21/01/2004 QUEM DÁ O PÃO DÁ A CRIAÇÃONo Público online: «Amnistia Internacional acusa Governo da Coreia do Norte de alimentar primeiro os "amigos"». Claro, não queremos que esses morram, não é?... FG 21/01/2004 «EUA VÃO BOICOTAR LUTA MUNDIAL CONTRA OBESIDADE» (Público)This boycott brought to you by... McDonald's & friends! FG 20/01/2004 GRANTA ESPANHOLAA Granta já tem versão espanhola. Um dia, quem sabe, terá edição portuguesa. Pessoalmente, mal posso esperar, e por duas razões. Em primeiro lugar, tornar-se-á mais fácil lê-la quando estiver na língua de Camões (ou de Viriato...). Depois, porque assim nos livraremos da responsabilidade de sermos, cumulativamente, a New Yorker e a Granta portuguesas (exercício muito cansativo: dá, por exemplo, horríveis dores nos gémeos). FG 16/01/2004 THE SOUND OF SILENCENão estranhem o nosso silêncio, que já começa a ser longo. À ressaca natalícia seguiu-se o trabalho de parto do n.º 8, que ainda decorre. RP 16/01/2004 «LÍNGUA DE VIRIATO»Os repórteres televisivos já nos habituaram a descobertas sensacionais. Há poucos anos, uma repórter de um qualquer canal, referindo-se a uma vítima de Chernobyl em tratamento no Porto, dizia que «ele até já fala na perfeição a língua de Viriato»! Alberto Ávila (leitor) 09/01/2004 «TIGRE DE BENGUELA»A nova espécie descoberta esta manhã por um repórter da RTP. FG 07/01/2004 Reacção ao post «MISÉRIA, PATHOS, CARIDADE E REDENÇÃO»Pedro Peixoto, do Intimista, enviou o seguinte comentário ao meu post anterior:
Caro Pedro Peixoto, relativamente à sua observação de que o meu post «não se ficou, como insinuou, pelo "focar de um só aspecto da questão: o tratamento televisivo dos testemunhos de mulheres que já abortaram"», queria começar por dizer que focar um só aspecto da questão não foi uma insinuação, mas um objectivo a que claramente me propus. Quanto a ter feito isso ou não, poder-lhe-ia responder de três maneiras, todas elas com o seu quê de verdade, todas redutoras como única resposta: que nenhuma abordagem decente a uma questão se deve ficar pela constatação, devendo seguir daí para a reflexão; que quando me proponho a dizer uma ou duas coisas sobre um assunto acabo por dizer três ou quatro (acontece-me a falar, pelos visto também a escrever); ou que, simplesmente, escondi desonesta e deliberadamente os meus propósitos, para mais facilmente enredar o leitor incauto. Quanto a ser o meu post um argumento a favor do aborto, algumas considerações. Não defendo que o aborto seja uma boa opção como método contraceptivo, sendo preferível, indubitavelmente, evitar de todo a gravidez. Mas que fique claro que a minha maior objecção ao aborto não é a destruição do feto: em primeiro, em segundo, em décimo lugar penso na mulher, para a qual o aborto representa uma violência física no imediato e um perigo para a saúde a longo prazo. Acontece que nem sempre é possível evitar a gravidez (shit happens...); nesta situação, encaro como legítima a opção pelo aborto a pedido da mulher: o ser humano de facto tem, para mim, precedência sobre o ser humano em potência. Consequentemente, acho inaceitável a ideia de qualquer acção penal contra uma mulher que aborta; e, achando que as leis são escritas para serem cumpridas, defendo a despenalização do aborto. A despenalização que advogo deveria não ser polémica nas primeiras semanas de gestação, enquanto a ausência de actividade cerebral reforça a ideia de inexistência de vida humana de facto. Diz-me que «um feto com oito semanas de vida já tem os órgãos principais formados e já tem estímulos cerebrais». A questão dos órgãos principais estarem formados é irrelevante: um cadáver tem todos os órgãos formados, mas não é isso que o torna um ser humano. Quanto à presença de estímulos cerebrais, não duvido: os estímulos vêm do mundo exterior, pelo que não nego que existem; quanto a actividade cerebral, a informação que tenho é de que geralmente não começa antes das doze semanas, mas, como não sou especialista, não teimo. Despenalize-se até às oito semanas, então. Agora a sua impactante afirmação de que «a vida não se escolhe, vive-se...». Como reflexão-bónus de papel de embrulho das velhinhas chicletes Gorila ou conselho telefónico da Maya, até não está mal — mas fora isso, é totalmente desprovida de relevância. Se o agente implícito na frase é a mulher grávida, o feto é personagem totalmente ausente e estamos a falar de outra coisa; nesta situação, as implicações são quase dolorosas: com sete palavrinhas apenas, Pedro Peixoto deita para o lixo (sem qualquer argumento que o sustente) séculos de discussão à volta do livre arbítrio! Se, pelo contrário, é o feto o agente implícito, a frase não é procedente, pois o feto não tem capacidade de escolha. Como diria o juiz de uma qualquer série americana de advogados, Please rephrase, counselor. FG 05/01/2004 MISÉRIA, PATHOS, CARIDADE E REDENÇÃONas últimas semanas temos assistido ao renascer da discussão sobre a questão do aborto. Na Assembleia da República, na televisão, nos jornais, nas revistas cor-de-rosa, nos blogues (incluindo aqui o "Oeste"). E durante todo este tempo — confesso — estranhei o meu próprio silêncio. Chamem-lhe inusual modéstia de quem julga não ter nada a acrescentar ao debate, chamem-lhe sobranceria intelectual de quem se recusa a defender o óbvio, chamem-lhe simplesmente indolência natalícia — o que é certo é que até agora não me decidira a sentar-me e pôr por escrito algumas reflexões sobre o assunto. Hoje [ontem], enquanto lia o artigo de Luís Miguel Queirós no Mil Folhas, decidi-me finalmente. E, como não quero reciclar tudo o que disse e escrevi nos idos de 1998, vou focar um só aspecto da questão: o tratamento televisivo dos testemunhos de mulheres que já abortaram. Em todos os testemunhos que vi (e nada me leva a crer que os demais que me tenham escapado não sejam iguais) há um traço comum: o sofrimento. Mas não o sofrimento físico de quem arriscou a vida numa sala sem condições de higiene, sem o equipamento e os fármacos necessários. Não, o sofrimento de que as televisões davam conta era de outra natureza, ou melhor, de duas naturezas diversas: o sofrimento de uma vida miserável anterior à gravidez (ou a sua perspectiva, caso o nascimento se efectivasse) e o sofrimento posterior ao aborto, este de ordem moral e espiritual, materializado no remorso de quem transporta o fardo de saber que «acabou com uma vida», que suspira pelo «filho que poderia ter tido». Não ponho em causa as boas intenções de quem recolheu e formatou estes «casos da vida»: o "discurso do coitadinho" sempre teve plateia na mentalidade portuguesa, pelo que esta pode ser a forma mais rápida de «falar aos corações» dos mais empedernidos partidários do "Não". Mas todos sabemos o valor das boas intenções, e neste caso subjaz-lhes uma certa ideia da mulher que, simplesmente, não me agrada. Essa ideia é a de que a mulher não tem direitos de per si, apenas os ganha se conquistar o coração da Sociedade. A mulher não é, nesta perspectiva, sujeito do direito, apenas objecto. Salva-a a nossa caridade, e essa só é despertada se lhe descobrirmos traços sociológicos e morais que a redimam: miséria ante factum e remorso post factum. Ora, é preciso dizer que há mulheres que simplesmente não querem (em dado momento ou de todo) ter filhos, sem que tenham um historial de miséria e provação. E que há mulheres que, tendo abortado, não sentem qualquer remorso pelo facto, quanto muito alguma apreensão pela possibilidade de consequências nefastas para a sua saúde. Deveriam ter evitado a gravidez? Num mundo ideal, sem dúvida — elas, mais do que ninguém, desejariam isso. Mas o facto é que não conseguiram, e nessa situação é preciso escolher entre um filho não desejado e o perigo — clínico e penal — de um aborto. E há mulheres que se decidiram pelo aborto sem réstia de dúvida, moral ou outra. É preciso que se assuma isto. São estas mulheres pouco propícias ao despertar da lágrima nacional? Provavelmente. Mas as notícias não deveriam ser um desfile de emoções. Tais mulheres existem e têm direitos: entre elas e um projecto de ser humano, ainda sem actividade cerebral (e o critério de fim da vida deveria ser o do seu início), entre estes dois lados da questão, afirmo-o, a lei deveria optar indubitavelmente pelo da mulher, ser humano de facto e não apenas em potência. Mas primeiro, claro, é preciso reconhecer tal estatuto à mulher. FG 04/01/2004 LIMITES PROBLEMÁTICOSOs limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo, disse Wittgenstein. Subscrevo a máxima do autor do Tractatus. Por vezes, no entanto, ao meditar em certos axiomas que a voz do povo inaugura, questiono se a linguagem tem limites. Não ao nível da amplitude ontológica, antes no que se refere à sua virtualidade para misturar as coisas do mundo. Neste âmbito, quanto mais encolhidos são os horizontes, mais inesperadas (e injustas) são as misturas. Todavia, o tempero literário atenua o grau de perversidade. Hoje [dia 2], por exemplo, ouvi um rifão misturador, onde se oculta uma insidiosa metalepse enquanto se exibe uma estrondosa metáfora: a Casa Pia é a nossa guerra [sic]. JFB 04/01/2004 EUFEMISMOSO leitor Alberto Ávila enviou-nos o seguinte comentário ao post «Dogmas e Eufemismos»:
Nota da Redacção: De facto, cremos que o termo usado é (ainda mais eufemisticamente) "retido" e não "excluído". 02/01/2004 DOGMAS E EUFEMISMOSSob o título Dogmas do desastre do ensino, o artigo de Gabriel Mithá Ribeiro, no jornal Público de hoje, permite desmontar, com grande lucidez, o discurso pedagógico actual. Os dez dogmas apontados, e zurzidos com frontalidade, traduzem, na minha perspectiva, aquele que tem sido um desiderato repleto de boas intenções, mas potencialmente perverso: converter a aprendizagem num caminho cheio de doçura e tornar a escola um espaço eufemístico e redundante. Como se o esforço não constituísse um factor central do crescimento e o processo dialéctico pudesse dispensar a negatividade. A farsa prolonga-se, inevitavelmente, no campo da terminologia. No ensino secundário, por exemplo, em vez de classificações negativas, deve usar-se a expressão classificações inferiores a dez valores. Não dói tanto, e o trauma é evitado. JFB 30/12/2003 PARA UMA REABILITAÇÃO DIALÉCTICA DO ESTERCONo Independente desta semana, Miguel Gaspar escreve que «a TV generalista deixou de ser um meio de comunicação de massas, tornou-se um buraco-negro de massas». Subscrevo. Refere ainda que este «intervalo vazio entre anúncios» não vai acabar, uma vez que «os buracos-negros não têm fundo». Nesse aspecto, sou menos pessimista. De facto, ao contrário do que acontece com os buracos-negros, os telespectadores têm fundo. Por isso, a melhor forma de aniquilar o vazio televisivo é a repetição exaustiva de programas que o fomentem. Com chusma diferente a intervir, mas sempre com idêntico grau de mediocridade. A certa altura, o telespectador mais obstinado acaba por notar que apenas tentou preencher o vazio interior com vazios importados do ecrã. É um rebate na consciência. O primeiro sinal para sair da menoridade. O resultado positivo duma overdose de coisas fúteis. Uma espécie de vertigem. O vazio cansa, e abandonar a caverna é um processo lento e doloroso. A este nível, o Big Brother, por exemplo, já deu a sua preciosa contribuição. Com o resto sucederá o mesmo. O esterco também faz falta. JFB 26/12/2003 ABORTAR POR AMOR (EM TEMPO DE NATAL!)O jornal Público de domingo passado traz, na página vinte e quatro, uma notícia cujo título surge em forma de citação: «"As mulheres que abortam fazem-no por amor".» Lemos a notícia, relativa à recolha de assinaturas no âmbito de uma «petição para um novo referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez», e descobrimos, ao quarto parágrafo, que a autora do aforismo é a actriz Regina Guimarães. A sua opinião «é muito clara: "Ao contrário do que é palavra corrente, as mulheres que abortam fazem-no por amor e a pensar na dignidade daquela criança que está a ser gerada no seu ventre. Por isso, não reconheço a ninguém o direito de julgar essa acção"». É uma posição categórica e firme, e só por isso admirável. Além do mais, é sempre saboroso ouvir alguém opor-se à «palavra corrente». Sinónimo de espírito crítico, aguçada inteligência e força emancipadora, tal oposição poderá contribuir, de forma decisiva, para o progresso moral e espiritual da humanidade. É óbvio que, no caso presente, a última afirmação destoa neste singular depoimento. Mas admitamos tratar-se apenas de uma fraqueza, uma pedra menos polida no grande edifício teórico (adivinhemo-lo) que suporta este lance discursivo. Em suma, a declaração é terminante. Sucede, porém, que um pérfido senão — pérfido e deplorável — se instalou, como um duende travesso, no cálido axioma da actriz. Enfim, um ligeiro descuido conceptual. Principiemos pelo conceito de amor. Existem algumas criaturas, pouco adestradas em artes reflexivas e dialécticas, para as quais o amor não se explica. É um não-sei-quê demasiado inefável, tremendamente obscuro. Façamo-lhes essa concessão, mas com um humilde reparo, um singelo tentame explicativo. Pertence ao mais elementar a ideia de que só se ama algo que existe, ou se supõe existir, ou se deseja que venha a existir um dia. A existência (o ser) é o pólo privilegiado do impulso do amor. Por outro lado, seja ele desta ou daquela modalidade, o amor é indissociável do desejo de que o objecto amado permaneça. É natural que determinadas almas, pejadas de romantismo, admitam que também se deseja, por vezes, a aniquilação do ser que se ama, como se tal desejo reconduzisse o amador ao absoluto da sua própria solidão. Contudo, estamos diante de subtilezas poéticas, por vezes de autênticas paranóias, e não de convicções filosóficas minimamente aceitáveis ou susceptíveis de serem refutadas. Além disso, não é deste amor que padecem as mães que abortam. Em síntese, se o amor pressupõe o ser e a vida, «abortar por amor» é uma evidente contradição, uma espécie de aborto intelectual. Partamos, agora, não do afecto da mulher pelo futuro ser (que é um ser sem futuro), mas do facto de ela «pensar na dignidade daquela criança que está a ser gerada no seu ventre». Dignidade?! Não sei a que dignidade se refere a actriz. Mas sei que não é possível haver qualquer tipo de dignidade se não se verificar uma condição indispensável: o direito à vida. Este direito antecede e possibilita todas as formas de dignidade que se imaginem. Se as mulheres que abortam pensam na dignidade do futuro ser, então é porque já colocaram e aceitaram o seu direito de vir ao mundo. Por isso, das duas uma: ou se diz que o embrião tem dignidade (e é preciso colocar a questão do direito à vida), ou se afirma, de modo implícito, que o embrião não tem direito à vida, ou não é conveniente que o tenha (e em tais casos não faz sentido falar em dignidade). A mulher que aborta, ou a que é hábil em conceber pensamentos idênticos aos citados, poderia contrapor dizendo ser preferível à criança não nascer a ter de visitar um mundo tolo e mau. Acresce que talvez o nada seja melhor que as nossas miseráveis e redundantes vidas. Mas seria uma argumentação insustentável. Por duas razões. Primeira: a arguente optou pela vida; não tem, por isso, o direito de subscrever a aniquilação, menos ainda de a pôr em prática em relação ao outro (sobretudo quando não tem a certeza de que este se reduz a um nefasto prolongamento ontológico do seu corpo). Passemos à segunda razão. Com certeza que acerca do nada, ou do limbo, ou da eternidade, ou de níveis superiores de existência, ou das cores do além, muito se pode dizer. Todavia, para justificarmos, não a nossa passagem pelo mundo, mas a nossa entrada nele (e a dos que vão batendo à porta), devemos evitar socorrer-nos de elementos teológicos, metafísicos e esotéricos que, quando manipulados por ideologias terrenas, tudo são capazes de igualmente legitimar ou impedir. É só com base numa racionalidade imanente ao parágrafo mundano, ainda que este se ache inserido no grande livro do Universo, que importa justificar as nossas teses, a favor ou contra o aborto e a sua descriminalização. Invocar ingredientes estranhos seria correr o risco de cair em arbitrariedades intoleráveis. Quanto ao amor e à dignidade, invoquemo-los tão-só quando a vida for um pressuposto e não uma forma a abater. Caso contrário, estaremos a usar termos pouco nítidos e enunciados contraditórios, numa argumentação atrabiliária, hipócrita e potencialmente criminosa. JFB 25/12/2003 O AMIGO EXPRESSOO Expresso decidiu descentralizar-se. A partir de 10 de Janeiro vai dedicar a página cinco a matérias enviadas por jornais de várias regiões do país, jornais esses que constituirão a «Rede Expresso». Consulto o mapa da página 12 da última edição e — confesso o deslize regionalista — olho primeiro para o Norte, ao centro. Lá está. Ninguém me cala. Saio porta fora aos gritos. Telefono a toda a gente. Mando e-mails. Anuncio-o aos sete ventos. A Voz de Trás-os-Montes vai colaborar com o Expresso! Sim. A Voz de Trás vai ter um espacinho na página cinco do Expresso. Haja foguetes pelo ar. «Trata-se de um momento histórico», diz Francisco Pinto Balsemão. De facto. O mui institucional Expresso vai agora poder competir com o diário de referência que é o Público — mais propriamente com o seu suplemento das sextas-feiras, O Inimigo Público.
A Voz de Trás-os-Montes é uma amostra do mais entusiasta e genuíno jornalismo português do século… XIX. A Voz de Trás podia ter saído da pena de Eça de Queirós. Podia estar n'Os Maias, n'A Ilustre Casa de Ramires. Está em Vila Real porque aqui ficou esquecida, mas o seu lugar — merecido! — é no Museu da Imprensa. O estilo, a verve, o director, os colaboradores são peças vivas da história das gazetas em Portugal. N'A Voz de Trás (repare-se na sinceridade do título; o sufixo "os Montes" é só para evitar más interpretações, para dar mais pitoresco ao cabeçalho) não está só a melhor e mais requintada prosa que o século XIX deu à imprensa portuguesa. N'A Voz de Trás estão os valores do século XIX, estão as mais inatacáveis ideias do século XIX, está o Portugal (continental e ultramarino) do século XIX, está, apesar da tecnologia do século XXI (Deo gratias), a mobília do século XIX. E n'A Voz de Trás, por fidelidade aos ideais, aos princípios, ao essencial em detrimento do acessório, nota-se mais a mobília do que a tecnologia. A tecnologia evita algumas gralhas na prosa, actualiza um ou outro termo, alinha com maior facilidade os parágrafos, introduz um ou outro tipo moderno nos títulos, nos leads, permite publicar as fotos de juventude dos colunistas — mas é a mobília, sólida, rude, de ancestral madeira, que mantém bem alto o facho que ilumina o coração (e a alma, valha-me Deus, que já me esquecia) das gentes transmontanas. Facho (não escolho ao acaso as palavras) que agora iluminará todo o país, graças ao Expresso e aos visionários que o fazem.
É significativo que o Expresso tenha escolhido A Voz de Trás-os-Montes. É certo que para concorrer com O Inimigo Público poderia ter optado, com outras vantagens, pelo Negócios de Valpaços, por exemplo. No Negócios de Valpaços teria, além do fresco do século XIX, as mais improváveis, incontornáveis e intemporais gralhas e a mais ignorante e típica prosa plebeia. Mas A Voz de Trás é outra loiça. Mais requintada. Com uma moral mais elevada. Uma retórica quase aristocrática. Beata, claro. Tudo coisas que estão de acordo e convêm ao Expresso. Só tenho dúvidas em relação à matéria que escolherá o Expresso para a sua página cinco. Os editoriais insondáveis (como os desígnios de Deus) do director d'A Voz de Trás os Montes? A página litúrgica? A prosa pré-descolonização de Ana Maria Aguiar Macedo? As crónicas robustas do ubíquo Barroso da Fonte, suspeitado colega de carteira e de ideais de Afonso Henriques? As epístolas do sr. Bispo, clérigo avesso às desgarradas do Padre Fontes nas igrejas? Pago para ver. RAA 23/12/2003 RODAPÉQuando ouço falar de publicações municipais saco da pistola. No colorido mundo da edição autárquica predominam dois elementos: a propaganda e a mediocridade. Rara será a câmara que não edite o seu "boletim municipal" pago pelo dinheiro dos contribuintes. Os boletins municipais, se não são propaganda descarada do executivo, são propaganda embrulhada em pretensa informação ou em mediocridade de carácter bairrista. A regra em vigor é "nada de novo no alegre e boçal reino do poder autárquico", o tal que torna os cidadãos "participantes no processo de desenvolvimento da sua região e do país". Mas se há uma regra, há excepções. A Rodapé, revista da Biblioteca José Saramago, editada pela Câmara Municipal de Beja, é uma notável excepção. Bons textos, boas fotografias, boas ilustrações, bom grafismo. Sendo também um espaço para os escritores e artistas locais, a Rodapé não limita o seu horizonte em nome de nenhum regionalismo. Pelo contrário: o universo de entrevistados e de colaboradores denota uma geografia aberta. Ao lado dos colaboradores locais, tem vários nomes importantes das letras portuguesas, de Mário de Carvalho a Urbano Tavares Rodrigues, de Mafalda Ivo Cruz a Filipa Melo. A Rodapé aposta na «promoção do livro, da leitura e da escrita». E «tem uma preocupação muito especial com todos os que têm uma relação distanciada com o mundo dos livros.» Folheia-se a revista e, por momentos, parece que o poder local não é um submundo de caciques e imbecis. Com a Biblioteca e a Câmara de Beja há um armistício. Apetece, ainda, ser português. RAA (in Periférica n.º 7) INTELIGÊNCIA EMOCIONALConfesso um pecadilho, um certo prazer mórbido: ouvir ignorantes citarem doutamente o trabalho de António Damásio. FG 11/12/2003 SOBRE UMA CERTA MOTIVAÇÃOHá tempos, num comentário ao post que escrevi relativo à memória e suas virtudes [«Acerca da memorização»], o meu amigo Pedro Peixoto, autor do blogue Intimista, depois de manifestar a sua concordância, alertou-me para o facto de eu ter esquecido «um requisito imprescindível» no processo do memorizar. «O requisito a que me refiro», escreve o Pedro, «é tão simplesmente a motivação», na ausência da qual estaríamos a pedir aos alunos que se comportassem como «simples máquinas». (Concordo absolutamente.) E adianta, a seguir, uma receita: «Penso que essa motivação no aluno deverá ser suscitada pelo professor, através de estratégias por si planeadas e que muitas vezes se podem cingir ao debate e confronto de ideias entre alunos e professor acerca de um tema actual, pertinente e do interesse da juventude.» (O terreno torna-se movediço.) Comecemos pela base. O que é a motivação? Em torno deste conceito já muito se escreveu. Limito-me a registar uma definição genérica e minimamente consensual: a motivação é um conjunto de forças que desencadeiam e orientam as acções de um determinado organismo, em direcção a certos objectivos. Sendo assim, ela articula-se com a necessidade, a carência. Basta que observemos, por exemplo, a hierarquia das necessidades, de Abraham Maslow, para nos inteirarmos desse facto: das necessidades fisiológicas às de segurança, de afecto, de estima e de auto-realização, encontramos toda uma escada motivacional, em cujos degraus se podem incluir, também, as necessidades cognitivas. Ora, a motivação que o Pedro sugere é, precisamente, de carácter cognitivo. Um indivíduo é orientado, por determinadas forças, para o conhecimento. Elementar. Acontece, no entanto, que o meu amigo sugere esta motivação, mas está a pensar numa coisa distinta. Atentemos na estratégia referida, ou seja, «o debate e confronto de ideias entre alunos e professor acerca de um tema actual, pertinente e do interesse da juventude». É uma estratégia válida, sem dúvida, mas tendenciosa. Afinal, na mesma afirmação, o Pedro condensa a estratégia em si (o debate e confronto de ideias) e a preferência por conteúdos particulares (os temas actuais e de interesse para a juventude). Por esta ordem de pensamento, muita informação seria preterida. Reflictamos: constituirá o argumento ontológico um assunto actual? Será coisa pertinente a função das mitocôndrias? Haverá matéria de interesse para a juventude no nome do filho bastardo do último rei de um país perdido? Se calhar, com algum esforço, acharíamos respostas afirmativas a todas estas questões; mas não é para aí que o Pedro nos tenciona conduzir. O meu amigo acaba por não dissociar o conhecimento, enquanto motivação, da atmosfera motivacional que deve anteceder (e acompanhar) a aprendizagem, funcionando como elemento de cativação dos interesses das plateias. A este propósito, lembremos (só em nome do humor) aquelas luminárias segundo as quais esse clima envolvente terá de passar, não pelo sensato debate de ideias, mas por posturas revolucionárias, de sabor nada convencional. Assim, o docente deveria portar-se como um macaco, enfiar-se debaixo das mesas, partir vidros ou, simplesmente, permanecer imóvel, como uma estátua da Ilha de Páscoa, à espera que um aluno lhe dirigisse a pergunta mais óbvia. Mas quem assim opina são pessoas que perderam o juízo, pelo que nem sequer vale a pena insistir neste ponto. Motivar para a aprendizagem é uma arte difícil: torna-se necessário saber jogar, com bom senso e paciência, desconstruindo certas representações, inculcando outras, mas nunca de forma precipitada e radical. O debate é uma hipótese idónea — desde que a indisciplina fique de fora. Coisa diferente é a motivação cognitiva, o gosto de aprender, de visar mais alto — o sentido da procura, em suma. Confundir isto com os preliminares e o desenrolar da prática educativa é o mesmo que omitir uma dualidade obstinada, embora problemática: a dualidade exterior/interior. Cativamos a partir de fora, com este exemplo ou aquela estratégia; mas todo o esforço de aprendizagem é interior e solitário. Até que ponto o exterior fomenta a decisão efectiva de avançar pelo labirinto das ideias é matéria que se não destrinça com facilidade. De resto, quem se lança na aventura do conhecimento percebe que o saber não é da ordem do dado e menos ainda da do espalhafato. Resta-nos, finalmente, averiguar o motivo último por que desejamos o conhecimento — o conhecimento em si mesmo, e não o desta ou daquela particularidade mundana. Qual a motivação desta motivação? Talvez, no fundo, queiramos só responder a essa pergunta. Talvez demandemos um abandono cósmico, um esquecimento maior, consentindo em inutilizar todo o nosso esforço. Talvez neste âmbito, e como escrevia Sartre, o homem alimente o projecto fundamental de ser Deus. O assunto é enigmático, porventura demasiado incómodo. Aceitemos, por enquanto, os horizontes onde o olhar se move. JFB 11/12/2003 COMENTÁRIOFilipe Guerra enviou-nos o seguinte comentário ao post «Sobre as bolsas de criação literária»:
Filipe Guerra é tradutor e colaborou na Periférica n.º 6 com um dossier sobre Daniil Harms. RP 09/12/2003 SOBRE AS BOLSAS DE CRIAÇÃO LITERÁRIAEstive a ler, no Blogue de Esquerda, todos os vinte e três pontos de José Miguel Silva sobre uma «pretensa celeuma» que o próprio considera de «uma chochice sem remédio». A «celeuma» é alargada, mas no BdE teve um pico depois de uma carta (acompanhada de uns versos) que o mesmo Miguel Silva dedicou às críticas às bolsas de criação literária. As reacções foram várias e interessantes de analisar. Antes, devo dizer que me parece uma estultícia impregnar de ideologia a discussão sobre os subsídios à cultura. Como também me parece inconveniente dar um tom afectado à vontade de sair da discussão, por mais válidas que sejam as razões. Não defendo as bolsas de criação literária. Por várias razões, mas sobretudo porque não são uma necessidade a que o Estado tenha que acudir. Ainda que seja pouco o dinheiro afecto às bolsas (se comparada esta benesse com todas as outras que o Estado atribui), lembro que o que está em jogo é o conceito. Tal como não me parece válido defender as bolsas por razões corporativistas (se os outros têm, por que é que nós não podemos ter?), também me parece ridículo que seja o montante em causa a definir a opinião. Acresce que o facto de haver subsídios que possam não ter razão de existir não dá qualquer argumento sério aos defensores das bolsas de criação literária. Acho, por outro lado, que o Estado tem o dever de subsidiar várias formas de expressão artística — da mesma maneira que tem o dever de defender o património histórico, arquitectónico, arqueológico ou natural do País. Introduzir nestes campos a democracia é meio caminho andado para a barbárie. Ninguém com honestidade e bom senso está a ver a sociedade civil, o "povo", a preservar os vários patrimónios nacionais. Ao Estado cabe assegurar os valores que são transversais às ideologias, que estão antes e acima da opinião do momento, por maioritária que seja. Diz alguém em comentário à carta de José Miguel Silva: «Não é legítimo pretender coagir terceiros a suportar financeiramente a nossa actividade.» Mais adiante, a mesma pessoa afirma: «A decisão de acabar com os subsídios será uma decisão política. Será uma decisão que devolverá aos contribuintes a liberdade de escolha. Será uma decisão que acabará com uma política arrogante de pretender impor os tipos de cultura ao "povo" sem que este tenha alguma palavra a dizer.» Esta opinião assenta na demagogia ou na ignorância. Devolver aos contribuintes a liberdade de escolha é fazer com que, em Portugal, o teatro e a ópera, para dar os exemplos clássicos, sejam apenas acessíveis às elites — aqueles que têm dinheiro para viajar até Londres ou Nova Iorque. Devolver aos contribuintes a liberdade de escolha nesta matéria acaba com o teatro e a ópera em Portugal. Devolver aos contribuintes a liberdade de escolha faz de Portugal uma sociedade com menos escolha, menos plural. A democracia representativa implica, precisamente, que "terceiros" suportem financeiramente várias actividades que não são suas, por decisão dos seus representantes. É assim na saúde e no ensino, por exemplo. A democratização faz-se delegando as decisões. Caso contrário temos a ditadura das maiorias, que não é melhor do que qualquer outra ditadura. E a ditadura das maiorias em Portugal dava-nos (dá-nos) estádios em vez de hospitais, blocos de apartamentos ou shoppings em vez de universidades e escolas. Subsidiar a cultura não é, ao contrário do que diz a voz da ignorância, impor nada a ninguém. É, pelo contrário, assegurar possibilidades de escolha. É zelar pela não extinção de outras formas de cultura. É, precisamente, evitar a homogeneização da oferta, a massificação absoluta. É proporcionar o livre acesso a todos, especialmente aos que não têm posses. Subsidiar a cultura é um necessário contrapeso à voracidade e superioridade bélica da televisão, da cultura de massas. Por mais que, em teoria, se defenda o fim de todos os subsídios (como eu defendo), é preciso ter presente que, a par da formação, o subsídio é, por enquanto, a única maneira de assegurar um Portugal plural e cosmopolita. No momento em que a sociedade civil, o povo, garanta a subsistência das várias formas de cultura, garanta que Portugal não se transforma num país onde só as elites podem ver teatro, garanta que em Portugal o gosto das minorias tem outras formas de sobrevivência, garanta que as formas menos populares de cultura têm armas mínimas para o duelo com a televisão, nesse dia defenderei acerrimamente, na prática, o fim dos subsídios à cultura. Ora, acontece que a produção literária não corre nenhum dos perigos enunciados acima. A produção literária não corre risco de uniformização, nem de extinção. Pelo menos não por necessidades materiais. A produção literária é acessível a qualquer um; a sua divulgação está ao alcance de qualquer um. Não se trata de sadismo, de pretender ver os escritores «de uma forma romântica», morrendo «de fome e tuberculose enquanto terminam a obra-prima que a posteridade imortalizará». Trata-se de realismo: um mecenas não é condição sine qua non para a realização de uma obra literária de qualidade. Por mais que seja verdade que um subsídio melhore a qualidade de vida do escritor e da família. Francisco Frazão diz que «os subsídios devem existir para que exista aquilo que de outro modo não seria possível, não só por causa dos custos de produção, não só por causa da insuficiência de público, mas porque a arte mais importante está muitas vezes à frente do gosto do público e da crítica». Concordo com a primeira parte; temo a intervenção do Estado segundo critérios estéticos que não possam ser abalizados pela crítica. Mas acontece que, por mais que a literatura esteja «à frente do gosto do público e da crítica», as suas necessidades de produção são exactamente as mesmas de qualquer outro tipo de literatura. Aceito apenas que o Estado apoie a edição de obras notoriamente importantes que não tenham outra maneira de ver a luz do dia. E por hoje é tudo. RAA 07/12/2003 IRONIA E DESENCANTOÉ sob o dossel da ironia e habitado pelo desencanto que subscrevo a maior parte das ideias do Rui, no post anterior, e das de Mário de Carvalho, na entrevista ao Mil Folhas, acerca da ralé. Mas, ao contrário de Mário de Carvalho, não creio que o problema resida na insuficiência de massa crítica «para dar a volta a isto». Na minha opinião, a alarvidade instalada tornou-se uma carraça inamovível, inseparável da essência da gentalha. Referi-la é inútil, porque só quem a não alimenta compreende os seus perigosos sortilégios. Daí a tal ironia. Removê-la é impossível, porque só a partir de dentro é que se atingem carraças desse género. Daí o tal desencanto. JFB 07/12/2003 A RALÉDe Mário de Carvalho, que me lembre, li três livros. Gostei de Quatrocentos Mil Sestércios, gostei dos Contos Vagabundos, gostei menos de Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto. Do autor sei pouco. Apenas que é advogado, combateu a ditadura e esteve próximo do Partido Comunista. Tem um novo livro. Foi entrevistado para o Mil Folhas de hoje. Li a entrevista com um sorriso. Na Periférica e noutros media, sem ser pago para isso, tenho alertado para os malefícios do povo. O povo que está nas tascas e nos estádios, mas que também sobe aos vários poderes. Corri riscos. O povo é sagrado em Portugal. Mesmo que seja uma horda nefasta de imbecis. Muita gente julga que o recurso a termos como ralé, turba, populaça e definições honestas afins não passa de retórica, provocação. Quando anuncio que é sinceridade, julgam que ironizo. Pois bem, meus senhores. Permitam-me então transcrever (e subscrever) excertos da entrevista de Mário de Carvalho. É Portugal um país patusco?
Nem mais. Querem saber porquê?
Dizer que "este país é uma choldra" parecia uma hipérbole, uma evocação forçada de uma frase célebre. O próprio Mário de Carvalho combatia isso.
Mas hoje
Da próxima vez que relembrarmos os objectivos da Periférica (a recusa da mediocridade e da estupidez), ninguém julgue que é um programa editorial pouco ambicioso. RAA 06/12/2003 P.S. A leitura deste post não dispensa a consulta da entrevista no Mil Folhas. |
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
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