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O blogue da Periférica

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A TIRANIA DA MESMIDADE

Numa das suas efusões filosófico-religiosas, Santo Agostinho escrevia: «Em ti, ó meu espírito, meço os tempos!» (1) Nesta fórmula, o autor das Confissões sintetizava a dimensão psicológica de uma entidade obscura: o tempo. Alguns séculos depois, Heidegger veio afirmar a existência de um tempo originário, horizonte de toda a compreensão do Ser. Nesta nova leitura, o espírito não se limita a medir os tempos: ele próprio é um tempo que possibilita e condiciona as outras durações, às quais poderemos chamar tempos derivados. É essa pluralidade de modos de durar que traduz as nossas diferenças e fundamenta o direito de sermos originais.

Paradoxalmente, as sociedades que se estruturam com base no pluralismo e na democraticidade tendem, com frequência, a uniformizar esses tempos derivados, isto é, a impor opções, atitudes, ideias e vivências. Nesse aspecto, assemelham-se às sociedades fechadas, e o ideal democrático é subvertido pela tirania da mesmidade. Afinal, se a possibilidade de questionar é uma das prerrogativas da democracia, a decisão de prescindir desse benefício expressa, possivelmente, uma submissão atávica a esquemas ditatoriais. Em última análise, as sociedades abertas anseiam pela instituição de um tempo secundário, de cuja heterogeneidade todos os homens participem em simultâneo, garantindo assim o seu carácter de abrangência. Ora, o elemento decisivo em todo este processo é a lógica do espectáculo, com o seu marketing agressivo. Enraizada nas virtudes da imagem e no vigor do espalhafato, esta lógica procura cumprir-se numa espécie de ritualização orgiástica dos modos de pensar, sentir e agir. É neste contexto que surgem as estreias simultâneas, os gestos sincronizados, os risos unânimes, as tosses padronizadas.

Na quarta-feira da semana passada, Matrix Revolutions teve a sua estreia, ao mesmo tempo, em dez mil salas de cinema em todo o mundo. A opção de assistir à estreia de Matrix Revolutions é, mais do que a tradução de uma curiosidade cinéfila, a manifestação de vassalagem a uma poderosa operação de simultaneidade, capaz de gerar no espectador um ilusório sentido de comunhão. O essencial é isto: que todos vejam o mesmo filme ao mesmo tempo; que o saibam esquecer na mesma data; que se pautem por gostos análogos em horas iguais, que sintam idênticas frustrações antes de adormecerem, ou esperanças similares depois de terem acordado.

Se as sociedades plurais visam o estabelecimento desse tempo englobante, resta-nos saber se tal anseio é de raiz puramente individual, reflectindo uma nostalgia metafísica da unidade; se é uma decisão exclusiva da lógica do espectáculo, levando a uma contundente massificação; ou se, por fim, é o resultado da convergência dessas duas fontes. Qualquer que seja a resposta, é óbvio que, a este nível, os homens já não parecem orientar-se para qualquer tempo originário, nem para uma eventual eternidade que, estando-lhe associada, habite o interior (de acordo com certas orientações religiosas), à maneira de alicerce dos fenómenos existenciais. Pelo contrário, parecem demandar uma eternidade que será tanto mais eterna quanto maior for a soma das vontades que se entreguem à fruição do mesmo, na sucessão do efémero. É como se o Uno se encontrasse depois da adição do múltiplo, em vez de ser anterior a essa fragmentação.

Nietzsche foi premonitório: «Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. (...) Nenhum pastor e um só rebanho! Todos quererão a mesma coisa, todos serão iguais; quem quer que tiver um sentimento diferente entrará voluntariamente no manicómio. (...) Ainda se questionará, mas depressa surgirá a reconciliação, com medo de estragar a digestão.» (2) Talvez não haja melhor modo de caracterizar a sociedade do espectáculo e (por que não dizê-lo?) os efeitos da invisível Matriz, ainda que, por ironia, seja ela o objecto de culto. O que importa, afinal, é que todos sejamos iguais uns aos outros — desde que aceitemos ser diferentes de nós próprios. JFB 10/11/2003

(1) Santo Agostinho, Confissões, XI, .27, Livraria Apostolado da Imprensa, 12.ª ed., 1990, p. 317.

(2) Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Guimarães Editores, 11.ª ed., s/d, pp. 17–19.

VIRGINIE DESPENTES

Virginie Despentes, autora de Teen Spirit, vai estar em Lisboa a apresentar o seu livro.

Espero que a Temas e Debates noticie bem a natureza da apresentação — não vá uma leitura apressada do título do press release levar alguns a pensar que se trata de um show de strip-tease para pedófilos... (Confesso: passou-se comigo.) FG 05/11/2003

AMOSTRA

Pois é verdade e confessamo-lo sem vergonha: a Periférica é referida nas páginas da Amostra, mais propriamente na rubrica «Em papel». (Pensavam o quê?...) RP 05/11/2003

CORTINAS

Em resposta a um questionário do Público de 4 de Novembro, Francisco Louçã refere que «uma oposição forte vence qualquer cortina mediática se responder ao problema das pessoas». A afirmação até seria modelar, não fora o carácter contraditório de que se reveste. Afinal, a força da oposição depende do modo como esta vai integrando os vícios e as virtudes que definem as cortinas mediáticas. Não é possível brilhar sem que se condene à sombra alguma coisa. Mais do que vencer as cortinas que ofuscam ou sonegam, trata-se de lhes seguir o exemplo. Com subtileza. Só assim se responde ao problema das pessoas. Mas a verdadeira resolução fica para depois. Para quando as cortinas deixarem de existir... JFB 05/11/2003

ONDE ESTÃO OS FILÓSOFOS?

De repente, começou toda a gente a perguntar por eles. Pelos filósofos.

No dia 1 (seria por ser dia de todos os santos... ou véspera de finados?), era o Intimista a reclamar uma participação mais activa do Zé Ferreira Borges aqui no «Oeste»; hoje, na secção de cartas ao director do Público, é um tal Paulo Carvalho do Cacém a clamar pelos filósofos como classe, para que participem mais activamente na sua função de pensadores activos e consciência crítica da sociedade.

Não sei se os filósofos vão responder a esta tentativa individual de mobilizá-los. Mas o Zé, entretanto, já reagiu, conforme se pode pelo post acima e pelo post duas posições abaixo. FG 05/11/2003

OU COMEM TODOS, OU HÁ DIGNIDADE

No Verão instalou-se a discórdia entre os bombeiros profissionais e os Coordenador Nacional de Operações de Socorro do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, quando este considerou não serem aqueles competentes (ou não estarem vocacionados) para combater fogos florestais.

Agora vem o ministro da Agricultura, Sevinate Pinto, dizer que o problema não é dos bombeiros profissionais, mas dos bombeiros portugueses em geral, que não sabem nem têm formação para esse tipo de combate.

Admiro a coragem do ministro: numa altura em que poderiam nascer dissensões entre bombeiros voluntários e bombeiros profissionais (os "bons" e os "maus"), vem Sevinate Pinto pôr água na fervura e mostrar que para a Tutela não existem filhos e enteados — são todos enteados. FG 05/11/2003

P.S. Não me pronuncio (não estou habilitado a pronunciar-me) quanto à justeza das palavras do ministro. O problema (assumamos, for argument sake, que real) de os bombeiros não saberem combater fogos florestais pode levar-nos a questionar a sua vocação para tal; já a falta de formação (uma vez mais, assumamos que efectiva) será culpa de quem?...

O PAÍS DEPRIMIDO

Quando o espaço mediático efectua excessivas trocas com uma situação real, acaba invariavelmente por vampirizá-la, absorvendo-a na sua inteireza. Mas os efeitos de tal absorção, que ocorrem nas mentes individuais, variam em função do grau de discernimento do espectador. Se este acusa défices de autonomia e de senso crítico, é natural que tenda a confundir o vampiro com a substância nutritiva. Ser incapaz de se distanciar da lógica do espalhafato e do sensacionalismo da informação é a mais desconcertante mazela da opinião pública. Por conseguinte, o espaço mediático não se limita a vampirizar o real; molda, igualmente, os espíritos à sua geometria caprichosa. Em certas circunstâncias, ele cria conceitos problemáticos ou impõe teses aleatórias, configurando a mioleira da turba, para depois lançar ex cathedra as suas arbitrárias inanidades. Um exemplo nos bastará para ilustrar este processo. Vejamos: em primeiro lugar, bombardeou-se o povo com o escândalo da pedofilia; depois, filmou-se a lágrima furtiva, recolheu-se o protesto inflamado, divulgou-se o segredo excitante; por fim, instituiu-se a conclusão: o país está deprimido. Agora, mediante argumentos falaciosos, vai-se justificando a tese, enquanto ela mantiver a sua frescura mediática.

É evidente que o país está deprimido. O país virtual, entenda-se. O país real, por sua vez, devia era estar esclarecido. Mas o seu frágil criticismo fá-lo perder terreno em relação ao país virtual, até que o cinzento depressivo cubra, efectivamente, as lajes do nosso chão, sufocando também as últimas fissuras da lucidez. É uma dialéctica perversa e viciosa, que toma como pressuposto aquilo que falta provar. Não nos espanta, por conseguinte, que numa entrevista publicada pelo Mil Folhas leiamos a dada altura uma pergunta sintomática: «Apercebeu-se durante esta breve estadia que os portugueses vivem em depressão?» Mario Vargas Llosa, o entrevistado, responde com esta candura: «Sim. Mas parece-me triste que se viva um momento de crise por causa de problemas de pedofilia.» Cada um interprete como quiser. JFB 03/11/2003

PERIFÉRICA n.º 7

Encontra-se na recta final a preparação do n.º 7 (Outono de 2003) da revista Periférica. A apresentação pública está já marcada para dia 24 de Novembro, na FNAC Chiado. RP 01/11/2003

«MINE! ALL MINE!!!»

A julgar pelo e-mail que nos enviou, o Intimista anda preocupado por o A Oeste Nada de Novo ser quase só feito por mim:

Que é feito do Zé Borges? Este blogue parece cada vez mais um antro personalizado de Fernando Gouveia!

Deixem o Zé [JFB] escrever aquilo que lhe vai na mente e na alma...

Caro Intimista, isto aqui (ainda) não é uma autocracia: se o Zé não tem aparecido, é porque, pelo menos por agora, para ele é Primo filosofare, dopo blogare. FG 01/11/2003

E OS MARRETAS SÃO ELES?!...

Sempre me pasmaram aquelas pessoas que, sem se fundamentarem devidamente, se acham habilitadas a escrever um livro. Não me refiro a livros de ficção ou poesia: não só porque me convém limitar o âmbito deste post, mas igualmente porque é discutível se um poeta ou um ficcionista precisam de se fundamentar seja no que for. (Adiante, que estou a entrar por terreno pouco firme...)

Refiro-me aos autores de "livros de não-ficção", mais propriamente àquela nebulosa que poderíamos classificar como "livros de divulgação" ou "ensaios destinados à massas". E, dentro desta categoria, àqueles livros dedicados a assuntos que, por se terem tornado subitamente mediáticos, os editores sentem haver da parte do "grande público" uma necessidade premente (em inglês, "urge"). Quando estas condições se verificam, o tempo, efectivamente, urge (mediático hoje, esquecido amanhã), pelo que o mais das vezes o trabalho de escrever o livro em questão (deadline: o próximo fim-de-semana) é entregue às tais pessoas não habilitadas a que aludi antes (geralmente, o primeiro candidato que entra pela porta do sôfrego editor).

Um exemplo mais ou menos recente disso foi a chusma de biografias de Osama Bin Laden (ou Osama Ben Laden, ou Usama Bin Laden — a pressa não permitiu chegar a acordo) surgidas nos escaparates no par de meses subsequentes aos atentados de 11 de Setembro de 2001. Na véspera ninguém sabia nada sobre o fanático saudita, no dia seguinte era só experts na matéria.

Outro exemplo é o da (a cada momento) mais recente moda da chamada "Sociedade da Informação": sucessivamente, a internet, o chat, o SMS... os blogues. É esta última moda (ou a sua abordagem em livro) que justifica este post.

Passou-se na festa de lançamento do livro O Meu Pipi, o primeiro nascido de textos originalmente escritos para um blogue. Mas não é da antologia do enigmático Pipi que vou falar, antes do livro Blogs (de Paulo Querido e mais outro sujeito cujo nome não me ocorre de momento), que tive a oportunidade de folhear nessa noite. O Querido autor mostrava a sua obra aos presentes, quase todos insignes blogadores, e eu, não sendo insigne, dei também a minha espreitadela. Lá estava a indispensável advertência quanto à ingratidão de escrever sobre um universo em constante evolução, lá estava também a educativa introdução estilo «os blogues explicados às criancinhas». Chamo-lhe "introdução" porque o grosso do livro é ocupado com uma selecção de blogues, classificados por categorias (políticos, literários, humorísticos, etc.). E é nesta selecção que mais marcadamente os autores denunciam a sua impreparação, a sua qualidade de catalogadores de fim-de-semana (não tendo lido o resto, dou-lhes aí, diplomaticamente, o benefício da dúvida).

É que, a páginas tantas, mais propriamente na dedicada ao Blogue dos Marretas, são os autores deste identificados mais ou menos da seguinte maneira: «Statler, Waldorf e Animal (identidades desconhecidas)». Fiquei espantado e interpelei o Paulo Querido: «Como assim, "identidades desconhecidas"?! Toda a gente sabe quem eles são! São docentes na Universidade da Beira Interior, um é sociólogo, outro...» Ao que me responde: «Ai é? Pois bem, procurei por toda a parte [sic] e não encontrei em nenhum lado a verdadeira identidade deles...»

Hello?! Gostaria de saber ao que chama Paulo Querido «toda a parte». Quando a blogosfera se tornou moda nos media portugueses, não houve reportagem ou artigo (na Visão, no Público...) que não incluísse os inefáveis Marretas, com direito a nome, profissão e até fotografia. (Alguém até se queixou que «eram sempre os mesmos»...) Não encontrar as suas identidades é sinónimo de não ter procurado em sítio algum.

Então... e os marretas são eles?! FG 01/11/2003

OS PRIMEIROS A SABER SOMOS TODOS NÓS

Há uns dias, José Mário Silva insurgia-se contra a publicação, na revista Nova Gente (NG), da ecografia do futuro herdeiro da cantora Romana e do qualquer-coisa Peter Pan. Penso que tal posição por parte do principal animador do Blog de Esquerda só se pode dever a uma falta de visão estratégica para a imprensa escrita do século XXI, visão que os editores da NG claramente têm.

De facto, estou tão bem impressionado com a dinâmica desta subapreciada revista, que vou passar-lhe a minha mais recente ideia, prescindindo de todos e quaisquer direitos autorais. Pois bem, a coisa consiste em, numa das futuras edições, fornecerem amostras de urina de alguma colunável, para que os leitores possam, no conforto dos seus lares, determinar se a actriz X, a cantora Y ou a sabe-se-lá-bem-porquê-famosa Z estão ou não prenhas. (O fornecimento de material genético para o teste de paternidade ficaria para uma edição posterior.)

Os benefícios desta iniciativa são claros e não despiciendos. Por um lado, avança-se no sentido de uma maior interactividade com o leitor (coisa que alguns criam exclusiva da internet e da nova televisão). Por outro, abre-se a porta para uma proveitosa parceria com a Predictor, retribuível através do financiamento da deslocação dos directores da NG a um congresso de jornalismo lá para as bandas das Seychelles. (Não são só os médicos que têm direito à formação contínua.) FG 30/10/2003

PELA RACIONALIZAÇÃO DAS ÁREAS PROTEGIDAS

O ministro do Ambiente não gostou que os seus colegas de Governo avançassem com a ideia de lhe tirarem o Instituto de Conservação da Natureza (entidade responsável pelas áreas protegidas) para o ofertarem ao Ministério da Agricultura (mais propriamente à Secretaria de Estado das Florestas). Para cúmulo, tal sugestão teria sido feita enquanto o ministro espoliado andava pelas Europas, pelo que não teve voto na matéria. Diz o ministro Amílcar Theias que esta transferência vai subverter a ideia de "área protegida", sendo «uma cedência a interesses particulares». Mais, o ministro contestatário (há que tempos não tínhamos disto!) diz que a conservação da natureza é «um conceito abrangente que respeita outros valores que não o lucro comercial e vai muito além da gestão da floresta».

Por mim, acabava-se com o Ministério do Ambiente, e quanto ao ICN, em vez de o transferir para outro ministério, acabava-se com ele também — chega de hipocrisias pseudo-conservacionistas. O projecto do Governo só peca pelas vistas curtas — e neste ponto Amílcar Theias tem razão: a exploração das zonas protegidas vai muito além da gestão da floresta. Por isso, sugiro que os beneficiários da extinção do Ministério do Ambiente e do ICN sejam diferentes ministérios, de acordo com a vocação natural de cada zona específica, por exemplo:

  • o Parque Natural da Serra da Arrábida passava para o Ministério da Indústria, com largos benefícios para as cimenteiras e pedreiras locais;
  • o Parque Natural Sintra-Cascais passaria para a alçada da Secretaria de Estado da Habitação — de qualquer maneira, a construção já é a principal actividade da zona (o que dá um sentido novo à expressão "fogos florestais");
  • o Parque Natural da Serra da Estrela passaria para o Ministério da Administração Interna, sendo afecto ao Serviço Nacional de Bombeiros, como campo de treino;
  • igual fim, mas para a pontaria dos bravos da nação, teria a Reserva Natural do Estuário do Tejo, que seria anexada ao vizinho Campo de Tiro de Alcochete (tornando de jure uma situação de facto).

Com um pouco mais de imaginação e conhecimento do terreno, facilmente se resolveria a transferência de competências dos restantes Parques, Reservas e Zonas de Paisagem Protegida. FG 29/10/2003

A FALÁCIA DA BICICLETA

Pedro Lomba escreve no DN de hoje uma interessante e ritmada crónica-manifesto contra a proposta de Constituição Europeia e contra o Referendo a esse documento. O principal interesse do artigo é a apresentação de um novo euro-espécime: depois dos tradicionais eurómano, eurófobo e eurocéptico, e do mais recente eurocalmo, eis que surge, na pessoa de Pedro Lomba, o europarado.

Não vou entrar em detalhes quanto ao texto (o jornal está aí para ser lido em primeira mão), mas a ideia principal é a de que a "construção europeia" não tem, necessariamente, de ser feita sempre no sentido de um maior aprofundamento da integração, rumo ao federalismo ou a algo muito semelhante. Defende Pedro Lomba que o modelo actual pode ser mantido com o alargamento a Leste (dificilmente, convenhamos). Que nem sempre para a frente é que é o caminho. Que não tem cabimento esta visão da Europa como uma bicicleta: ou avançamos constantemente, ou paramos e caímos.

É isto que mais me preocupa: esta percepção errada do biciclo. É que uma bicicleta não cai necessariamente quando paramos. Para além dos artistas de circo que tanto andam para a frente como para trás (euroindecisos?), há uma técnica, ao alcance de todos, que garante a estabilidade e o equilíbrio: os pés na terra. E é isso que, provavelmente, nos está a fazer falta no momento. FG 28/10/2003

A SEGUNDA VIDA DA ESTÉTICA NAZI-ESTALINISTA

O Público de hoje publica uma notícia sobre a campanha contra a imigração levada a cabo pelo Partido Nacional Renovador (PNR), um partidelho de ideologia claramente fascizante e xenófoba. Acompanha a notícia a fotografia de um dos cartazes dessa campanha. É sobre esse cartaz que me vou debruçar.

O PNR alerta para o perigo que corre Portugal, que «envelhece e morre». Talvez porque queira ser o obreiro do rejuvenescimento redentor (ou da renovação a que o seu nome alude), combate a ameaça de «dentro de 50 anos» já não existirmos com um recuo à estética de há 70 anos atrás: a estética que, estranhamente (ou talvez não), irmana o arianismo nazi-fascista com o realismo socialista tão benquisto a Estaline.

Domina o cartaz um robusto e másculo porta-estandarte. O estandarte é português, pelo que quem porta o dito sê-lo-á também. Apesar de o cabelo loiro do heróico sujeito torná-lo pouco representativo da população lusa — quase que poderia ser um alemão de gema... ou um cidadão de Leste (ups... desses não, carago!). E também as proporções verde/vermelho da bandeira estão algo viciadas em favor da esperança (eis os desejos do subconsciente a manobrar).

Mas do que gosto mesmo é do cabelo estilo-casual-mas-de-cidadão-exemplar-se-bem-que-inconformado do protagonista: parece esculpido a cinzel no mármore (o betão armado é para as estátuas proletárias da ex-URSS). Já a multidão de fundo que, de bandeiras em punho, marcha «contra o sistema de destruição nacional» cheira demasiado a cartaz do PCTP-MRPP — e nem os punhos baixados, mas decididos, são o suficiente para evitar a confusão aviltante. FG 27/10/2003

IT'S THE FINAL COUNTDOWN
(reflexões suscitadas pelo lançamento do último Harry Potter — 1)

Lembro-me da expectativa infantil durante o mês que antecedia a minha ida para a praia. Colava um calendário atrás da porta do quarto e todas as noites antes de me deitar riscava mais um dia que passara, menos um dia que faltava. Na derradeira noite, quando a antecipação incontida me acordava antes do nascer do sol, ficava mesmo a olhar os ponteiros fluorescentes do relógio a tiquetaquearem à volta de si mesmos.

Bem, para ser honesto, tenho de confessar que, de facto, não era todas as noites que dava baixa de «mais um dia que passara, menos um dia que faltava». Na verdade, uma que outra noite esquecia-me e deixava de actualizar a contagem decrescente — apesar disso, o dia da partida chegava, inexoravelmente, na data fixada. A realidade não se atrasava, só o countdown.

Mais recentemente, foi o país político e mediático (perdoem a redundância) que adoptou a fantasia infantil das contagens decrescentes: tivemo-las para a inauguração da Ponte Vasco da Gama e para a abertura da Expo '98, repetimos a dose com os sucessivos Big Brothers e o Porto 2001, parimo-las provincianamente por tudo quanto é Programa Polis. (No caso do Polis de Vila Real, o contador anuncia-nos, ao pormenor do segundo, quanto tempo falta para a conclusão das obras — quando o que todos gostariam de saber é quando é que elas começam, realmente...)

A grande diferença entre os countdowns institucionais e o meu exercício pueril é que com os dispositivos de agora não há esquecimento que trave os números na sua inexorável progressão rumo à gloriosa nulidade — quem se atrasa é a própria realidade (com excepção, claro, do countdown da "novela da vida real", prova mais do que suficiente de que de "vida real" o Big Brother tem muito pouco). FG 25/10/2003

PRESENÇA AUSENTE
(reflexões suscitadas pelo lançamento do último Harry Potter — 2)

Vem isto a propósito da recente campanha publicitária anunciando os dias que faltavam para o lançamento a nível nacional do último livro da série Harry Potter (às zero horas do dia 25 de Outubro). Para o efeito, a Editorial Presença reservou o Panteão Nacional e espalhou por tudo quanto é livraria o seu painel de contagem decrescente, alimentando com isso ainda mais a expectativa dos miúdos que, em pulgas, viram os números baixarem penosamente à razão de um por dia.

Também isso se passou na livraria que mais assiduamente frequento. Tendo ouvido falar que FNACs e outras grandes livrarias estariam abertas até às duas da manhã para aplacar a impaciência dos fãs, perguntei ao Paulo (o dono) se também a livraria dele embarcaria na loucura pós-doze badaladas. «Para quê?», perguntou ele com aquele sorriso entre o desalento e o sarcasmo, fruto de muitos anos no ramo. «Para chegar o dia e os livros não estarem cá? Não se pode confiar nos editores e distribuidores nacionais...»

O facto é que uma discreta esperança se foi acalentando com a assinatura do contrato segundo o qual os livreiros se comprometeram a não pôr à venda antes das zero horas do dia 25 os livros que, prometia a distribuidora, chegariam no dia 22.

Right...

À hora que escrevo, a montra da livraria está enfeitada segundo a temática da feitiçaria; o contador decrescente exibe o seu vermelho e retardado '1' — e não há Harry Potter para vender. E o Paulo adivinha já (sem precisar de poderes mágicos) a mão da criançada a arrastar os pais para os carros. As mesmas vias rápidas e auto-estradas que foram longas demais e sinusosas demais para fazerem chegar o tão esperado livro às livrarias de Vila Real e de muito do restante interior far-se-ão curtas e escorreitas para levar a prole sedenta de aventuras aos centros comerciais do litoral. Ou ao hipermercado mais próximo.

O Paulo cumpriu o contrato de não vender o livro antes das zero horas de sábado — e depois dessa hora também, pelos vistos... FG 25/10/2003

FALTAM NÃO SEI QUANTOS DIAS PARA...
(reflexões suscitadas pelo lançamento do último Harry Potter — 3)

Pelo andar da carruagem, não tarda muito e esta mania das contagens decrescentes chega em força aos jornais diários: todos os dias, sem excepção, a manchete principal dirá a letras vermelhas, garrafais:

FALTA UM DIA PARA SAIR O JORNAL DE AMANHÃ

FG 25/10/2003

C'OS DIABOS!

José Saramago anunciou há dias que o seu próximo livro vai provocar um «escândalo dos diabos». Das duas uma: ou Saramago se rendeu à coisa capitalista que é o marketing, ou o que nos promete é um livro pior do que A Caverna — e o escândalo maior será no seio do Comité Nobel. RAA 23/10/2003

INIMIGO PÚBLICO

O Inimigo Público, o suplemento satírico do Público (às sextas-feiras) fez a sua primeira vítima. Não, não é o Martins da Cruz ou o Pedro Lynce (esses morreram de tiros nos pés) — a primeira e maior vítima do Inimigo Público é o Gato Fedorento, que ainda fede, mas agora por estar quase morto... <snif>

TD, MG, ZDQ e RAP: Don't R.I.P.! FG 18/10/2003

A MEMÓRIA E O MITO

É sempre interessante ver como o esbatimento da memória é rápido, e como os mitos se servem disso para se reforçarem.

No noticiário da SIC, uma peça faz um resumo dos 25 anos de pontificado de João Paulo II. Em respeito ao atentado de 13 de Maio de 1981, a voz off refere a importância que este acontecimento teve no fortalecimento da devoção do papa polaco pela Virgem, em especial por Nossa Senhora de Fátima: o papa considerou ser o «bispo vestido de branco» a que aludiam os três pastorinhos, explicou o jornalista. O que não explicou — já se terá esquecido? — é que até à beatificação de dois desses três pastorinhos (em Maio de 2000) ninguém falava de qualquer "bispo vestido de branco" como fazendo parte do "terceiro segredo" de Fátima, ou que só em 1942 foi revelado que a segunda parte do segredo "predizia" a Segunda Guerra Mundial (então já há três anos uma dura realidade).

Mas tudo isso é pouco importante: para o mito futuro ficará a "memória" de que a Virgem, que nos avisara já dos perigos de um segundo conflito global, previu igualmente o atentado e a sobrevivência de Karol Wojtyla. FG 16/10/2003

PROPINAS

Pendurada no portão principal do campus está uma faixa onde se lê: «Educação: um investimento.» Concordo. Mas já não concordo com o que se lia numa faixa de lutas passadas, pendurada há coisa de um ano em frente ao edifício onde trabalho: «O ensino não é uma despesa, é um investimento.» O problema é que o ensino é um investimento e uma despesa. Uma grande despesa. E sendo assim, convém que o investimento não seja a fundo perdido...

Bem vistas as coisas, se é necessário que o Estado assuma claramente as suas responsabilidades — o que, convenhamos, não está a acontecer —, é também urgente que os alunos assumam as responsabilidades próprias — o que, igualmente, não costuma acontecer. Não podemos ter, simultaneamente, uma tutela cada vez mais demissionária (veja-se o Orçamento de Estado para 2004) e uma "clientela" eternamente irresponsável.

Tudo isto para deixar claro que, ideologicamente, sou a favor da propina zero para os alunos que retribuem o investimento que o Estado faz neles, isto é, aqueles que aproveitam bem a oportunidade que lhes é dada. Começando a reprovar, começariam a pagar. E forte. FG 16/10/2003

A DITADURA DO CADEADO II

Depois do fecho de terça-feira e da "aberta" de ontem, o campus da UTAD voltou hoje a ser fechado a cadeado. Como geralmente acontece (e muito mais nestas situações), não consegui ficar calado, e os senhores da RTP fizeram o favor de registar o meu protesto.

Enquanto não me decidia a fazer meia-volta e sair dali, fui trocando impressões com os alunos. Um deles explicou-me as "razões" do recurso ao aloquete: que se não fosse assim, os estudantes não aderiam à luta; que todos protestam nos corredores, mas poucos têm coragem de tomar posição; que se os portões estivessem abertos, a maioria ia às aulas e os que não fossem teriam falta. Tudo bons argumentos, está bom de ver...

Como se costuma(va) dizer, as Academias são a vanguarda da Sociedade. Razão pela qual me espanta não terem até agora os Sindicatos adoptado as técnicas dos estudantes: em vez de os grevistas da Carris e da STCP se recusarem (os que se recusarem) a entrar nos respectivos autocarros, um piquete mínimo fechará a cadeado os parques de viaturas, garantindo assim os inegáveis cem por cento de participação. No caso da CP, sendo manifestamente impossível aloquetar algo tão monstruoso como uma composição de carruagens, a solução passaria por fechar a cadeado, não os comboios, mas os colegas renitentes. FG 16/10/2003

BIG BROTHER VATICANO

Recomendo vivamente o artigo de João Miguel Tavares no DN de hoje. Chama-se "De Bach ao padre Borga" e trata da necessidade de estudar a Bíblia nas escolas (não numa perspectiva evangelizadora, mas como um documento importante para a nossa cultura, inclusive literária), dos efeitos do «abandalhamento litúrgico provocado pelo abandono do latim» na Igreja Católica pós-Vaticano II, e de como o divórcio entre a Igreja e a Arte contemporânea levou a que, hoje, tenhamos como sucedâneos das cantatas de Bach as «cançonetas manhosas do padre Borga ou o júbilo arfante de Marcelo Rossi».

De facto, e quanto ao primeiro ponto, é confrangedora a ignorância dos portugueses relativamente a tudo o que diz respeito à religião que a esmagadora maioria deles diz professar, e muito especialmente da Bíblia, que permanece tão desconhecida como nos tempos em que estava em latim (alguns ainda devem pensar que está). Os órgãos de informação também não ajudam: ainda na semana passada o Público publicitava a nova colecção de arte Público/Taschen, concretamente o volume dedicado a Hieronymus Bosch, com um excerto das Tentações de Santo Antão, provavelmente retirado da Lenda Dourada ou hagiografia similar, mas identificado (sem mais detalhes) como proveniente da «Bíblia». Para quem não sabe, Santo Antão foi uma personagem do século IV, enquanto os textos que compõem o Novo Testamento são dos séculos I e II, quanto muito com arranjos do III: nem os mais irredutíveis detractores das "Sagradas Escrituras" lhes atribuem uma origem tão apocrifamente tardia...

No entanto, a inspiração divina entrou em mim, revelando-me como colmatar esta ignorância crónica das coisas da Igreja e, de uma assentada, sanar também os ânimos exaltados pela inclusão do Big Brother nos manuais de Português. Proponho que, para o próximo ano, não se fiquem os alunos pela discussão do regulamento do reality show da TVI, optando antes pela análise comparativa entre esse regulamento e o da eleição papal, previsto no Código do Direito Canónico. Além dos benefícios directos de mais este acto ecuménico, o exercício proposto permitirá o desenvolvimento da perspicácia dos jovens, que se verão aflitos para encontrar uma diferença significativa, conforme nos é dado concluir por um outro artigo do DN: «durante todo o tempo que durar a eleição, os cardeais eleitores "são obrigados a abster-se de correspondência epistolar e de conversas telefónicas ou via rádio com pessoas não devidamente admitidas nos edifícios a eles reservados". Não podem também receber ou enviar mensagens de qualquer género para fora da Cidade do Vaticano, receber imprensa diária e periódica, assim como ouvir rádio ou ver televisão.»

Mutatis mutandis. FG 14/10/2003

A DITADURA DO CADEADO

A Associação Académica da universidade para que trabalho anunciou as medidas de luta previstas para amanhã: encerramento de todos os edifícios (entre as 7 e as 8 da manhã) e da própria quinta onde se situa o campus principal (entre as 10:30 e as 11). O anúncio é encimado por um apelo («Esta luta depende de ti, não faltes!»), mas o já recorrente recurso ao cadeado confirma algo inegável: a falta de confiança na participação dos estudantes nas "suas" próprias lutas. Por isso se opta pela via mais simples: em vez do trabalho de mobilização dos colegas, a compra do cadeado; em vez do esgrimir de argumentos, a razão do cadeado; em vez da força do número, a resistência do cadeado. Com um cadeado e um único manifestante para encerrar uma universidade, o sucesso está garantido. Venha a televisão...

Por falar em televisão, isso traz-me à lembrança a última ocasião em que a universidade foi encerrada, dessa vez devido aos problemas específicos de um determinado curso. Era pela hora do almoço e eu estava num dos restaurantes do campus. A certa altura entra um aluno: «Vamos fechar a Quinta, que vem aí a TVI!» Não foi preciso esperar pela teoria quântica para sabermos que o acto de observar um fenómeno altera o fenómeno em observação — mas algo vai mal quando é a cobertura jornalística de um acontecimento que desencadeia esse mesmo acontecimento, e não o contrário. Por isso o main event que se anuncia para amanhã está marcado para horas maneirinhas — para que aos senhores jornalistas não se lhes obrigue a acordar cedo, coitados, mas ainda assim a tempo de passar no jornal da tarde. FG 13/10/2003

OLHA, UM ITÁLICO!

Caro Rui [Ângelo*] Araújo

Felicito-o pelo seu post sobre o prefácio sem qualidades, mas acho que não se devia meter nisso, até porque o Rui, quase de certeza, tal como o outro, não está na posse das qualidades. Eu próprio sabe Deus o que sofri, a papelada que foi precisa, para entrar na corporação dos poetas e para me aprovarem as qualidades. Só declarações de metáfora foram sete, certificados da junta para atestar que eu era imagético precisei de percorrer várias juntas porque a loja do cidadão não trata disso. Mas devo dizer com todo o orgulho que não recorri à cunha. No fim, um velho funcionário caquético, mas que como poeta é tão jovem que até parece que ainda toca desalmadamente à punheta, o sr. Herberto, quando eu estava a assinar a acta final, disse-me, comovido: «Parabéns rapaz! Mas lembra-te: agora, que entraste para poeta, é para toda a vida!»

Um leitor (que poderia ser identificado como FAG — se para se ter direito a uma sigla não fosse preciso ser habitué aqui do 'Oeste'...) 13/10/2003

* (O "Ângelo" é indispensável para o senhor da RTP, da Grande Reportagem e de outras coisas porreiras não ir aos arames.)

SOBRE "UM PREFÁCIO SEM QUALIDADES"
(onde se alude às citações-fantasma de Eduardo Prado Coelho)

Manuel de Freitas organizou, em 2002, uma antologia de nove poetas. Prefaciou a obra com um texto que, desejando-o o autor ou não, foi lido como um manifesto geral de uma determinada poética. De lá para cá, o prefácio tornou-se um documento incontornável para quem pensa e discute poesia. Apreciado por muitos, despoletou, no entanto, algumas cargas de artilharia pesada por parte de um sector da sociedade poética — aquele mais ligado ao transcendental, a imagética, à metáfora, ao lirismo e a uma quantidade grande de coisas elevadas e importantes de que não vou aqui agora dar conta. O certo é que, daquela ala do palácio, do salão nobre à adega, não houve quem não quisesse lapidar o prólogo de Freitas.

Não vou demorar-me a explicar aos peixes o que tornou incontornável o "prefácio sem qualidades". Não sou teórico da coisa poética. (E além disso escrevo sem autorização do nosso editor de poesia.) Permito-me só assinalar alguns factos e retirar uma conclusão.

Um número respeitável de poetas e críticos resolveu considerar sem qualidade o prefácio de Poetas sem Qualidades. Ora, tal apreciação tem, aparentemente, o seu quê de redundante e desnecessário. Se alguém resolve antologiar autores sem jeito para o verso, merece a apreciação dos que o têm? Que defeitos não foram bem explorados por Freitas que levassem tanto bardo a pronunciar-se? Não era suficientemente honesto o título da antologia? Não se notava a léguas que aquele não era livro para ter em casa de boas famílias? Acresce que o leit-motiv dos detractores do prefácio era uma contradição das grossas: Freitas propunha que a melhor poesia era aquela que não tinha qualidades.

Crime de lesa-majestade, portanto. Depois de séculos a aprimorar o verso, vinha agora alguém dizer que o verso não era para aprimorar. Que a poesia, nos dias de hoje, não era coisa para «ourives de bairro, artesãos tardo-mallarmeanos, culturizadores do poema digestivo, parafraseadores de luxo, limadores das arestas que a vida deveras tem». Horrível: tanta filigrana acumulada, tanta mobília Luís XIV na sala e Manuel de Freitas dizia preferir o despojo etílico da adega e as nuances aromáticas das cavalariças. Locais muito mais de acordo com a vida cá fora. «A um tempo sem qualidades, como aquele que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades», era a enunciação defendida por Freitas.

A atitude esperada perante tal dislate seria um olhar «com um toque de desencantada ironia», como disse mais tarde o entendido Eduardo Prado Coelho. Mas todo o avultado conjunto de poetas e críticos (a que o mesmo Prado Coelho se somou) teve reacção oposta. À ironia preferiu a histeria. Ao desencanto, a raiva surda. Ao invés de passar ao lado do défice de qualidades proposto e continuar a trabalhar o verso, o "avultado conjunto" resolveu, por má estratégia, eleger o antelóquio de Freitas como o documento a discutir nos meses que decorrem.

Claro que isto deixa o aprendiz de poeta com dúvidas. Mas então vamos lá ver: opto pelo transcendental e limo as arestas como V. Ex.as preferem, ou fico à espera até novas ordens? Sim, porque tanta atenção ao "prefácio sem qualidades" só pode significar uma coisa: a exigência de Manuel de Freitas não é de todo despicienda. Não será o facto de "o conjunto" ter em grande consideração a obra poética de Freitas que o leva a demorar-se no proémio da antologia. Há-de haver ali gato. Preto.

Quando passa a fase recorrente de elogiar os versos de Freitas, o "avultado conjunto" vem à carga com a argumentação-tipo. E aqui aproveito para citar, clara e longamente, Prado Coelho (incluindo as suas já memoráveis citações-fantasma) no último Mil Folhas. «[Manuel de Freitas] pretende ter uma atitude normativa numa época em que tais comportamentos geracionais apenas se aceitam com um toque de desencantada ironia. Mas vai também buscar algumas categorias bastantes criticáveis (como em certos casos um vago "desejo de comunicar") em função de uma "poesia da experiência" cuja experiência não é particularmente ampla ou empolgante: "o mero cliché de uma marginalidade de papelão, com as constantes e inevitáveis referências ao álcool, aos bares, etc., ou a simples observação directa do que ocorre no centro comercial, no supermercado ou no café". Daí que estas posições resvalem para uma facilidade medíocre a que falta o que Fernando Pessoa considerava essencial: "uma noção de gravidade e do mistério da Vida".»

Convém esclarecer — já que Eduardo Prado Coelho teve pejo em o fazer — que a citação em itálico (meu) é de Gastão Cruz (Relâmpago n.º 12), um dos mais activos adversários da desqualificação da poesia. Não sei o que pensou Gastão Cruz ao ver o seu hino anti-desqualificação assim usurpado, mas é provável que até se tenha sentido lisonjeado e não tenha levado a mal — tudo a bem da causa.

Eu julguei ter lido no "prefácio sem qualidades" de Manuel de Freitas que a antologia «não pretende retratar nenhum período ou geração». Lembro-me mesmo que o livrinho também não aglutina os poetas antologiados por outra coisa que não «a falta de todas essas qualidades». Ou seja: «O que, de alguma maneira, aproxima estes nomes (e legitimará, porventura, reuni-los num mesmo livro) são, precisamente, as várias "qualidades" que notoriamente não possuem.»

Dou comigo a pensar: por que causa tanto burburinho um prefácio desta natureza? (Infelizmente, Manuel de Freitas não tem dado a mínima réplica ao assunto, o que anula a possibilidade da "polémica alimentada".) Será a maneira "tu cá, tu lá" como Freitas fala de alguns poetas do panteão? Será por ter considerado «habilidade» em vez de "dom" o manejo das "qualidades" da «novíssima poesia portuguesa» (acrescentando, esperançado, que isso, há cem anos, se traduzia «numa inflação de sonetos de que os alfarrabistas padecem ainda»)? Será por ter anunciado que a antologia «não terá segunda edição», criando assim inveja àqueles que não conseguiram um exemplar da primeira? Será porque a antologia não se soube fazer «particularmente ampla» e «empolgante», esquecendo a pós-pós-modernidade da prosa de Prado Coelho e a sua «dilaceração permanente entre estética e anti-estética»? Será porque a Inspecção das Actividades Económicas considera pouco higiénico que nos supermercados e cafés se tenha uma «noção da gravidade e do mistério da Vida»?

Arrisco uma hipótese — algo mirabolante, reconheço. O "prefácio sem qualidades" de Manuel de Freitas é um caso de concorrência desleal. Tira clientela aos mestres do artifício e da grandiloquência, aos craques da metáfora e do transcendental, aos ases do barroco e do rococó. Aos que menosprezam o criticável "desejo de comunicar" (a não ser por encriptação ou sinais de fumo) em favor da complexidade a que obriga «a gravidade e o mistério da Vida». (Ou mesmo em favor de uma "complexidade a la Prado Coelho".) Julgo que o "prefácio sem qualidades", sem licença nem alvará, lembra aos poetas e aos seus leitores o tempo em que vivem. Lembra a todos que é meia-noite — as metáforas velhas transformaram-se já em abóboras. Lembra aos poetas do sapato de cristal que não devem esperar por príncipes encantados. Não os há. RAA 10/10/2003

DA FACTURA À TRANSCENDÊNCIA

Sabemo-lo desde Sartre. E desde sempre. O ser humano revela-se como uma falta de coincidência consigo mesmo. Em resultado desse desajuste, ele é capaz de constituir o mundo dos possíveis. E de transcender o dado (o crescente, por exemplo) em direcção à sua possibilidade (o plenilúnio). Max Wertheimer, fundador do Gestaltismo, sugere-nos uma ideia semelhante num estudo que efectuou sobre as leis da organização perceptiva. Uma dessas leis é a do fechamento: tendemos com frequência a completar as figuras que apresentam lacunas. Perante um círculo incompleto, somos atirados para o círculo inteiro, como para uma inevitável plenitude.

Estas reflexões foram-me suscitadas por uma factura da TMN. Depois de me suprimir o acento do nome — falha que eu perdoo sempre —, ela refere-se aos PRECOS DE SERVICOS BASICOS [sic]. E eu aceito e pago. Afinal, posso transcender o erro ortográfico em direcção a sua emenda. Mais abaixo vêm as COMUNICACOES SERVICO TELEFONICO MOVEL [sic]. Aceito igualmente, ao modo de quem estivesse colocado diante de uma figura com orifícios, a exigir-lhe tão-só que a preenchesse. E ainda existem os DEBITOS/CREDITOS [sic]. E a certeza de que a próxima factura não será diferente. Assim vou cumprindo a minha vocação para a transcendência. JFB 10/10/2003

A DIREITA PAVLOVIANA E O GOVERNADOR SCHWARZENEGGER

Sempre que a esquerda opta por subestimar um candidato republicano porque, em sua opinião, não reúne os predicados certos (ser democrata), a direita não resiste à reacção e resolve superestimar o mesmo candidato. Foi assim que se deu a promoção de George W. Bush a estadista. E é assim que o desajeitado Arnold tem agora vários ilustres indefectíveis. Não porque o homem tenha revelado quaisquer predicados para o cargo — mas tão-só porque isso irrita a esquerda. E, claro, porque sempre será permeável aos Rumsfelds e Wolfowitzs que o rodeiem — o único predicado que, afinal, interessa.

Perante os mais entediados com estas pequenas raivas, a direita não ganha grande coisa fazendo pavlovianamente as suas apostas. Embrenhando-se em lutas de garnisé sobre figuras menores (mesmo que depois as faça maiores), a direita deixa-nos uma mensagem errónea: um governador, um presidente, pode ser um títere — desde que seja republicano.

Prefiro de longe a direita distanciada e irónica à direita impetuosa, que não raro se põe a tapar o sol com a peneira. E a mentir. Mesmo que por boas intenções. RAA 08/10/2003

DAVID BECKHAM E A NOSSA OBSCURIDADE

Há cerca de dez meses, o Diário de Notícias pôs à disposição dos seus leitores um livro intitulado 1000 Anos de Pessoas Famosas. Aos ilustres anteriores ao ano mil também é concedido um pequeno espaço, na abertura de cada capítulo, um espaço proporcional à nossa indulgência. Mas vamos ao que interessa. A capa é, desde logo, surpreendente. Ao lado de figuras incontornáveis, como Albert Einstein, Napoleão Bonaparte, William Shakespeare ou Charlie Chaplin, aparece uma figura ainda mais incontornável: David Beckham. Traduzido do inglês, das Kingfisher Publications, este livro oferece-nos, por conseguinte, «as vidas e conquistas de mais de mil e quinhentas personalidades cuja fama é eterna». (Sendo assim, que dizer de Victoria Adams, a Spice que David desposou? Também a fama da moça é já eterna, como o será indubitavelmente o mediático enlace.)

A partir do dia em que adquiri a obra, não só passei a respeitar Beckham com um sentimento de espessa reverência, como pude concluir que Portugal (se não tivermos em conta quatro navegadores e o Eusébio) é a pátria da obscuridade. No índice onomástico, para lá dos citados, só aparece D. João I, porque teve a sorte de enviar o Infante para o mundo. Mais ninguém. Não haveria ali espaço para um poeta (neste domínio costumamos produzir autênticas ninhadas!), ou para um político, ou para um concorrente do Big Brother? Nothing. Afaguemos, pois, a nossa pequenez como se das penas do galo de Barcelos se tratasse. E voltemos, que se faz tarde, ao egrégio David Beckham.

Noticiava o Público de 4 de Outubro que a biografia do futebolista «foi incluída na lista das leituras obrigatórias de uma escola secundária da localidade de Abersychan, no Sul do País de Gales». A medida visa incentivar os rapazes a lerem mais. As alunas ficar-se-ão pelos clássicos da literatura inglesa. Faço votos para que a obrigação se estenda ao feminino e a todo o mundo civilizado. E espero que nós, os obscuros lusitanos, sejamos céleres nesse processo. Em vez da epopeia do zarolho, a interessante life do grande Beckham... JFB 06/10/2003

P.S. Pessoalmente, confesso que o meu orgulho subiu a um alto lugar desde que fiquei a saber o ano de nascimento de David (que também é o de Victoria). Não é todos os dias que se nasce no mesmo ano...

CRONISTA DE REFERÊNCIA

Já o pensei várias vezes, comentei-o com amigos não poucas, mas agora vou deixá-lo escrito: entre a restrita constelação de cronistas de referência da nossa imprensa há uma estrela em falta. Quer dizer, há um nome que me espanta não ver constantemente citado como um desses nomes de referência, cujas crónicas são absolutamente indispensáveis. Refiro-me a Helena Matos, que escreve aos sábados no Público.

Com muito poucas excepções, os textos da Helena Matos são uma boa razão para nos levantarmos e irmos comprar e jornal — e esse jornal ser o Público. Não raro, nos dias em que o Mil Folhas está mais manco, a meia página de clarividência de Helena Matos é a única coisa que nos faz sentir que não deitámos um euro para o lixo: aquela meia página vale verdadeiramente o jornal e o sábado.

Quase sempre, a Helena Matos escreve aquilo que eu gostava que tivesse sido escrito por mim, pelo que lhe agradeço: lê-la dá quase o mesmo prazer — e muito menos trabalho. FG 04/10/2003

CONTRA-SENSO

Por que é que as raparigas dos calendários Pirelli não têm pneus? FG 04/10/2003

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