|
Página de entrada do blogue (últimas) SIT DOWN, TRAGEDY! (uma nota)Venho só acrescentar uma nota de escassa relevância. Há, nas palavras de Nuno Costa Santos, uma figura que não entendo: «a sátira que, na maior parte das vezes, se esconde sob a capa de histórias mais ou menos delirantes». Pois bem: o que define a sátira, em rigor, não é propriamente o recato: é a exibição, a desenvoltura. Uma sátira que se esconde, sobretudo quando tal esconderijo lhe é proporcionado por «histórias delirantes», representa apenas uma figura envergonhada de si mesma, uma espécie de contradição funcional. Numa segunda leitura, diríamos que NCS preenche, à sua maneira, uma clássica dualidade: de um lado, aquilo que se manifesta — a «história delirante» —; do outro, aquilo que vive oculto — a «sátira». O satírico transforma-se, desse modo, numa categoria que nos remete para um espaço esotérico, a que só os iniciados têm acesso. Nem sequer adquire o estatuto de simples ironia. A ironia subverte a palavra que a exprime. Uma sátira escondida nada exprime, nada subverte. Para finalizar, resta-me dizer que, pela parte que me toca, não considero que Portugal precise «de ser repreendido todas as semanas, com ajuda de um chicote». Portugal apenas precisa que aqueles que movem o chicote o saibam usar com mestria. JFB 05/12/2003 SIT DOWN, TRAGEDY! (Parte 2)Continuemos a conversa. Nuno Costa Santos, do Stand-Up Tragedy, ficou (quase) esclarecido com o meu post «Sit Down, Tragedy!». Apenas divergimos num aspecto: a maior parte do que ele considera sátira n' O Inimigo Público é, com boa vontade, permitam-me que o repita, sátira afectuosa. É uma contradição nos termos. Um oxímoro. Algo que se anula. No máximo, uma interessante distracção. Nuno Costa Santos considera, pela leitura de dois posts, que na Periférica temos uma «queda quase absoluta» pela sátira. Concedo-lhe isto: é verdade que eu prefiro o humor corrosivo a "textos engraçados". É verdade que eu prefiro o humor subversivo à "prosa cómica". É verdade que, por outro lado, prefiro a ironia ao humor inconsequente, por mais hilariante que seja, d' O Inimigo Público. Nas palavras do co-autor do Stand-Up Tragedy, por aqui acharíamos, criminosamente, que «Portugal, país mal comportado, precisa de ser repreendido todas as semanas, com a ajuda de um chicote». Pelo meu lado, penso não ser abusivo deduzir, atendendo à discordância subjacente nos posts de Nuno Costa Santos e à minha leitura do suplemento, que n' O Inimigo Público se toma Portugal por um país que, primeiramente, acima de tudo, com alguma urgência até, precisa de distracção — e de anedotas. Para fim de post, Nuno Costa Santos, atentíssimo, apanhou-nos, também a nós, numa contradição. O logótipo da Periférica ostenta, logo abaixo, uma referência a Vilarelho — e a revista não se dedica a seguir a agenda cultural da aldeia. Que incoerência! Mas, felizmente para todos, isso não defrauda o magnânimo colaborador d' O Inimigo Público. Talvez porque lhe agradem publicações menos geo-umbiguistas do que a New Yorker. Nisso estamos de acordo. RAA 05/12/2003 BATALHA NAVALO post «Unanimismo e Politização» levanta algumas questões cuja abordagem, por uma razão ou por outra, fui sucessivamente adiando. Agora parece ser a altura de pegar nelas. A primeira é a do posicionamento face à suposta dicotomia Esquerda/Direita. Diz RAA que «para a Periférica os conceitos de direita e esquerda já nem fazem grande sentido». Eu especificaria que essa inoperância é verdadeira se dissermos simplesmente "Esquerda" e "Direita" e encerrarmos aí a discussão. Qualquer discussão. Não faz sentido (pelo menos para mim) conotar um cânone de opiniões e práticas com a Direita e a um outro cânone, oposição termo-a-termo do primeiro, associar a Esquerda. Esquerda e Direita não são duas singularidades pontuais no vácuo ideológico circundante, não são o '0' e o '1' de uma lógica binária, não são sequer os dois lados (positivo e negativo) de um espectro linear, qual recta dos reais. Tais simplificações são — permitam-me o trocadilho mal amanhado — irreais. Se queremos estabelecer simplificações aceitáveis do "sentir político" de alguém que ligue mais às ideias do que aos rótulos, teremos de optar por estruturas mais complexas: o plano, o espaço tridimensional, hiperplanos, espaços não euclidianos. Ou, se quisermos ser mais chãos, no mínimo uma grelha estilo "batalha naval". A técnica da batalha naval tem muitas vantagens. Permite definirmo-nos politicamente sector-a-sector: por exemplo, se em assuntos como a relação do Estados com as denominações religiosas ou o aborto as minhas ideias se situam próximas das do Bloco de Esquerda, em questões como a política laboral posiciono-me mais à direita. A técnica da grelha permite-me colocar cada cruzinha na casa política com que mais me identifico. É o perfil político à la carte. Alguns verão esta expressão como pejorativa — eu encaro-a como o fim do constrangimento da opção ideológica por lote, mais acriticismo do que verdadeira opção. No more "comes with the territory". Infelizmente, um boletim de voto "batalha naval" não é praticável: não só exige um eleitorado mais culto e interessado, que busque informar-se dos diferentes programas políticos, como a formação de um Governo e a definição de um Orçamento de Estado seriam caóticas. Adicionalmente, a escolha em determinados tópicos permaneceria difícil, dada a insuficiente demarcação ideológica. Por exemplo, se nem todos os partidos advogam o laxismo na Educação (chamando-lhe outra coisa, está bem de ver), a verdade é que todos o praticam ou com ele pactuam. FG 05/12/2003 P.S. Este post esteve a certa altura pejado de noções matemáticas, porventura inapropriadas ao assunto em discussão. Tal deve-se ao desejo de ostentar a minha suposta erudição de pendor científico, a uma vez decisão consciente e impulso incontrolado, mercê de uma subliminarmente activa costela pós-moderna. A observação do mundo em volta diz-me que esta tendência é mais marcada nas correntes da Esquerda libertária e relativista. Boaventura de Sousa Santos estará orgulhoso de mim. DÚVIDA[Depois dos mais recentes posts, parece ser este o momento apropriado para reproduzir aqui um texto originalmente publicado no "A Oeste Nada de Novo" da edição em papel n.º 7.] Não é raro ver-se literatos defenderem que a literatura está acima da política e pretenderem que agem em consonância com tal proclamação. É mais raro confirmar-se isso mesmo. De facto, as convicções políticas, por menos sectárias e dogmáticas que sejam, têm uma influência não negligenciável no julgamento das obras e dos autores. Seja pelo perfil público do autor, seja por quanto das convicções políticas do autor transparece na obra, seja pelo facto de a obra ser um óbvio panfleto político. Nas duas ultimas situações, sobretudo na última, é por uma questão de coerência que não se pode dissociar a literatura da política. Já no primeiro caso, só o puro preconceito fará com que a política influencie a análise da obra. É certo que dificilmente um autor retira das suas obras algum do peso das suas convicções, por mais vagas e ténues que sejam. Mais camufladamente, mais distraidamente, mais inconscientemente, quase sempre existe nos textos uma sombra de ideário que se adivinha ou se pressente. No entanto, exceptuando o caso do panfleto, todos concordam que o valor da obra deveria ser dissociado da sua carga política. E o que nos mostra a prática? Coisas simples. Que, para lá das divisões estéticas ou escolásticas, existem as divisões políticas. Que autores medíocres são tolerados pelo sentimento de tribo ideológica dos seus pares. Que autores medianos são incensados pelos valores que defendem. Que autores razoáveis ou bons são demolidos pelos que antipatizam com as suas convicções. Que mesmo os casos indiscutíveis de qualidade ou insignificância têm os seus detractores ou defensores por razões meramente políticas. Resta a dúvida sobre se é condição natural da literatura estar acima da política. Há ainda a questão da amizade e da simpatia, mas isso é outra dúvida. RAA (in Periférica n.º 7) UNANIMISMO E POLITIZAÇÃOTradicionalmente, a esquerda reivindica para si vários patrimónios: o da cultura, o da crítica, o da irreverência, o da iconoclastia, o da sátira. Não existe vida inteligente para lá da esquerda nestes campos. A direita é acomodada, conservadora, reaccionária, conivente, logo não se interessa pelas disciplinas da subversão. E, é saber antigo, o que não é da esquerda canónica é de direita. O centro é a direita envergonhada. A independência política é a direita camuflada. Quando a Periférica surgiu, há quase dois anos, mereceu fortes pancadinhas nas costas por parte da esquerda eclesiástica. A publicação mostrava-se à vontade com o património da esquerda: era bastante crítica e irreverente, algo iconoclasta, muito mordaz, pouco apiedada de algumas eminências nacionais e tinha todos os pergaminhos de uma revista cultural. Não havia dúvidas: estávamos na presença de uma publicação de esquerda. Houvesse paternalismo, portanto. Não importava o que se escrevia na revista. Não importavam os editoriais, os textos de apresentação, as declarações à imprensa. Nada. A Periférica caminhava por trilhos esquerdistas. Nem era preciso lê-la: contabilizasse-se mais um instrumento na luta contra a opressão cultural e social da direita. Mas, nos últimos tempos, um rumor vem ganhando proporções acentuadas: a Periférica revela uma inaceitável tendência «direitista». O desapontamento à esquerda chega-nos por e-mail. Vários. Ele é o convívio com as novas figuras da direita. Ele é a «Apologia de Pereira Coutinho». Ele são os links no blogue. Ele é a concordância com opiniões de não-esquerdistas ou esquerdistas pouco canónicos (gente de direita, portanto). Ele é, pasme-se, a visibilidade da revista na imprensa «de direita». Ele são os artigos contra o Povo e contra a «luta» dos estudantes. Ele são as apresentações em Lisboa (e na FNAC!). Ele é o caraças, é o que é. A Periférica não é relativista. Mas, já se devia saber, convive bem com as mais diversas maneiras de pensar. Não estamos em época de conceder toda a verdade a qualquer corrente de pensamento (sendo que algumas não têm, evidentemente, verdade nenhuma). O pensamento dogmático, mais do que anacrónico e revelador de uma fixação pouco arejada, é atrofiante. Os clichés e slogans políticos, as lutas de classes, as teorias da conspiração e coisas afins não são matéria onde a Periférica se inspire — se não for para os ridicularizar. Gostamos do burlesco, como se nota. Por isso também nos diverte quando nos chamam jacobinos. Mas a Periférica não é «direitista» ou «esquerdista». A Periférica não é, sequer, uma revista política. Pensávamos que isto estava claro. O facto de os redactores da Periférica terem opiniões políticas e de as manifestarem faz deles cidadãos críticos e livres — não os junta num complot de direita ou de esquerda. De resto, para a Periférica os conceitos de direita e esquerda já nem fazem grande sentido. A matriz da revista, a sua postura perante os dogmas, perante a estupidez e a mediocridade, venham elas de onde vierem, está presente desde o primeiro número. O facto de haver gente surpreendida com o que se publica e se diz na Periférica não significa que a revista tenha mudado — significa que há quem só agora nos tenha começado a ler. Depois de alguma atenção por parte dos media (com uma divertida iberização pelo meio), houve amigos que nos alertaram para o perigo de unanimidade (ou mesmo de unanimismo) em volta da Periférica. Este post serve, sobretudo, para descansar os nossos amigos. Como se vê, não há unanimidade possível. Pelo menos enquanto houver dogmáticos e exclusivistas na coisa política. E, sobretudo, enquanto houver quem sobreponha a política à literatura. RAA 04/12/2003 CONSPIRO, E NÃO O SEIHá cerca de um ano, permiti-me dar um conselho ao director do IPLB. «Se quer fazer bem à literatura portuguesa, institua uma bolsa de abstinência literária. Serviço público era o Estado pagar a uma longa lista de escritores para travarem os seus ímpetos.» [Periférica n.º 4, pág. 10: «Despesismo literário»] Hoje, leio na página de João Pereira Coutinho: «Sou a favor de bolsas, não de criação literária — mas de não-criação literária. A ideia era, todos os meses, sortear umas centenas de nomes — com a ajuda da lista telefónica — que, mediante um pagamento adequado, se comprometiam a nunca escrever um livro, por mais fantástica que fosse a "obra" que tivessem na cabeça.» Resta-me concluir (juntamente com certa eufórica esquerda): faço parte de uma nefasta conspiração de direita para o fim da cultura. RAA 04/12/2003 SIT DOWN, TRAGEDY!No blogue Stand-Up Tragedy discute-se o humor. Num post recente, Nuno Costa Santos comenta e, de certo modo, procura rebater as críticas que aqui se fizeram a O Inimigo Público. Por mim até subscreveria o post de Costa Santos, não fossem algumas imprecisões na leitura que faz sobre aquilo que se escreveu no blogue da Periférica. O meu post e o do José Ferreira Borges partiram dum pressuposto que Nuno Costa Santos ignorou e que está impresso na primeira página d' O Inimigo Público: "Suplemento Satírico" (itálico meu). O que procurávamos dizer (e que pode não ter ficado claro) é que O Inimigo Público faz humor — mas não faz sátira. Em momento nenhum dos nossos textos se recusa a liberdade de haver "espaço" para "vários tipos de humor". Em nenhum parágrafo nosso se nega que "o nonsense e o satírico podem e devem coexistir". O móbil dos nossos posts, a sua coluna dorsal, é a inexistência de sátira n' O Inimigo Público. Só. Claro que os sketches "não precisam de querer dizer nada". É evidente que "o humor, mesmo sobre a actualidade, pode ser apenas lúdico e 'divertido'". Eu até iria mais longe: não se recusa a um suplemento o direito de não fazer humor. O que convém é a honestidade de não afirmar aquilo que não se faz. Os Malucos do Riso fazem rir três quartos do País — podem, com propriedade, auto-denominar-se um programa humorístico. O Inimigo Público, por seu lado, não corre certamente o risco de "cansar" ninguém pelo "moralismo satírico" — unicamente porque não faz sátira. Pela mesma razão, e esperemos que só por essa razão, também não será nunca um "exemplo magno de sátira decadente", como o é "a revista à portuguesa". Revolucionário que sou*, é-me difícil aceitar que "esqueçamos a revolução". Quer dizer: esqueço-a facilmente "uma ou outra vez". Até nem quero "mudar o estado das coisas em cada parágrafo". Chego mesmo a saltar páginas e páginas sem querer "mudar o estado das coisas". Confesso, com relativa facilidade, que já tenho alguns volumosos manuscritos na gaveta que não querem "mudar o estado das coisas" (sobretudo o dos próprios manuscritos). Agora, custa-me aceitar (e disso peço perdão) que O Inimigo Público, que "não quer mudar o estado das coisas", que quer esquecer "a revolução", que parece querer fazer rir "(exactamente) pela ficção delirante e inconsequente" criada "a partir dos factos", que, aparentemente, quer fazer humor ("mesmo sobre a actualidade") "apenas lúdico e 'divertido'", que quer que possamos "rir com os outros, em vez de rirmos dos outros", custa-me aceitar, dizia, que O Inimigo Público, o "lúdico", o "inconsequente", o "divertido", o "delirante", o bom Inimigo Público se ache satírico. Note-se que no blogue da Periférica não se falava de "moralismo satírico". Falava-se, sim, do moralismo que é, inevitavelmente, intrínseco à sátira (e a qualquer crítica). Mudam-se ligeiramente as palavras e faz-se dos posts da Periférica os textos proselitistas que não eram. Por outro lado, convém referir que não se diz em parágrafo nenhum dos nossos posts que "o único humor que interessa é o humor satírico". O que se diz é que convém a um "suplemento satírico" usar, maioritariamente, a sátira. Será assim tão difícil? O Inimigo Público não quer ser moralista, não quer colocar-se, "com alguma frequência", "numa posição de pretensa superioridade em relação à realidade 'defeituosa' e 'comezinha'". Ok, já o dissemos: "O Inimigo Público revela-se cúmplice duma distracção fútil e inconsequente". Não era ofensa. Era a versão resumida e antecipada do post de Nuno Costa Santos. RAA 04/12/2003 P.S. Para ser honesto, devo dizer que há n' O Inimigo Público dois ou três momentos de verdadeira sátira. Oásis no meio dum divertido deserto. Ou antes: miragens. Porque a certa altura esquecemos o que é a realidade risível e o que é a "ficção delirante e inconsequente". [* Esta é uma private joke para os amigos da esquerda canónica, de que falo num post prestes a entrar no ar.] EU QUERO VIVER NA CIDADE DO CONTINENTESó há um par de dias consegui ver (e ainda assim parcialmente) o anúncio publicitário que, na televisão, marca a recauchutagem do Modelo de Vila Real em Continente. Esta Vila Real, versão Continente, é bonita. Sem atentados urbanísticos: retocada digitalmente, passou de coutada edílica a recanto idílico. Quero viver nessa cidade. Prefiro-a à que vejo quando saio de casa. FG 03/12/2003 A DOLOROSA PERDA DAS CERTEZAS DESTE MUNDOOntem, de regresso a casa, fui abordado por dois elders mórmons. Dos três, eu era o único com gabardina. FG 03/12/2003 MISTÉRIOS APOSTÓLICOSRecebemos regularmente ofertas de colaboração. As mais frequentes são as de poetas ou candidatos a tal. A maioria é recusada: são maus candidatos a tal. Mais raramente, fazem-nos sugestões quanto a assuntos que poderemos abordar em edições futuras. Seja o que for, a sua adequação às temáticas (ainda que não à qualidade desejável) da Periférica é imediatamente confirmável: narrativa, poesia, ilustração, fotografia. Tal não se passa com uma das mais recentes sugestões, que nos chegou através do livro de visitas: veio de uns tais «Apostólicos» de Barcelona, «deseando que en algún número integren la cultural sede primada de Braga con su varón apostólico, San Pedro de Rates». A proposta intrigou-me e o meu pendor jacobino tocou a sineta de alarme: a sotaina andava a rondar-me! In my own backyard! Se é conspiração do púlpito, é algo que ainda não pude confirmar de fonte segura (e a inspiração divina como meio de solução do problema está liminarmente arredada), mas que é estranho que, no site da Hispania Apostólica, ao mapa que assinala a localização de Braga na Península Ibérica esteja associado o URL da Periférica, lá isso é. Obscuros serão os caminhos do Senhor — ou o sentido de humor daqueles que o seguem. FG 02/12/2003 O ESTADO E OS ESCRITORESFrancisco José Viegas é «pelo desaparecimento dessa literatura portuguesa apoiada pelo Estado e que só sobrevive com o apoio de subsídios». Mas há oito anos defendia a manutenção das "bolsas de criação artística" para escritores. Naquela época havia quem pretendesse o fim dos subsídios aos escritores, mantendo-se as benesses para as restantes disciplinas artísticas. Perante a afronta discriminadora, impunha-se, naturalmente, uma posição corporativista: «Ou havia moralidade ou comiam todos!» A razão por que Viegas, em 1995, defendia as bolsas era, portanto, muito «fácil de ver». Não se pense que estava simplesmente errado. RAA 30/11/2003 CONTRA-INFORMAÇÃOO José disse-o e eu não quero ser redundante: «O Inimigo Público revela-se cúmplice» duma «distracção fútil e inconsequente». Por isso alarguemos o raciocínio a outro produto desta safra sem proveito, o Contra-Informação, decano da sátira afectuosa. O Contra, como é amistosamente conhecido no País (e já a abreviatura é reveladora do vazio), parte do real, ficciona pouco para satirizar. Mas consegue o objectivo da sátira? Consegue épater les bourgeois? Consegue, como diria o Vasco, «espetar o estilete no abcesso»? A resposta é, obviamente, não.
O problema d' O Inimigo Público e do Contra-Informação está no conceito, no objectivo. Ao contrário do que dizem os seus manifestos de intenções, o propósito de semelhantes produtos não é, verdadeiramente, a sátira, mas tão-só o humor. O humor é parte integrante da sátira, está claro, mas não chega para a definir. Há na sátira um quê de marginalidade, de rudeza, de choque, de morigeração, até. A sátira serve-se do humor — não visa o humor.
O Inimigo Público e o Contra-Informação (que, de resto, se dão e sobrepõem alegremente) estão demasiado dentro do sistema para aceitarem fazer verdadeira sátira. São demasiado burgueses para se permitirem chatices. Prezam demasiado a convivência para se darem ao luxo de ganhar inimigos. Buscam demasiado o sucesso, a popularidade, para que lhes interesse "fazer saltar o pus".
Qualquer figura pública deste País sonha com o dia em que lhe façam o boneco no Contra. Aqueles que já têm o boneco não se cansam de repetir a «utilidade destes programas para a democracia», nunca rejeitarão participar em carne e osso numa das sessões, ombrearão amavelmente com o boneco numa disputa pela comicidade. Ora, se houvesse verdadeira sátira, as figuras públicas sentir-se-iam incomodadas com o programa, disfarçariam, assobiariam para o lado na esperança de que o mau momento passasse, poriam processos aos autores das rábulas, exigiriam desculpas, envolver-se-iam em iradas e incontroláveis sessões de pugilato com Mafalda Mendes de Almeida, a directora. Quando, na História, houve sátira, era esta a sequência dos acontecimentos — não a sucessão de abraços dengosos que hoje se vê.
Acresce que há um efeito nefasto no Contra-Informação. A classe política é tida pela Pátria como uma cambada de palhaços. E isso devia preocupar, devia escandalizar. Devia exigir, se fosse verdade (e pouco nos garante que o não seja), uma barrela com sabão rosa e abundantes esfregadelas nas pedras do rio. O Contra-Informação não revela esta realidade como quem espreme o pus da ferida; não patenteia a excrescência como aquilo que cheira mal e de que nos devemos livrar; não exibe o abcesso para que o curemos depois de nos rirmos dele. O Contra-Informação limita-se a espelhar a realidade sem a ponta de moralismo que subjaz a toda a sátira. O Contra não repreende — relativiza. O Contra não esbofeteia — acaricia. O Contra não se irrita — diverte-se. O Contra não acha mal — acha piada. No fim do programa, os telespectadores apenas prolongaram as gargalhadas — não descobriram nada de censurável. O Contra retocou a pintura aos palhaços — não contribuiu com lixívia para o asseio. Não é à toa que a RTP mantém o programa junto ao Telejornal: os programas que não incomodam devem estar juntos. RAA 30/11/2003 O AMIGO PÚBLICOSejamos claros: nem tudo é mau n' O Inimigo Público. Mas tornou-se evidente que só numa pequena parte este suplemento cumpre a tarefa satírica de que se arroga. Afinal, o que é uma sátira? É, em síntese, um discurso oral ou escrito, de natureza crítica, irónica ou maldizente. Até aqui tudo bem, e o anexo do Público de sexta-feira não faz outra coisa: maldiz, ironiza, critica. A sua única falha é não partir de um real que tenciona cauterizar, mas de pessoas e factos avulsos, que lhe servem apenas de pretexto para construções fictícias. Aquele que satiriza fá-lo (de maneira geral) movido por um espírito interventor. Ora, o grosso dos textos d' O Inimigo Público toma a realidade social como inspiração (aproveitando, muitas vezes, o aspecto mediático), falsifica essa realidade e só depois dá largas ao seu humor pretensamente satírico. Desta falsificação deriva o carácter arbitrário e inoperante das suas chalaças, incapazes de consertarem ou de subverterem. Em todo o caso, estamos diante de algo preferível aos Malucos do Riso. Estes limitam-se a prolongar o vazio e a inanidade. O humor do suplemento é refinado, perspicaz. Mas, tal como as anedotas gastas que alimentam a plebe, O Inimigo Público revela-se cúmplice da mesma distracção fútil e inconsequente. JFB 30/11/2003 APOLOGIA DE PEREIRA COUTINHO: O PROTESTODo leitor Rui Queirós recebemos o seguinte protesto:
O amigo leitor percebeu quase tudo. Só lhe faltou completar: a «Apologia de Pereira Coutinho» era, na realidade, a apologia de Rui Ângelo Araújo. RAA 28/11/2003 UM DIA NO CHIADOO lançamento da Periférica na FNAC do Chiado serviu os nossos objectivos: publicitámos a revista, iniciámos e reforçámos contactos, fortalecemos (esperamos) a ligação com a livraria que mais vende o nosso produto. (Paralelamente, o lançamento serviu para confirmar pela enésima vez a minha inépcia para o discurso, para o colóquio, para tudo o que seja arengar perante assembleias.) O Chiado é um ponto na geografia da Periférica. Estivemos lá tão bem como havíamos estado em Aveiro. E no Bairro Alto. E no Porto. E nas Pedras Salgadas. Se atendermos à periodicidade sazonal e ao espírito viajante da revista, o Chiado foi a sétima estação, onde, por momentos, nos apeámos. Seguem-se a simpática Arquivo, em Leiria, e a simpatizante Torga, em Ourense. E, quem sabe, a Assírio & Alvim, nos cinemas King. Lisboa, de novo. Castelo Branco, por preguiça nossa e cepticismo, está adiada sine die.
Os mais bondosos destes admiradores ainda vêem no nosso passeio pelo Chiado uma versão moderna do Cavalo de Tróia — e esperam o momento em que de dentro de nós saltem bravos guerreiros ou, de acordo com os tempos, kamikazes de cintos explosivos. Custa-nos desiludir esta parte do nosso eleitorado, mas factos são factos. A Periférica não se anunciou em nenhum momento como um aglomerado de folhas messiânicas ou arauto de revoluções românticas e devidamente utópicas. A nossa periferia refere-se apenas à recusa da convivência com a mediocridade e com a massificação. E estas avantesmas, como já todos deviam saber, são transversais à geografia, às classes sociais e às ideologias. Dão-se tão bem nos salões da nobreza como nas marquises da classe média. Reproduzem-se com facilidade nas secretarias superpovoadas do marxismo e nos gabinetes individuais do capitalismo. Proliferam nos subúrbios como no mesmíssimo centro de qualquer terriola ou cidade. Por outro lado, quando de Vilarelho anunciámos que queríamos redesenhar a estrutura urbana de Portugal não pretendíamos insinuar terramotos em Lisboa. Não padecemos da síndrome pirómana de Nero. Não precisamos da insanidade. Sabemos conviver — ainda que sejamos igualmente incapazes à lira.
Lisboa é uma terra airosa. Anda-se nela como noutro lado qualquer — apenas se estaciona pior. Se somos capazes de tropeçar a várias esquinas com imbecis emproados, também se encontra na cidade gente civilizada, com bons modos e pensamento exercitado. No Porto, por exemplo, há muita inveja de Lisboa. Diz-se que ali não se trabalha, somente se desfruta o produto interno bruto do País. Tudo o que Lisboa tem deve-se à exploração esclavagista da Nação. Lisboa é a metrópole ocupada em bailes e banquetes — o País são as colónias negras. O azedume acentua o lado provinciano do Porto — e o queixume impede-o de competir. Aqui, em Vilarelho, como se sabe, não partilhamos de visões conspiratórias. Não nos sentimos mal na pele de paisagem e sorrimos quando alguém dá conotação negativa ao termo.
A FNAC, que vende muitas dezenas de exemplares da nossa revista, está no Chiado. Estivesse ela nas Berlengas e esforçar-nos-íamos por corresponder ao convite para lançamento de uma edição. Somos bem-educados e agradecidos. Se quisermos conceder que a Periférica possui um carácter iconoclasta e independente e que a revista se move nas margens da massificação, teremos de aceitar que haja pessoas com o mesmo carácter que frequentam a FNAC. Quem se posicione junto às caixas de pagamento notará que os clientes que compram os livros coloridos da Rebelo Pinto, ou obras similiares, não são os mesmos que compram a Periférica (lá se vai a possibilidade de proselitismo...). É mais fácil encontrar a Periférica no mesmo saco dos livros da Antígona ali comprados. O que, convenhamos, assegura à revista a retirada da gaveta do mainstream. Ou talvez não. Se levássemos em frente a ideia de darmos uma conferência na FNAC tapados com gorros tipo passa-montanhas, não era porque a FNAC precise da subversão anunciada — era porque apreciamos o humor. Porque gostamos de subverter os clichés dos "subversivos". A subversão faz falta, pois claro. Mas não o folclore da subversão. Onde há livros à venda é possível encontrar subversão. Por isso gostamos que a Periférica se venda onde há livros. Na FNAC vendem-se livros. Não todos, claro. Mas quase todos os que são procurados. Incluindo os da senhora Rebelo e os do sr. Chomsky — os do povo e os da esquerda subversiva. RAA 27/11/2003 UNIVERSIDADE ABERTASó ontem, num súbito momento de clarividência, compreendi o porquê do nome da Universidade Aberta: sendo o ensino à distância, torna-se difícil aos alunos encerrarem a universidade a cadeado. FG 26/11/2003 DN DE SÁBADO: O EXPRESSO DOS POBRESQuase a mesma inutilidade... por muito menos dinheiro. FG (in Periférica n.º 7) ACERCA DA MEMORIZAÇÃOLeio no Público de hoje que a Comissão para a Promoção do Estudo da Matemática e das Ciências apresentou algumas propostas que visam melhorar o ensino e a aprendizagem daquela disciplina. Não me pronuncio sobre as propostas avançadas, em particular a que se refere à limitação do uso das máquinas de calcular; mas saúdo este momento de lucidez: «David Justino concorda: "Não há domínio da Matemática se não houver memorização, treino, repetição e rotina."» Eu também concordo. E estendo a minha convicção às outras áreas do saber. Não há domínio de qualquer sector do conhecimento humano se não houver memorização, treino, repetição e rotina. Se não houver esforço. Mas também a recompensa da descoberta. Acima de tudo, sublinho essa palavra agressiva: memorização. Escusado será dizer que não defendo a colagem, nos verdes cérebros, de áridas e exactas reproduções de ideias, termos, números, fórmulas. O tempo não perdoa a violência. O que defendo é a apropriação individual e coerente dos conteúdos e, em seguida, a memorização daquilo que, sendo essencial, permite evocar o resto. E o resto, acompanhado do essencial, constitui o universo de significações de cada um, o mundo pacientemente criado. Não em seis dias, para repousar ao sétimo, e a partir do nada ou da pura indeterminação; mas, se possível, durante a vida inteira, e com uma ferramenta indispensável: a memória. Se esta não for exercitada, acabará por definhar. Se a memória definha, o mundo apodrece. Se o mundo apodrece, o espírito paralisa. Se o espírito paralisa, a identidade morre. Se a identidade morre, tudo se perde. JFB 22/11/2003 BIG BROTHER CURRICULAREsta semana tem sido complicada, pelo que só hoje pude ler o jornal comprado na terça-feira. Como a azáfama ainda não passou, vou ser breve, apenas deixando aqui registada a minha total concordância com o texto de Maria Filomena Mónica (como, de resto, com todos os que tenho lido desta autora sobre os desmandos educacionais dos "Filhos de Rousseau"). De facto, ao popularuchizar e folclorizar os programas escolares — fruto de uma interpretação errada dos seus próprios ideais —, a Esquerda trai-se a si própria e enterra definitivamente a igualdade de oportunidades que supostamente defende. FG 20/11/2003 THE MAKING OF PERIFÉRICAConforme anteriormente divulgado, o lançamento da edição impressa será, de novo, na FNAC Chiado, dia 24 (segunda-feira), pelas 18:30. Não prometemos que haja acepipes nem copinhos de Porto. Mas haverá a projecção de um documentário de 3 minutos sobre The Making of Periférica, que NÃO foi realizado pelo Manuel de Oliveira. RP 18/11/2003 PERIFÉRICA n.º 7A edição online da Periférica n.º 7 já está disponível. Como sempre, é apenas uma amostra do que se pode encontrar na edição em papel. Em condições normais, o mailing (ou press release, chamem-lhe o que quiserem) estaria a seguir agora, mas ao Rui não lhe apetece estar a tratar disso hoje. Fica combinado para amanhã. FG 17/11/2003 HÁ PLÁGIOS QUE VÊM POR BEMCostumamos estar atentos aos plágios. Incluindo aqueles em que nuestros hermanos são useiros. Em tempos idos, debutávamos nós na revista Eito Fora, descobrimos que o catalão Salvador Dalí havia plagiado o logótipo da Presidência Portuguesa da União Europeia de 2000 (ver reprodução da "denúncia" mais abaixo). Agora descobrimos que a generosa reportagem sobre esta humilíssima revista que João Miguel Tavares publicou no DN foi plagiada por alguém da agência EFE (a Lusa espanhola, por assim dizer). Este plágio de Domingo aborreceu-nos. A cópia disponibilizada pela EFE foi (que saibamos) publicada no El Mundo, no Diário de Navarra e em La Vanguardia. Não nos aborreceu que os três jornais difundissem o texto plagiado, claro. Aborreceu-nos que jornais tão distintos não soubessem escolher os seus próprios adjectivos para nos elogiar. RAA 17/11/2003 [ reprodução de um artigo do extinto "Eito Fora": ]
Pintura de Dalí (topo), pormenor do plágio (meio), o original plagiado (fundo) DALÍ, O PLAGIADORAo folhear um portefólio de um pintor espanhol que ultimamente tem dado nas vistas no mundo da arte, detectámos um pormenor no mínimo revelador e que certamente terminará com a carreira daquele pintor catalão. Este, de seu nome Salvador Dalí (um perfeito desconhecido em Portugal, já que as galerias portuguesas não têm sido muito receptivas à sua obra), que não prima pela imaginação, não tem qualquer pejo em plagiar autores bem mais apetrechados. É o caso da criadora do logotipo para a Presidência Portuguesa da União Europeia, que viu aquela verdadeira obra de arte reproduzida em "trabalhos" do tal Salvador Dalí, como se vê na foto anexa. Haja vergonha, senhores!! Ainda bem que aqui no Eito Fora ninguém dorme! Faremos já seguir uma queixa para a Sociedade Portuguesa de Autores. PA/RAA Eito Fora n.º 12, Abril/Maio 2000 APROVEITAMENTO MERCANTILISTADepois de ler a reportagem de duas páginas que o Diário de Notícias dedica hoje à Periférica, depois do elogio de Henrique Cayatte reproduzido mais abaixo, sinto uma intensa necessidade de comprar e ler a tal revista de Vilarelho. Vocês não? FG 16/11/2003 EGOÍSTA? NÃO.A honestidade intelectual é coisa pouco aparecediça no mundo das artes e da cultura. A generosidade intelectual, essa, é ainda mais rara do que o lince da Malcata. Por isso, quando deparamos com uma e com outra não podemos deixar passá-las em claro. O melhor do XPTO de sexta-feira passada foi a longa e proveitosa conversa de bastidores com Henrique Cayatte, um dos papas do design gráfico em Portugal e, na circunstância, responsável pela linha estética da Egoísta. Aprendemos algumas coisas com ele, descobrimos interesses comuns, passou-se bem o tempo de espera. A surpresa viria depois, quando foi a vez de Henrique Cayatte e da Egoísta terem os seu tempo de antena. A exiguidade deste, imposição do alinhamento, não foi obstáculo para que Cayatte desviasse o protagonismo do momento da revista dele para a nossa. Cito-o quase integralmente:
Tamanha generosidade comove-me, confesso. Mas não porque ache sermos imerecedores do elogio (não se enganem: não é desta que desistimos do folclore narcisista). Simplesmente me comovo quando vejo alguém prescindir do seu tempo para despudoradamente expor uma verdade em frente às câmaras. FG 16/11/2003 A PERIFÉRICA NA NTVFontes bem informadas (nós mesmos) fazem saber que a Periférica vai estar amanhã (sexta-feira, dia 14) no programa XPTO. É na NTV, pouco depois das 17:00. O tema vai ser a imprensa, devendo estar presentes, segundo o peixe que nos venderam, as revistas Periférica, Egoísta e Op. O nosso representante será o mais bonito dos convidados, claro. FG 13/11/2003 SERVIDOR NOVO, VIDA NOVA (2)A mudança de servidor do site da Periférica já se efectuou, aparentemente sem muitos sobressaltos. No entanto, há uma diferença no serviço que poderá causar transtorno a alguns visitantes: agora o nosso URL (endereço) terá de ser obrigatoriamente http://www.periferica.org/ e não http://periferica.org/. Ou seja, não se podem esquecer do "www." (que antes era facultativo e agora não). Agradecemos que actualizem os vossos links, favoritos, bookmarks, what ever... (Bem, a verdade é que, se não actualizaram já, não conseguem ler estas palavras... Hmm... Faz lembrar aqueles avisos das frequências dos emissores de televisão, que só são vistos por quem já tem a televisão sintonizada.) RP 13/11/2003 APOLOGIA DE PEREIRA COUTINHOJoão Pereira Coutinho iniciou a actividade no seu blogue (ou página pessoal). A blogosfera notou-o e deu notícia. Os indefectíveis apresentaram loas ao "enfant térrible". Os detractores reiniciaram a intifada. Houve tentativas de minimizar o interesse do escriba Coutinho pela colagem ao veterano Vasco Pulido Valente. O assunto agrada-me. Teço sobre ele. Propor que João Pereira Coutinho (JPC) é uma réplica de Vasco Pulido Valente só o minimiza se acharmos frustrante ser Vasco Pulido Valente (VPV) um upgrade de Eça de Queirós. Pereira Coutinho parte de um ideário com muitos pontos em comum com o de VPV. Busca, como VPV, surpreender apresentando o ponto de vista mais improvável, a opinião mais inesperada e contrária à convicção generalizada, aquela que temos a mania de escolher. Pereira Coutinho, como Pulido Valente — finjamos a crença na predestinação —, veio ao mundo para abrir horizontes, para alargar o ângulo com que os objectos são olhados. Os dois usam uma prosa notável, nítida, transparente, leve mas rica, crua, cruel, irónica, cínica. Provocatória.
João Pereira Coutinho não se acastelou, não escreve só para o espelho, preocupado com a beleza da sua epiderme. Pode parecer mau como as cobras — mas não é uma bruxa-má ociosa. O eremitério anunciado por JPC fica-lhe bem. Sobretudo por ser francamente falso, como as melhores e mais civilizadas peles de marta. João Pereira Coutinho não precisaria que os Monty Python realizassem um filme para lhe terminarem com os votos de silêncio e ascetismo. Basta-lhe existir a esquerda e a estupidez. É indignável, como o comum dos cidadãos.
|
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
|