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Página de entrada do blogue (últimas) ... É UM ARTISTA PORTUGUÊSDepois do Congresso do CDS/PP, Paulo Portas encaminhou-se à igreja mais próxima para agradecer a reeleição. O repórter da Periférica interceptou-o à entrada: — Concorda com as novas restrições que se anunciam na liturgia católica? — São melhoramentos que há muito faziam falta. Concordo plenamente. Se não fosse proibido, aplaudia. RAA 29/09/2003 A CASA ALHEIAMário Pinto, na edição de hoje do Público: «Como católico, confesso que me sinto frequentemente perplexo com uma certa contradição nas posições tomadas por pessoas, que a si próprias se consideram não religiosas, acerca de questões da Igreja Católica.» E mais à frente: «porque não lhes é lícito opinar em casa alheia.» Não tendo em grande conta as opiniões de Mário Pinto, confesso (também eu) que esperava dele mais do que uma versão "adulta" da infantil réplica «Quem está for a racha lenha!» O assunto, já se adivinha, é a reacção de certos outsiders (em que me incluo) às alterações litúrgicas que se anunciam no seio da Igreja Católica. O que o sr. Mário Pinto não percebe (e descansem, que me vou restringir ao caso em análise) é que não são as questões "litúrgicas" que nos incomodam, mas as que respeitam à dignidade de tratamento de mais de metade da congregação católica, ou seja, as mulheres. Por isso, não estamos perante um problema religioso, teológico ou litúrgico — estamos perante uma questão de dignidade humana. E isso — católicos ou não, homens ou mulheres, nacionais ou estrangeiros — diz respeito a todos. Ou quererá o sr. Mário Pinto insinuar que, na questão do (agora cancelado) apedrejamento de Amina Lawal por ordem de um tribunal islâmico, eu não tinha que "meter o bedelho", porque não sou muçulmano, não sou negro, não sou nigeriano, não sou mulher? Por mim, sempre que vejo uma acção atentatória dos Direitos Humanos, condeno-a. Venha de onde vier. Em especial se emanar de instituições que se dizem animadas pelo Verbo Divino, e que, quanto mais não seja por decoro e em atenção aos deveres de representação de que se arvoram, deveriam ser mais responsáveis. FG 29/09/2003 O RISO DOS DEUSES MENORESPor vezes penso que há deuses a rirem baixinho dos nossos gestos inúteis. É uma reflexão amarga que suavizo logo depois, considerando tal atitude indigna de um deus. Vem isto a (des)propósito dos comportamentos de um fedelho e dos seus pais em certo comboio matinal. Como me visse a tentar ler um livro de História (sobre algumas Revoluções, da Industrial à Francesa), o pequerrucho achou-se no direito de o reivindicar. Com paciência, emprestei-lho, enquanto os pais louvavam interiormente a nobreza do meu gesto. Assim o supunha eu, na minha patológica vaidade. Resultado: depois de abrir várias vezes o compêndio, o cavalheiro resolveu introduzir a lombada na boca, efectuando uma espécie de dentada contra-revolucionária. Respeitosamente, os pais fizeram o livro viajar até às mãos do dono. Apesar desse espírito reaccionário, o pimpolho mostrou-se, de seguida, um indagador nato dos mistérios do mundo, embora a postura seja típica da idade. Pois bem, terminada a mordedela, sem efeitos visíveis, pôs-se a reclamar um recipiente de iogurte líquido que ali viajava também, vazio e abandonado. Transferi-o para as suas mãos. A primeira tarefa a que o bambino se propôs foi abri-lo. Eis a dimensão simbólica da coisa: a viagem, o enigma, a inocência e a sua perda continuada. Perfeito retrato da condição humana. Todavia, o fulano achou preferível que fosse eu a franquear o gargalo. Momento de conformismo, de resignação. Com aparente simpatia, apertei ainda mais a tampa. Na verdade, apenas quis evitar que o garoto esparrinhasse o vestuário com o remanescente líquido. A partir desse instante, e ao longo de meia hora, decorreu o espectáculo. Desesperada, a criatura levava a tampa à boca, batia com o recipiente no banco, atirava-o ao chão, arremessava-o contra os passageiros, guindava-o de novo aos dentes, insistia em incomodar a vizinhança, ofegava, pulava na coxia, molestava o progenitor, não poupava a mãe, até uma velhota apanhou. E os pais? Riam. JFB 26/09/2003 O LUGAR DA MULHER NA IGREJAAinda sobre as novas proibições católicas que se perspectivam, um certo padre Marques Pereira, muito crítico, avança que não se pode querer as mulheres [na Igreja] «apenas para lavar panos». O cardeal Ratzinger y sus muchachos concordam — há também o chão para esfregar, a cera derretida para raspar, o adro para varrer, o... FG 25/09/2003 Ó TEMPO, VOLTA PARA TRÁS...Segundo o Público, entre os padres católicos há «quem pense que o texto sobre interdições no culto não traz nada de novo». Exactamente: traz tudo de velho. FG 25/09/2003 PARA QUANDO UMA BURKA CATÓLICA?Leio no Público de hoje que o Vaticano se prepara para decretar a proibição de 37 actos nefandos que vêm ocorrendo nas missas um pouco por todo o mundo. Acho bem. Para iniquidade já basta as mulheres terem direito de trabalhar fora do sacrossanto lar — não vamos agora extravasar e deixá-las também acercar-se do altar. E não me estou a referir à permissão de o elemento fêmeo oficiar a liturgia (acto tão claramente contra a vontade de Deus-Pai, que proibi-lo é em si mesmo tautológico); não, a proibição refere-se à possibilidade de seres vaginados sequer acolitarem os pios sacerdotes na missa (valha-nos Deus!). Outra das proibições é a de se aplaudir na igreja. Mais uma vez, muito acertado, mas os suspeitos do costume já comentam à boca pequena que, de qualquer forma, a continuar assim não haverá de todo o que aplaudir, pelo que a medida é indiferente. Outra medida meritória: a proibição de toda e qualquer celebração ecuménica que não seja previamente autorizada por quem de direito. Até que enfim que alguém dá um murro na mesa! Sim, porque isto de andar a dizer que no fundo é o mesmo Deus, que somos todos irmãos, patati-patatá, é uma coisa sem pés nem cabeça. Que fiquem todos bem cientes: NÃO HÁ SALVAÇÃO FORA DA IGREJA. E por Igreja, claro, queremos dizer a Católica. A única. A verdadeira. Ponto final. Sejamos claros: somos todos irmãos, mas tão-só na medida em que os outros se cheguem a nós, católicos; ecumenismo é uma palavra cara para dizer que os fiéis das demais religiões e seitas se (re)submetem, finalmente, à autoridade do Papa. Ponto final, de novo. E já agora, parágrafo. (Ei-lo:) Posto isto, o ponto negativo desta iniciativa eclesiástica: a sua falta de coragem. Um homem lê aquilo e fica com aquela sensação de quem gostou, mas quer mais. Um encore que seja. Por mim, proponho desde já uma adenda: que à poluta fêmea, pelo menos na missa, seja imposta uma espécie de burka católica. Em tudo o resto seria igual às originais, mas com uma inovação: uma ranhura horizontal, para a entrada da hóstia. FG 24/09/2003 REI MOMONuno da Câmara Pereira fez-nos hoje saber que ele é que é o Presidente da Jun... hum... o legítimo herdeiro ao trono português. Pessoalmente, não acho bem nem acho mal — ou melhor, acho simultaneamente bem e mal. Bem, porque se há décadas ninguém tem o acto piedoso de lhe dizer que se cale — pois não canta três notas sem desafinar em duas —, também nunca correrá o risco de lhe dizerem que o Rei vai nu. Mal, porque se sete cães a um osso é confrangedor, dois cães a nenhum osso é ridículo. FG 23/09/2003 PORTUGAL AO ESPELHOUm restaurante no campus universitário. Reacção de alguém na mesa ao lado aos resultados das colocações dos candidatos ao Ensino Superior: «Estes resultados não reflectem um país que pensa no seu futuro!» Pois não — reflectem o país que somos. FG 23/09/2003 HUMANIDADE E MARGINALIDADEEm entrevista ao Jornal de Notícias de 20 de Setembro, Luis Sepúlveda, depois de indicar a sua preferência por escrever do ponto de vista dos que considera «mais respeitáveis, os perdedores, os marginais», afirma categoricamente: «A marginalidade transformou-se no último reduto da Humanidade.» Sucede que, em rigor, a marginalidade exprime o reduto inexistente e, por conseguinte, a ausência de formas padronizadas de salvação. No entanto, o escritor clarifica a sua perspectiva sublinhando que «os valores, a decência, a solidariedade, o sentido de justiça, tudo isto se tornou uma visão marginal». Digamos que na marginalidade passaram a caber todas as margens. Mas sempre assim foi. De qualquer maneira, é preferível inverter os termos, e dizer que a humanidade (no sentido de benevolência) se transformou no último reduto da marginalidade. E as águas correm menos receosas... JFB 21/09/2003 EROTISMO ZAPATISTANão me lembro quem foi o/a ensaísta que, um dia, classificou um dos nomes mais importantes das letras mexicanas — Carlos Fuentes — como representante de um certo «erotismo zapatista». Descobri há dias que semelhante associação de termos, à primeira vista estranha, é mais do que acertada — é natural; descobri que «al zapatismo le va bien el sexo y la cultura»1. Eu explico. Passou há algum tempo no programa Onda Curta (RTP 2) um documentário sobre a persistência da memória e do mito de Emiliano Zapata. Pois dá-se o caso de o dito documentário ter sido financiado pela Comisión Nacional de Cultura de México, entidade que por aquelas longitudes dá pelo singular acrónimo de CONACULTA. Quod erat demonstrandum. FG 20/09/2003 1 Não estou a citar ninguém, mas pareceu-me que umas aspas e um pouco de castelhano faziam falta neste ponto... CARTA ABERTA AO SENHOR BILL GATES[ vestir cuecas prateadas e disfarçar a voz de cubano continental ]
[ despir cuecas prateadas e assumir a voz de cubano continental ] FG 17/09/2003 VOO TP–5074É aborrecido constatá-lo, desagradável o sofrê-lo: hoje, no avião, a maioria dos passageiros à minha volta é plebe excitada, barulhenta e já bêbeda. Estou sentado numa fila do meio. Aqui e ali um ou outro como eu encolhe-se intimidado e, talvez também como eu, reza para que o martírio não dure mais que as quase três horas do costume. Na fila à minha frente, junto da janela, uma mulher de trinta e poucos anos e o filho, rapazola de treze ou catorze, hiperactivo, matulão na estatura, imbecil no modo. A mãe fala Português, o rapaz, esse é bilingue, e em gritos bilingues chama o pai e o irmão, sentados na mesma fila, mas no extremo oposto. — Ó pai! Ó Vítor! Víctor!! Víktteeerrr!!! Não sei o que lhes mostra, mas o pai e o irmão riem, acenam com grandes gestos que sim. Ele, de contente, atira-se contra a mãe, aperta-lhe as mamas e volta a gritar: — Ó pai! Ó Víctor! Víkteerr!! Víkteeerrrr!!! Dança na coxia, soqueia a mãe na cara, nos ombros, na barriga. Ela ri, finge que se defende, empurra-o, enquanto da outra ponta o pai e o irmão batem palmas. — Força, Caarrrllos! Força! Agarra-se de novo aos odres maternos, apalpa a hospedeira que vai a passar e quando a rapariga, irritada, franze o sobrolho, escancara ele a boca numa careta alarve. — Ó Víctor! Víkteerrr! Ó pai! Levanta-se, faz um manguito à hospedeira, e ao ver que alguns riem repete o gesto para trás, para diante, para os lados. — Ó pai! Ó Víktter! Olha! Novo manguito urbi et orbi. Em redor há gente que parece sorrir, mas é um arreganhar de dentes involuntário, sintoma de alucinação. Mesmo os bêbedos começam a grunhir e a achar demasiado. Felizmente servem o almoço. O rapaz deixou de gritar, só acena. Acaba de comer, mas quer mais uma coca-cola. E mais uma. Tenta de novo apalpar a hospedeira, mas esta usa o tabuleiro como escudo e, sorridente, discreta, entala-lhe o braço contra o assento. Paz e sossego! Adormeceu encostado à mãe, os dedos encafuados no decote. O mar está calmo no Golfo da Biscaia. Ainda há neve nos Picos de Europa. Passamos sobre León e Trás-os-Montes, sobrevoamos o Porto. O avião vai aterrar, aterrou, a plebe grita vivas e bate palmas. O rapaz acorda em sobressalto, levanta-se, olha em volta, dá ideia de que demora a saber onde está. Finalmente desata num riso louco, põe as mãos em megafone: — Ó pai! Ó Víctor! Ó Víkteeerrr! — e apalpa uma última vez a mãe. JRC 17/09/2003 Mesmo sem lhe mencionar o nome, falar dele aqui causa-me uma espécie de desconforto. Porque é homem bom, atencioso, prestável, e defeitos com certeza terá, mas no trato só se lhe descobre o de comer em quantidades pantagruélicas. O que agora lhe aponto também mal se pode chamar defeito, é antes o desvio de uma qualidade, o desejo que tem de pôr os outros ao corrente daquilo que o interessa. Antigamente fazia-o por carta e, uma ou duas vezes por mês, lá vinham os extensos relatos acompanhados de citações e recortes de jornais. Mas há cerca de um ano descobriu o correio electrónico e, desde então, a sua sede de comunicar passou de mensal a quase diária. Tudo o que lhe agrada, comove, assusta ou preocupa, comunica-o ele de imediato, juntando em anexo artigos e fotografias, em quantidade tal que o computador leva horas a receber tanto megabyte. E torna-se estonteante, porque o seu interesse abrange desde as profecias de Nostradamus à crueldade contra os bichos, da independência de Timor à dosagem exacta da vitamina C, da certeza que o mundo acabará em 2007 aos monges voadores do Tibete. E mais, cansativamente mais. Depois, ou porque quer assim, ou porque desconhece como eliminá-los, as suas mensagens vêm acompanhadas da lista de todos endereços para onde as envia. No tempo em que usava a máquina de escrever, a fotocópia e o correio, suponho que não dirigisse a mais de dois ou três dos seus amigos. Mas o computador e o e-mail abriram-lhe perspectivas inesperadas. Assim, recebida a noite passada, a sua última mensagem, com considerações sobre a pena de morte nos Estados Unidos, a economia do Iraque, os livros de Paulo Coelho, as inundações no Bangladesh e os malefícios da utilização de navios-fábricas na pesca oceânica, conta nada menos de duzentos e dezanove destinatários. Entre eles o presidente Putin (president@kremlin.ru) e um espiritosanto@angola.com. JRC 17/09/2003 AMADORES...A Bolsa de Nova Iorque andou ontem pelo vermelho, muito por culpa das companhias de seguros, penalizadas pela perspectiva de terem de desembolsar milhões de dólares para cobrirem os danos que se prevê sejam provocados pelo furacão "Isabella", que se aproxima da costa leste dos Estados Unidos. Amadores... Tantos anos de experiência no negócio, de congressos internacionais de seguradoras e resseguradoras, de capitalismo selvagem — e os americanos ainda não aprenderam nada com os seus colegas portugueses! Fosse por cá e as cartas de rescisão in extremis dos contratos já estavam a caminho, entrando-nos pela caixa do correio quase tão depressa como a catástrofe nos bate à porta. A esta técnica lusa chamam os helenistas "martírio de Tântalo": a água sobe, o vento sopra — afasta-se o ramo segurador. FG 16/09/2003 OS TRÊS ESTAROLASA primeira flash mob portuguesa saldou-se ontem por... três participantes. Certamente por dificuldades de censo, o Público de hoje não revela os seus nomes. É pena: toda a gente tem direito aos seus quinze minutos de fama, e estes apenas pediam quinze segundos (o tempo que demorou a contar até três, voltar ao primeiro e abandonar o Largo de São Bento, local de concentração da esperada multidão). Quem a sabia toda era a Velha Senhora, que nisto das manifestações espontâneas nunca deixou os seus créditos por mãos alheias, organizando tudo muito bem organizadinho... É que a Velha Senhora conhecia o espírito mobilizador e auto-mobilizador dos portugueses. No fundo, conhecia os portugueses — por isso é que os seus quinze minutos de fama duraram quase meio século. FG 16/09/2003 ALERTA!No Público de hoje: «IEP está a inspeccionar pontes pedonais idênticas à do IC 19». Run for cover! FG 16/09/2003 NÃO À QUALIDADE DE ENSINO!Leio no Público de hoje que a «classificação da Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra, como melhor escola pública em 2002 terá originado a mudança de alguns alunos para outros estabelecimentos alegadamente menos exigentes». Curioso: quando pela primeira vez (em 2001 ou 2002? — não me lembro) foram publicados rankings de escolas, os mais audíveis protestos apontavam não só para a «vergonha» que era dizer que os melhores são melhores e os piores piores são, mas igualmente para o perigo de esse ranking afastar os alunos das escolas menos cotadas, prejudicando-as. Afinal é ao contrário (a inépcia respira fundo): quem perde alunos são as boas escolas (que, as malandras!, são exigentes — et pour cause); quem tem de resguardar-se do opróbrio da comunidade são os Conselhos Executivos das escolas de sucesso... Isto traz-me à lembrança uma manifestação de alunos (não sei de que nível de ensino) em frente ao Ministério da Educação, há alguns anos atrás. Um dos manifestantes empunhava um cartaz onde se podia ler: «NÃO À QUALIDADE DE ENSINO!» Lembro-me que na altura o tal estudante foi unanimemente ridicularizado pelos meios de comunicação social, como o ignorante que tão orgulhosamente demonstrara ser. ... Descubro agora que se fez uma injustiça: o aluno em causa não era um ignorante — bem pelo contrário, sabia exactamente o que queria e tinha a coragem de reclamá-lo. Aquele estudante era um visionário: ainda antes dos rankings, já antevia a perfídia que aí vinha. FG 15/09/2003 CHOQUE E ESPANTOMarcelo Rebelo de Sousa (MRS) ainda não perdeu a capacidade de nos surpreender. Não, não vai atravessar o Canal da Mancha a nado (isso não surpreenderia ninguém — quanto muito prenunciaria uma candidatura ao Parlamento Europeu). O que causou choque e espanto foi o anúncio de que, a partir de Outubro, MRS vai passar a debruçar-se mais longamente sobre três livros na sua rubrica da revista Os Meus Livros. Infelizmente, este anúncio bombástico de MRS tem o seu lado negativo: agora que perdeu o seu mais directo concorrente e assegurou o monopólio do seu nicho de mercado, a Catalogação-na-Publicação está fadada a relaxar e perder qualidade... FG 11/09/2003 APRESENTAÇÃO PÚBLICA DA PERIFÉRICA n.º 6No próximo sábado, dia 13, será apresentado publicamente o n.º 6 da revista Periférica. O evento será na Livraria O Navio de Espelhos (Rua 31 de Janeiro, Aveiro — junto ao Teatro Aveirense). Não sabemos se haverá comes e bebes, mas aqueles de entre nós que acreditam rezam para que sim; os outros, excepcionalmente, esperam que os que acreditam tenham razão. RP 10/09/2003 PERIFÉRICA n.º 6 JÁ À VENDAJá se encontra à venda nos locais habituais (e em mais alguns novos) o n.º 6 da revista Periférica. RP 10/09/2003 AQUI NÃO. OBRIGADO.Há cerca de três meses, deparei com uma escultura em madeira no edifício principal de uma Escola EB2,3/S. Essa escultura, da autoria de uma turma de 7º ano, mas exposta ali com a anuência da Direcção, representava um jovem de olhar mortiço e postura de dissidente, encostado ao tronco de uma árvore e a apontar uma seringa para o braço. Em baixo lia-se esta legenda esclarecedora: Aqui não. Obrigado. (Havia reticências e um ponto de exclamação. Substituo-os pelo ponto final, porque não me recordo da sua colocação exacta.) Qualquer pessoa minimamente atenta é capaz de reconhecer a gravidade daquelas palavras (embora compreenda a bondade da intenção). Dizer Aqui não é, desde logo, criar no inconsciente dos alunos a hipótese da permissividade em todos os locais exteriores ao recinto escolar. Estamos perante uma espécie de legalização irracional (embora regionalizada) do consumo de drogas, e não apenas das mais leves. Se isto é lamentável, o agradecimento não o é menos. Claro que ele expressa educação e uma elevada cortesia institucional. Mas esconde, muito possivelmente, um vazio de autoridade. JFB 10/09/2003 A FESTA DO AVANTE!Quem quiser saber o porquê do estado da agricultura portuguesa só precisa de pensar nela como uma versão macro da Festa do Avante!: é só quintas improdutivas. FG 07/09/2003 ACERCA DAS ÚLTIMAS PALAVRASNuma das suas reflexões insertas no Pensar, Vergílio Ferreira começa por levantar esta questão: «Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte?» E evoca a seguir o tudo está bem de Kant, o mais luz de Goethe, o amanhã o que virá de Pessoa e o levem daqui as mulheres de Herculano. Sejamos claros: a possibilidade de, à hora da morte, soltar uma bela frase é privilégio de poucos, exigindo a especial conjugação de alguns factores: leito fofo, cérebro atento, minuto inspirado. Todavia, se a morte é violenta, a frase que a precede espelhará essa brutalidade: um pedido de socorro, uma blasfémia ou, simplesmente, um grito inaudível. Escreve o autor do Pensar que «à hora da morte devia-se era estar calado». Correcto. Desde que se expire no meio da tranquilidade e não debaixo de um atentado como os de 11 de Setembro. Vem isto a propósito de uma recente notícia do Público relativa às últimas palavras das vítimas dos atentados às torres gémeas. Foram essas palavras que a Port Authority de Nova Iorque decidiu divulgar, em «duas mil páginas de transcrições de comunicações por telefone e rádio entre pessoas dentro ou junto ao World Trade Center [...]». É certo que não morreram todas as pessoas cujas conversas ficaram registadas. Mas o que chama a atenção para aquelas palavras é, sobretudo, a certeza de que a morte se seguiu a muitas delas. Assim se desperta a curiosidade mórbida. E essa curiosidade é também uma forma de distracção, fazendo da morte um ingrediente do espectáculo e convertendo-a num acontecimento vazio e irrelevante. Todavia, para lá do aspecto imediato, é possível surpreender uma finalidade esotérica subjacente a este interesse doentio. Afinal, a última frase é como que uma súmula de todas as que ao longo da vida se disseram e daquelas que ficaram por dizer. Conhecer as palavras que outrem proferiu na hora extrema ajuda-nos a preparar as que diremos. Talvez elas nos redimam. Talvez imortalizem a nossa trágica despedida. Talvez nos revistam de maior dignidade antes de entrarmos no silêncio definitivo. Mas tudo isto é demasiado poético. E, com raras excepções, a morte é excessivamente prosaica. JFB 06/09/2003 PROFECIAS DE MONT(R)AÚltimos dias... Liquidação total... E um homem intui esta evidência perturbadora: o fim do mundo não tarda. Última baixa... Uf! Afinal era só o fim da guerra! JFB 04/09/2003 UMA QUESTÃO DE DIMINUTIVODirige-se um fulano ao restaurante e, invariavelmente, encontra o Diminutivo à sua espera. Uma sopinha? Tripinhas? Vai uma sobremesazinha? [sic] Cafezinho? Quão carinhoso é o Real às vezes! Mesmo que só para ampliar uma continha. Com diminutivo, mas sem diminutivo. JFB 04/09/2003 BELEZA E ESPÍRITONo jornal Público de 30 de Agosto, Helena Matos disserta copiosamente sobre a beleza dos homens e das mulheres. A beleza interior e a que ao exterior pertence. O sufismo legou-nos um provérbio que, a meu ver, resume na perfeição as ideias da articulista: «A beleza do homem está no seu espírito e o espírito da mulher está na sua beleza.» Palavra de místico. Por isso (concluo), enquanto o homem corre sempre o risco de não encontrar em si a beleza que julga ter, a mulher sente-se constantemente em vias de perder a que tem. Confuso? Um pouco. Discutível? Como tudo. JFB 04/09/2003 PERIFÉRICA n.º 6: EDIÇÃO ONLINE JÁ DISPONÍVELJá se encontra disponível a edição online do n.º 6 da revista Periférica. Como sempre, a versão electrónica é apenas uma amostra do que se pode encontrar na edição em papel, que estará à venda nos locais habituais a partir do próximo dia 8 de Setembro. Esta sexta edição tem um preço de capa de 3,00 euros, a primeira actualização após ano e meio de publicação. No entanto, o custo da assinatura anual (4 números) mantém-se: 10 euros para Portugal, 15 euros para o resto da Europa e 20 euros para o resto do Mundo. RP 31/08/2003 MINUETENa sala as luzes permanecem acesas. Deitado no palco um homem ressona, enquanto outro começa um discurso. Uma rapariga dá passadas incertas, pensa, suspira, hesita, finalmente tira a cuequinha, abre a braguilha do dorminhoco, puxa-lhe a coisa, monta-o, copula com ele a sério, longamente, até ao orgasmo. Entram em cena mais personagens que, aos saltos, se vão dando pontapés e bofetadas. Nada de fingimentos ou stunts de filme, mas no duro. Partem-se copos, atiram-se vasos, racham-se cadeiras nas costas deste, noutro corpo aparece sangue de verdade. Vêem-se mais cópulas. Continuam os pontapés, os socos acertam no alvo, esgadunham-se caras, puxam-se cabelos, corpos rebolam, machucam-se as partes deste, os seios daquela. Lá para trás apercebem-se os vaivéns da sodomia, só que a confusão e o borborinho mal deixam distinguir. Alguns dos personagens vão pelas coxias, aproximam-se dos espectadores, olham-nos em silêncio, regressam ao palco, retomam a pancadaria e o fornicar. Desculpem a expressão, mas já agora!... Ao longo de duas horas fodeu-se ali com entusiasmo, e o mesmo valeu para a porrada. Houve sangue e suor, lágrimas nenhumas. No final o público desvairou no aplauso. Foi a première de um bailado moderno umas semanas atrás, no Stadschouw-burg, a sala de teatro mais prestigiosa de Amsterdam. Oiça lá, o que é que estava a imaginar? O título é Blush, e por isso mesmo as luzes ficam acesas, para ver se o público cora. No dia seguinte o coreógrafo revelou nos jornais a intenção profunda da sua obra: obrigar-nos a aceitar a realidade das nossas miseráveis vidas e admitir que a violência está presente em tudo. Pensa você, por acaso, bater na namorada, na mulher? Na sogra? Talvez na mãe? Violar a vizinha? Tem a menina vontade de capar o gajo ou quebrar-lhe uma garrafa na cabeça? Prepara-se você para arrear as calças e sodomizar a cara-metade? Não o façam à bruta, que isso é feio e passé. Sejam cultos. Comecem por um entrechat. JRC 28/08/2003 PERIFÉRICA n.º 6Para que os milhões de leitores da Periférica não morram de ansiedade, avisamos desde já que o n.º 6 da revista está neste momento em fase de impressão. No início de Setembro estará à venda nos locais habituais. Os mais impacientes podem ir familiarizando-se com a capa (aqui ao lado). RP 27/08/2003 LIVRO ENIGMÁTICOUma hora depois de concluir a redacção do post abaixo, comprei um exemplar do livro de Paul Sloane e Des MacHale. (Novos Enigmas de Pensamento Lateral é o título.) Terminava na página 100. Mas não tinha 100 páginas. Como pode ser isto? Pista para a resposta: à página 64 seguia-se a 85. Coisas do Diabo que só Deus entende. JFB 27/08/2003 ENIGMAS DOSEADOSEntre os vários tipos de enigmas, existem aqueles cuja solução se encontra logo ao virar da página. Reminiscências da Esfinge, sem sombras de ameaça. São enigmas assim, retirados de um livro de Paul Sloane e Des MacHale, que, desde algum tempo a esta parte, o jornal Público tem colocado à disposição do seus leitores. Acompanhado de um desenho e de algumas pistas para a resposta, cada enigma é um apelo dirigido à intuição, à persistência e ao exercício lógico, revelando-se um desafio mais estimulante que a resolução das tradicionais palavras cruzadas. Para o leitor, seria certamente preferível adquirir o livro e, como se estivesse diante de um jogo cósmico, resolver em poucos dias a totalidade dos problemas. Contudo, receber enigmas a granel desencoraja o espírito. E é nesse pressuposto que a estratégia do Público se baseia. A cada dia o seu mistério. Logo pela manhã, o cidadão anónimo compra o jornal, recolhe uma panorâmica do mundo e tenta resolver o enigma proposto. Se não acerta na solução, procura justificar-se com a insuficiência dos dados ou a sua falta de nitidez. Se acerta, obtém uma satisfação psicológica de notável ressonância metafísica. Afinal, solucionar pequenos enigmas é uma forma de tornar progressivamente mais claro o grande mistério do Universo — ou, talvez, um mecanismo de defesa contra a impossibilidade angustiante de o esclarecer. JFB 27/08/2003 O FIM DA HISTÓRIA?A notícia caiu como uma bomba. Que não explodiu. Que não acertou no crânio de ninguém. O Acontece morreu. Sabemos que a televisão, na sua força ontológica, estabelece os critérios que permitem distinguir o ser e o nada. O que não aparece no ecrã conserva o estatuto de mera hipótese. Como tal, convém inquirirmos se ainda há acontecimento depois do Acontece, ou se, com a extinção do magazine, a História chegou ao seu termo e a Eternidade é agora o nosso ninho. Teremos alcançado a palavra suprema, a redentora expressão? Deus nos livre de semelhante vaidade! O Quinto Império ainda vem longe... O que se aproxima, sim, como um gafanhoto a saltar um troço de terreno queimado, é a literária rentrée. E eu pergunto, com manifesta impaciência: quem, extinto o Acontece, terá autoridade suficiente para nos indicar o que devemos ler ou fruir, separando o trigo do joio? Sê paciente, coração! Já sofreste coisas piores. Além disso, para o Acontece não havia joio... JFB 25/08/2003 AS TRÊS FIGURASHá tempos, no meio de uma sessão teatral de nível superior, um autarca exclamava, em tom baixinho e recriminatório: «As pessoas deste concelho gostam de coisas mais fáceis.» Pois é. A nossa realidade cultural é composta por três figuras: o mestre, o discípulo e o anti-mestre. O primeiro procura ensinar; o segundo deseja aprender; o terceiro boicota. JFB 22/08/2003 UMA OBSCURA FORÇA DEMONÍACADe um modo geral, não presto grande atenção aos apelos publicitários. Todavia, quando se fazem acompanhar de requebradas vozes, chegam a provocar-me um aborrecimento de proporções letais. Talvez esta postura acabe por abrir as portas do inconsciente, tornando-me bem mais influenciável do que suponho ou desejo. Creio, no entanto, que a publicidade não exerce apenas a subversão psicológica. É animada também por uma obscura força demoníaca. Eu explico. Quando, num belo sábado do passado mês Julho, comprei o jornal Público, recebi um saco de plástico onde o dito vinha generosamente inserido. Até aqui tudo bem. Retirado o jornal, pus-me a ler os títulos. A revista Xis aguardava, paciente, dentro do saco. Ao trazê-la para a luz, reparei que se apresentava estranhamente humedecida, ostentando na capa algumas pregas viscosas. Que nojo! Alguém vomitara ali, por certo. Não. A origem da peçonha fora apenas a amostra de certo gel de limpeza caseira, cujo conteúdo em parte se esvaíra. Na publicidade, a obscura força demoníaca actua quando é preciso acordar os desatentos. Neste caso, ainda por cima, obrigou-me a ler as palavras escritas no exterior do saco e levou-me à redacção deste memorando. Melhor sorte não teve a revista Xis: caixote do lixo. JFB 22/08/2003 LUXEMBURNEDSegundo informação amplamente divulgada há alguns dias, neste Verão já ardeu em Portugal uma área equivalente à do Luxemburgo. Até ao fim da época estival, o total da área ardida será certamente bem superior (alguns especialistas dizem que já o é). Na posse dessa informação, venho por este meio propor um negócio ao Grão-Duque do Luxemburgo: uma troca de terrenos. Nós cedemos-lhe a nossa terra queimada (não se deixe enganar pela expressão: além de mais vasta do que o seu feudo, algumas das parcelas que oferecemos estão muito bem localizadas, em parques naturais e outras zonas benquistas!) e recebemos em troca esse rincão sem mar e que até já está cheio de portugueses (pelo que se poupa na incómoda troca de populações). FG 18/08/2003 P.S. Reparo agora que a metade norte do seu país integra a floresta das Ardenas; quando a tivermos queimado também (dê-nos um anito; dois, se a coisa se arrastar), poderemos desfazer a troca. TEOREMA DE BOLZANO (corolário)Em resposta aos protestos da Quercus por causa do abate de árvores (danos colaterais do túnel das Amoreiras), a Câmara Municipal de Lisboa garante que «não serão abatidas quaisquer espécies de árvores importantes». Tal como a Quercus, não sei o que se entende por «árvores [não] importantes», mas ocorre-me aquela velha ressalva de que «não são árvores centenárias». Infelizmente, parece que no presente caso até há dessas árvores no rol de abate, mas abstractamente analisemos esse "argumento" recorrente: tudo bem, que as árvores tenham vinte, trinta ou cinquenta anos — mas as árvores centenárias (logo, «importantes») só chegaram a centenárias porque não as cortaram quando tinham vinte, trinta ou cinquenta anos. FG 18/08/2003 INTERMEZZOSomos bons, mas não tão bons como isso: é-nos difícil fazer duas coisas ao mesmo tempo. Assim, numa altura em que reunimos as hostes em volta do número 6 da Periférica, votaremos temporariamente o blogue ao abandono: nos próximos dias não haverá novos posts no A Oeste Nada de Novo (nem mesmo do nosso José Ferreira Borges...). RP 27/07/2003 MATANÇADizem os entendidos que, ao findar o ano, terão andado para cima de 620 milhões de turistas às voltas e reviravoltas no planeta. Imensa legião que, confusa e de boca aberta, danifica, desgasta, destrói e, de volta a casa, precisa de fotografias e vídeos para vagamente se dar conta do que viu e por onde andou. Em voga estão as férias com a finalidade de contactar as raízes, eufemismo de que a indústria e as autoridades se assenhorearam para incentivar outros modos de visita e vivências supostamente genuínas e diferentes. Umas vezes incluem-se aí usos e costumes, noutras inventa-se um romantismo histórico ou pregam-se aos pagantes os benefícios do regresso ao primitivismo do passado. Nas versões mais destrambelhadas vestem-nos com peles de animais, como na pré-história, ou põem-nos de tanga, a fingir de índios. Em França, no intuito de familiarizar os citadinos com as coisas boas da antiga vida do campo, as agências de viagem propõem agora «a tradicional matança do porco.» E eu pergunto-me que razões, fora o simplismo ou uma doentia curiosidade, levarão um vizinho meu aqui em Amsterdam, ou o morador dum quinto andar em Paris, Oslo, Basileia, a abrir a carteira para participar no acto. Raízes que o puxem lá, provavelmente não tem. Que compra então? A ilusão de que, assistindo, compreende o que a matança significava para os que a faziam por necessidade? Não me parece. Aquilo só pode ser espectáculo, e forçosamente mau, separado anos-luz da reverência que, na minha meninice, rodeava o sacrifício do animal que garantiria parte do sustento da família o ano inteiro. A facada era certeira e dada por homem capaz, para que o sofrimento fosse breve. Do ventre tirava-se-lhe a bexiga, que depois de a secar ao sol seria a bola do nosso futebol. Na cozinha alinhavam-se os alguidares com a carne em vinha d'alhos. Enchiam-se as chouriças e os paios que, enfiados em varas, ficariam semanas inteiras a defumar alto sobre a lareira. Junto deles os presuntos. O toucinho enterrava-se na salmoura. O unto derretido arrefecia em potes de barro. Metade do lombo levava-se de presente aos vizinhos, que mais tarde retribuiriam. E à hora da refeição, que era solene, de mesa grande e em pratos comuns, o mais velho rezava as graças e dava a bênção. «Ámen!» respondiam os presentes. «Pelo sinal, da santa cruz, livre-nos Deus, ...» o burburinho da persignação logo abafado pelo matraquear dos garfos e o tilintar dos copos. A conversa viria depois de saciada a fome, os homens em redor da lareira, as mulheres de volta à louça e aos arrumos. Era entre Novembro e Dezembro, quando o frio apertava.
Bem tolo quem perder a pechincha. JRC 27/07/2003 A NAVALHA DE OCCAM (IV)O post anterior só não foi o último desta série porque era preciso mais um. Para quê? Para coisa nenhuma. Ou, melhor, para dizer que aceito uma navalha capaz de anular todas estas estéreis navalhadas. Justo. O apimbalhamento prossegue. Escrever é uma actividade inútil. Mea culpa... JFB 25/07/2003 A NAVALHA DE OCCAM (III)Este post adianta a possibilidade de um equilíbrio. Imaginemos que os autores das letras punham de lado a fatigada pena e recomendavam os sonetos de Antero de Quental para substitutos líricos das preciosidades que todos conhecemos. Ainda que a música se mantivesse, não deixaria de ser agradável ouvir, por exemplo, Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo, ó i ó ai, Tronco ou ramo na incógnita floresta..., ó i ó ai, Onda, espumei, quebrando-me na aresta, ó i ó ai, Do granito, antiquíssimo inimigo... Tudo isto, é claro, entre ritmos primários e espalhafatosos. Oh, ilusão! A Antero o que de Antero é. A Emanuel o que a Emanuel pertence. À excelência o recato. Ao vazio o espalhafato. Como sempre, recaio neste amargo cepticismo. E, quando sou forçado à audição daquelas atrocidades, suspiro apenas: Navalhinha de Occam, where are you? JFB 25/07/2003 A NAVALHA DE OCCAM (II)Por sensata advertência, deixei o post anterior incompleto. É que, afinal, a expressão vazios redundantes é, também ela, redundante. O vazio é aquilo que, em rigor, ainda que seja multiplicado, se mantém sempre igual a si mesmo. Impossível diversificar o vazio. Então que vazio é este a que me refiro, que já teve direito a caracterizar uma Era? É uma espécie de derrocada tácita do platonismo: o bem, a beleza e a verdade são reduzidos a sombras que são sombras de outras sombras... E (supremo paradoxo) no interior de tais sombras os herdeiros de Adão sentem-se profundamente iluminados, recusando qualquer sugestão que transporte maior dignidade intelectual ou artística. Acontece que uma inspecção atenta das letras da música pimba permite reduzi-las a esta quadra, a reter: Já não sei viver sem ti. / Já não sei viver, não, não. / Só te quero ter aqui, / Bem juntinho ao coração. No resto apenas existem variações pontuais. Cabe à navalha de Occam suprimir esse resto, não só por se mostrar repetitivo, como por ofender uma sensibilidade estética minimamente exigente. Por cruel desgraça, a navalha de Occam tem-se mantido, a este nível, muito discreta, ou, se preferirmos, completamente romba. JFB 25/07/2003 A NAVALHA DE OCCAM (I)Nesta sazão de festas, romarias e necessidade de dar nos ouvidos, sou frequentemente visitado pelos sons magníficos da música de estatuto pimba. Nem tudo é mau quando se ouve o ingrediente essencial da quermesse. A posteriori surge-nos a oportunidade de reflectirmos sobre o fenómeno. Pelo que me diz respeito, é em plena fruição deste produto nacional e transmissível que me surgem algumas das minhas mais felizes reflexões. Por exemplo, se me detenho a esmiuçar as letras deste cancioneiro inestimável, sobe-me sempre à lembrança, no intervalo de dois suspiros, a navalha de Occam. Como?! Não, não se trata de uma navalha de ponta e mola; apresenta, no entanto, algumas afinidades com a de barbear. Comecemos pelo mais complicado: Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem. Traduzido para português, este princípio diz-nos que não devem multiplicar-se, ou aumentar-se, as entidades mais do que o necessário. Ferrater Mora, de cujo Diccionario de Filosofía retiro estas ideias, escreve que durante muito tempo aquela fórmula foi atribuída a Guilherme de Occam (c. 1298 – c. 1349). Daí que alguns autores tenham chamado à regra que ela expressa a navalha [de barbear] de Occam (Occam's razor), se bem que nos textos do cavalheiro se encontrem apenas fórmulas similares. Ora, estamos perante um princípio de economia: importa optar sempre pela explicação mais simples. Nada de realidades inúteis. Nada de conceitos supérfluos. Para a minha disciplina mental, decidi alargar a aplicação desta navalha (mantendo a lâmina afiada): mais do que evitar (e suprimir) realidades escusadas, urge impedir (e eliminar) vazios redundantes — as letras da música pimba, por exemplo... JFB 25/07/2003 NOMADISMO LITERÁRIOSob o título Grandes Bebedores, Paulo Anunciação escreve, na revista Pública de 20 de Julho, sobre Jack Kerouac, verdadeiro ícone da chamada Geração Beat. A certa altura, o articulista cita um lamento de Jack ao seu último editor: «Já escrevi sobre todas as coisas que alguma vez me aconteceram.» A afirmação condensa a angústia de quem, tendo tomado a sua vida por tema privilegiado da escrita literária, considera que esgotou esse tema por completo. Todavia, ninguém escreve exactamente sobre aquilo que lhe aconteceu, mas sobre as situações que assumem, em relação à totalidade da sua existência, uma dimensão mais ou menos simbólica. E entrar no terreno do símbolo é entregar-se a uma cadeia de elos intermináveis. A experiência não é a liquidação do sonho: é a abertura ao campo do possível. Afinal, os escritores não são (para usar o título de uma notícia do Público, datada do mesmo dia, sobre uma comunidade de etnia cigana que vive de esmolas, obtidas junto aos semáforos), não são nómadas parados no sinal vermelho: são nómadas a avançarem para as significações que sobraram de cada vivência — ou se esconderam atrás de cada bloqueio. JFB 22/07/2003 (RE)LEITURA E INOCÊNCIANa revista Pública de 20 de Julho, Maria João Freitas, escrevendo sobre uma curiosa iniciativa de certa editora italiana, cita a dado passo uma afirmação de Italo Calvino que refere que «os clássicos são os livros de que se costuma ouvir dizer: "Estou a reler" e nunca, "Estou a ler"». Compreendo. Voltaremos sempre aos clássicos. Se já tivermos passado por eles, obviamente. Para apreciar essas e outras releituras, recomendo a crónica de João Pereira Coutinho na revista Os Meus Livros de Outubro de 2002. Não irei acrescentar nada ao assunto. Apenas me ocorre dizer: nenhum cânone livresco substitui o sentido individual da procura. E esta procura, lendo ou relendo, é sempre sinónimo de compromisso com o desassossego. Os bons livros não amansam as almas: inquietam-nas. E até a prosa medíocre pode, nalguns casos, desempenhar esse papel, enquanto não vier outra mais elevada que a substitua. Além disso, não é de esperar da literatura uma receita para a reintegração cósmica. Conheci em tempos um homem que nunca lera o Paraíso Perdido (eu também nunca o li). Certa manhã entra numa livraria, e lembra-se de adquirir o famoso poema. Atende-o uma beldade. Sem delongas, o cliente dispara: «Ando à procura do Paraíso Perdido.» As faces da jovem ruborizam-se. Embaraço de mulher inteligente. Diante de um homem e das suas buscas. Ela percebe que, tal como o livro, é incapaz de lhe devolver a inocência... JFB 22/07/2003 FILOSOFIA DAS PONTASLeio, todas as semanas, os fascículos da Filosofia de Ponta, de que O Independente se faz acompanhar. Dado que desconhecia o essencial desta obra de BD de Júlio Pinto e Nuno Saraiva, serei regrado nas minhas apreciações, para atenuar o efeito do lugar-comum. Cada uma das histórias parece-me realizar uma dupla transfiguração, mediante a qual se efectua um encontro feliz. O que é ali objecto de transfiguração? A filosofia e a sexualidade. Em que sentido? No sentido em que se evita, para ambos os casos, dar primazia à negatividade e ao desejo. A filosofia é imanente às personagens, não exigindo a ascese da procura; a sexualidade é uma ocorrência natural que parece querer furtar-se ao desejo que a impulsiona. Mediante este processo de dupla transfiguração, o encontro da filosofia e do sexo é feito sem grandes tensões, mas também sem quaisquer cedências que ponham em causa a especificidade de cada um destes universos. Tal processo conduz, de igual modo, a um humor redundante que, todavia, não é enfadonho, porque submete as situações vulgares à pluralidade das perspectivas filosóficas. Atena e Afrodite. A vitória será de quem? De ambas. E, sobretudo, de quem vir nelas duas pontas da mesma linha: converte-se a linha em círculo, e a fusão é absoluta. JFB 21/07/2003 |
Autores dos textos:Fernando Gouveia [www] |
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