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O blogue da Periférica

Página de entrada do blogue (últimas)

REGIONALIZAÇÃO

Pedro Mexia escreve hoje no Independente sobre a estultícia da regionalização. Concordo com o artigo. Excepto quando Mexia diz que a regionalização «é uma excrescência sem base na vontade dos portugueses».

A regionalização é intensamente, com frémitos de paixão, desejada pelos portugueses. Os portugueses são tribais, localistas, bairristas. À maioria dos portugueses não lhes importa um chavo que o território nacional seja retalhado, porque à maioria dos portugueses não lhes importa o mal dos vizinhos. A única coisa que trava a divisão do país em quintais, em pátios murados, é a dependência do Estado. Os portugueses só não são regionalistas quando alguém lhes diz que podem ficar entregues a si próprios. Que o «poder para a minha rua» pode significar um corte com a mama do Estado que eles odeiam. Pode significar mais deveres, mais esforços pessoais, necessidade de maior produtividade da tribo. Pode significar pensar pela própria cabeça. Enfim, pode significar um monte de coisas chatas que só o Estado sabe e pode fazer. «Portanto, é melhor deixar as coisas como estão que cá a gente não quer chatices.» Foi este o pensamento dominante no referendo sobre a regionalizaçã RAA 18/07/2003

PELA REABILITAÇÃO DO SUICÍDIO II

A pedido de amigos, o meu suicídio não será concretizado: não publicarei os meus poemas. RAA 18/07/2003

VANITAS

Não há, neste país, intelectual que se preze que não esteja disposto a confidenciar ao vasto orbe a sua precocidade livresca: a Bíblia devorada aos cinco anos, enquanto o Anjo sacudia as asas e o Diabo esfregava o umbigo; aos seis, Platão, numa caverna, às ocultas; As Mil e Uma Noites aos sete, de ponta a ponta, não fosse o rei enfurecer-se; aos oito, Shakespeare, no original, pois claro (ler ou não ler — eis a questão). E, escusado será dizê-lo, sempre o incontornável Proust — à cabeceira, enquanto se aguardava a mamã e o seu beijinho de boas-noites.

Só num país com baixos índices de leitura é que todas estas vaidades se justificam. Inocentes, assépticas. E também se perdoam. E facilmente se esquecem. JFB 16/07/2003

PELA REABILITAÇÃO DO SUICÍDIO

A descoberta dos anti-depressivos, ansiolíticos e drogas afins acabou com o romantismo fatalista da literatura — reduziu drasticamente a quantidade de suicídios e internamentos em hospícios. É mais difícil que hoje nos apareçam Camilos, Anteros e Sá-Carneiros, com os seus passamentos para-literários.

Por outro lado, a democratização do acesso àqueles químicos aumentou desesperantemente a quantidade de tralha nas prateleiras das livrarias.

Proponho uma campanha de reabilitação do suicídio como forma de expressão artística. Talvez dê eu o exemplo. RAA 15/07/2003

EQUÍVOCO DE UM UTENTE DO IP4

Um homem circula no IP4. A setenta e sete. Tranquilo. O limite de velocidade é de 90 km/h. Encantado. Esta criatura detesta grandes corridas. Pura opção existencial. Julga-se, aliás, no seu direito. E no seu dever também.

Ao fim de uma semana, todavia, percebe que se equivocou. Não foi com certeza por acaso que muitos condutores, sobretudo impacientes camionistas, dardejaram sobre ele tantos sinais de luzes. «Desvia-te da frente, ó grande lesma!»

Elementar. Afinal, 90 km/h não é, no IP4, a velocidade máxima tolerada: é a velocidade mínima exigida. JFB 15/07/2003

FALAR MAL

Por diversas portas entrou-nos a notícia de que a Periférica estava correr o risco de ser conhecida como «A revista que fala mal de todos». Claro que o slogan é intencionalmente redutor e muita gente o sabe, mas preferimo-lo àquele outro que diria «A revista de sucesso que todos bajula».

O poder de encaixe é coisa rara no métier literário e jornalístico nacional. Não é preciso habitar em Lisboa para perceber isso. Os rodriguinhos, as zangas, as palmas públicas e a privada maledicência atravessam ares e serranias. Escritores e editores usam endireitar-se muito e levantar o queixo às nuvens sempre que um leitor ousa depreciar a obra-prima que em conjunto publicaram. (Como alguém se pode atrever?) Não raro, há represálias, ou vontade delas. Cochichos que esclarecem. Silêncios eloquentes.

Tudo isto nos é contado. Off the record, claro.

Durante anos habituámo-nos a ler que há falta de debate em Portugal, que a crítica é ténue, reina o consenso dos pântanos, a paz podre. Mas, pelos vistos, they were just kidding. Era falta de inspiração para a crónica. Pose para a câmara. Perfilavam-se para a eternidade. Porque, sempre que estala a polémica, alguém se dirige à mesa a pedir tempo para defesa da honra ofendida. Tudo é tido como pessoal. A crítica é um ataque directo. A discordância é uma falta de delicadeza. É ressentimento. Vontade de dar nas vistas.

O provincianismo, meus amigos, nunca abandonou a capital. RAA 14/07/2003

A CHAVE

Em entrevista à Indígena de 11 de Julho, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez diz a dado passo que não está sempre a pensar na escrita, «que pode ser muito neurótica devido ao problema de vampirizar a realidade». Neurose? Admito. Mas vampirizar é explorar, sugar; por conseguinte, extrair. Extrair de um corpo uma substância objectiva. A literatura não é uma actividade de extracção: é um esforço de apaziguamento. A escrita não vampiriza o real: escolhe as suas faces, tomando, provavelmente, como critério a determinação daquele ponto do espírito, a que se refere André Breton, em que os contrários deixam de ser apreendidos como tal. Para isso, é precisa a chave de que nos fala o poeta Carlos Drummond de Andrade:

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Mas o encontro dessa chave pressupõe exactamente a contemplação das palavras. Círculo inevitável. Chave provisória. Ainda que se procure sempre a definitiva. Aquela que seria capaz de abrir todas as portas, reconciliando as diferenças e pondo a nu a sua deslumbrante inutilidade. JFB 14/07/2003

COINCIDÊNCIAS

Hoje conversava com o meu amigo José Ferreira Borges sobre a eventualidade de o célebre "Pipi" ser João Pereira Coutinho. Ambos admiradores da prosa do JPC, conhecemos-lhe algumas particularidades, entendemos-lhe o estilo. A hipótese pareceu-nos plausível, mas não era de todo lisonjeira para Pereira Coutinho. Ao contrário da louvaminheira que para aí anda, não somos propriamente fãs daquele fenómeno escatológico.

De repente, entrou-me pela caixa de correio dentro um e-mail dum tal "Adivinhador". Poucas palavras. Dizia só: «Pipi é JPC».

Depois do "Pipi", temos o "Adivinhador". À escatologia sucede-se o boato. Que aqui damos continuidade, evidentemente. RAA 10/07/2003

UMA QUESTÃO DE RELEVÂNCIA

As notícias são como os seios: desejam tornar-se relevantes. Algumas conseguem alcançar esse objectivo. Surge esta consideração a propósito de um curto relato de há um século que o Diário de Notícias repôs na segunda página da edição de 8 de Julho. Ficamos a saber que naquele tempo um gato foi atropelado por um carro numa rua de Lisboa. O guarda que ali se achava em serviço, «em vez de proceder contra o cocheiro, limitou-se a deitar o pobre animal [habitado pela dor inteira de um perna partida] num carro de mão da limpeza da cidade». A pedido de um protector da bicharada, que na ocasião ia passando, o guarda, relutante, condescendeu em mandar retirar o bichano da carroça, de onde o malogrado se pôs em fuga. Talvez não corresse muito, com a patinha em tal estado. Adiante!

Importa sublinhar que estamos em face de uma notícia relevante que nasce da conjugação de, pelo menos, três aspectos irrelevantes: o atropelamento do gato (ocorrência vulgar, embora à data o fosse menos do que hoje, porquanto nos habituámos à carnificina do asfalto, onde cães e gatos se demoram dias, expostos à inclemência do sol); o arremesso do bicho para a carroça do entulho; o facto de o arremessador ser guarda (portanto, virtualmente impoluto). Note-se, também, que o Diário, ao consagrar uma pequena coluna, logo ao virar da primeira página, a uma notícia relevante, converte essas linhas num espaço de igual relevância. É um oportunismo legítimo e saudável.

Finalmente, ao apropriar-me da substância relevante que outorga relevo a essa página, eu aspiro unicamente a que estas palavras se tornem, também elas, relevantes. Confesso, todavia, com a modéstia de um bisonho plumitivo: nada disto é relevante. Apenas deseja sê-lo. Como as notícias. Como os seios. Como tudo. JFB 10/07/2003

A CENSURA CONCEPTUAL

No jornal Público, de 07/07/03, Pedro Ribeiro (PR) escreve um artigo no qual se refere a um livro editado nos Estados Unidos «sobre as práticas de autocensura na edição de manuais escolares e de exames» (PR). Diane Ravitch, a autora deste livro, intitulado The Language Police, «conta como as pressões de grupos radicais, à esquerda e à direita, intimidaram as autoridades escolares e as editoras a retirar qualquer passagem dos textos que possa ser vista como "ofensiva"» (PR). Além disso, a autora cita vários exemplos, mais ou menos hilariantes, neste processo recriminatório de temáticas controversas e perturbadoras para os cérebros da miudagem. Na coluna à direita do artigo, surge-nos uma lista curiosa de temas a evitar, livros banidos e palavras proibidas. É sobre esta proibição que tenciono ocupar-me agora.

Entre tais palavras encontram-se Deus e Diabo, expulsas em virtude de poderem ser discriminatórias para os não cristãos. Não me compete a mim discutir o alcance da argumentação usada, nem sequer a pertinência teológica desta repulsa. Afinal, Deus já morreu há vários anos e o Diabo, em boa verdade, nunca chegou a nascer. O mal maior reside na limitação linguística, com a qual se pretende criar uma sociedade asséptica e inofensiva.

Ora, acontece que o desenvolvimento intelectual é inseparável da aquisição de vocabulário. Pensamento e linguagem são duas faces da mesma moeda. A censura clássica, de natureza política, moral ou religiosa, mutilava a liberdade de pensamento. O caso presente reflecte um tipo de censura mais refinado, uma espécie de ramo autónomo a querer mostrar os seus duvidosos frutos. Esta censura de palavras e de conceitos só não mutila a liberdade de pensamento porque nem sequer permite as condições que a fazem emergir. Levada ao extremo, ela reduz o ser humano ao completo silêncio. Se quisermos ser coerentes, quaisquer palavras (e respectivos conceitos) são potencialmente ofensivas e discriminatórias. O seu efeito dependerá do tom de quem as diz ou escreve e do universo de quem as ouve ou lê. É assunto de que a Pragmática se ocupa.

Censurar conceitos não é apenas abrir caminho à imbecilidade. É também lançar as bases de um mundo que muita gente vai tendo por ideal: um mundo onde ser acéfalo constitui a mais alta das virtudes. JFB 08/07/2003

O PRODUTO DIVINIZADO

Receio que a minha ignorância em assuntos de marketing me leve a ser redundante no que a seguir vou dizer. Com esta justificação, avanço mais tranquilo. Há um programa na RTP1, O Preço Certo Em Euros, que moldou os miolos da turba às dimensões da nova moeda. Como segundo benefício, tem levado uma indiscutível felicidade às criaturas que arrecadam a inefável montra de entulho. Esta conversa preambular serve apenas para ludíbrio dos idiotas.

O essencial, para mim, é que o programa em causa (que só visualizei uma vez na íntegra), numa lógica perversa e consumista, me ajudou a descobrir duas características do produto: por um lado, a insensibilidade (pelo menos na aparência); por outro, a capacidade etérea para desencadear a discórdia.

O primeiro aspecto é evidente. Enquanto a menina decorativa, com sazonada perícia, faz deslizar os seus dedinhos sensuais pelas zonas erógenas do produto, nota-se da parte deste uma clara indiferença. Em vez do feed-back de animal excitado, ele mostra, de preferência, o desdém de um eremita. Ou estará, antes, a acumular energia, para mais efusivamente se entregar a quem o adquirir? A questão fica em aberto. Importa, contudo, sublinhar que não nos achamos perante um caso de misoginia. Nunca vi aquele ser esquivar-se, aterrorizado, ao pressentir a lânguida carícia.

Analisemos o segundo tópico. Entre aplausos, sorrisos, beijinhos, triunfos, decepções e duas vozes masculinas de um optimismo arrepiante, o produto revela-se não só o centro do desejo, como também um núcleo divino, capaz de transformar a plateia numa versão pós-moderna da arruaça. Nunca supus que o preço de um electrodoméstico fosse tão hábil em gerar tamanha algazarra. Felizmente, tudo acaba num aplauso festivo, como se o objecto passasse de esfinge silenciosa a deus ex machina.

Confesso que, diante deste espectáculo, a minha simpatia vai também toda para o produto. Não por apreciar o seu valor estético ou utilitário, mas por vê-lo manter a decência e a serenidade, enquanto a chusma e o timoneiro se entregam aos seus delírios apoteóticos. JFB 08/07/2003

PUMA E O LIMBO

Na revista Pública, de 6 de Julho, um interessante artigo de Maria João Freitas (MJF) dá-nos a conhecer a campanha da marca Puma, concebida por uma agência de publicidade norte-americana. Através de uma série de ilustrações, «a Puma salta de novo para as revistas, deixando para trás a imagem de marca desportiva de segunda linha e assumindo-se como ícone da moda» (MJF). A leitura deste artigo fez-me recordar o primeiro círculo do Inferno dantesco — o Limbo (com o respectivo castelo) —, onde o autor d' A Divina Comédia mergulhou os pagãos virtuosos.

Na verdade, todavia, existem mais diferenças do que semelhanças entre o universo das personagens das ilustrações e o dos habitantes do célebre castelo. Enquanto estes são pessoas «de grande autoridade nos semblantes» (Dante), talvez nascida da experiência e da reflexão, aquelas vivem «vidas irreais, que mudam ao virar da página» (MJF), uma vez que «não acreditam na importância das coisas e não têm crenças firmes» (MJF). Por outro lado, enquanto os pagãos do Limbo mostram um olhar lento e grave, em sintonia com um relativo imobilismo do cenário, as referidas criaturas «vivem tão depressa que perderam a magia da espera» (MJF), num ritmo em que «velocidade rima com incomunicabilidade» (MJF).

A articulista coloca esta pergunta: «Mas o que os faz correr?» E responde dizendo que talvez nem eles saibam. Contudo, avança a hipótese de desejarem o regresso ao ponto de partida para, por fim, descansarem. Mesmo que assim seja, esse ponto funcionará tão-só como o recomeço do ciclo do efémero, não como esfera de redenção. E é nesta ausência de resgate (correlativa da escassez de palavras) que tais personagens coincidem com os habitantes do Limbo. Estes não podem ser redimidos, por sofrerem a rigidez de um lugar sem esperança, onde «há qualquer coisa de um penoso museu de figuras de cera» (J. L. Borges). Aquelas também o não podem ser, porque os seus corpos ambulantes vivem debaixo da omnipotência de Puma. Assemelhando-se a uma cortina de sombra, a marca veda-lhes o acesso a qualquer outro tipo de horizonte. JFB 07/07/2003

QUE TRATAMENTO?

Título de notícia (no Público de hoje) sobre o programa de recuperação de "arrumadores" toxicodependentes do Porto: «Utentes do "Porto Feliz" embriagam-se antes e depois do tratamento» FG 05/07/2003

O VAZIO DISSOLVENTE

Após a leitura de um ensaio dedicado às filosofias da existência, optei (a fim de gozar o contraste) por me afundar num breviário da inautenticidade. Propus-me ler na íntegra uma revista cor-de-rosa. Há, no entanto, certos prazeres cuja fruição a dignidade intelectual restringe. Com efeito, a partir da página cinco decidi ler apenas as legendas, os títulos e os destaques, sem obviamente poupar os olhos à inspecção das radiantes fotos.

Terminada a apaixonante viagem, revi mentalmente o conteúdo, e achei a vivenda, a receita, o escândalo real, a citação inane, o contratempo no amor, a prosperidade no troco, a doença... Neste passo detive-me. Afinal, nem tudo eram rosas e fanicos do coração, como eu a priori supusera. Abri de novo a revista e notei que lá pelo meio surgiam espinhos universais: a moléstia incontornável, o drama psicológico, a prisão humilhante.

Mas o show hedónico deveria prosseguir, triunfante. E vinham logo depois a barriguinha inchada, as fraldas e os biberões, os passarinhos soltos, os desejos de maternidade, os amplos sorrisos, os pronunciados decotes, as fartas cabeleiras, as festas inesquecíveis, os passeios de sonho, o pai babado, o príncipe divertido, a princesa marota, o namorado da manequim, o sucesso do cantor, o coração latejante, ad nauseam.

Desta excelente súmula retirei uma atroz conclusão: o mundo frívolo do espectáculo não é moldado só por dúbios sorrisos. Também a negatividade lhe é familiar. Porém, em vez de a integrar em si, num esforço dialéctico, este mundo neutraliza-a com doçura, legitimando desse modo o seu poder tentacular e dissolvente. Afinal, o melhor modo de suprimir uma realidade é misturá-la com as investidas luminosas do vazio. JFB 04/07/2003

A VIDA NÃO SE APRENDE NOS LIVROS

Nutro uma profunda desconfiança pelos livros ditos "de auto-ajuda", embora tenha de confessar que nunca li nenhum (daí a desconfiança e não a certeza). Chamem-lhe preconceito da minha parte — eu chamo-lhe perspicácia e presteza de julgamento: basta-me olhar os títulos (coisas como Sim, podes ser feliz) e os nomes dos autores (nas capas da paradigmática Pergaminho afirmam-se quase todos "Ph.D.") para saber que a coisa é pouco séria. Para além de um óptimo negócio, são pouco mais do que uma cor-de-rosização da Psicologia ou um branqueamento intelectual — light — de correntes gnósticas e esotéricas, uma forma de pseudo-ciência.

Vem isto a propósito da publicidade a uma nova colecção do Público (colecção "XIS livros para pensar"). Ocupando quase a página inteira, um cartaz em que uma mulher na casa dos trinta, de expressão indefinida mas serena, anuncia:

PROCURO-ME

QUAISQUER INFORMAÇÕES SOBRE
QUEM SOU E PARA ONDE VOU,
É FAVOR CONTACTAR A PRÓPRIA.

Não tenho a certeza de ser esta mais uma colecção de livro de auto-ajuda. O tom da publicidade parece indicar que assim seja, mas alguns títulos e autores deixam-me na dúvida. Talvez seja uma colecção nas fronteiras do género. Não sei. Seja como for, no mínimo a colecção XIS aspira a cativar o público que lê livros de auto-ajuda.

Reparo agora que ainda não expus a minha principal objecção a este tipo de livros (a lamechice dos títulos e a piroseira dos alardeados títulos académicos são apenas a cereja no cimo do bolo). Pois bem, por princípio, desconfio dos livros que dão respostas. Em especial quando são enlatadas — como têm de ser as que vêm num livro destinado a milhares ou mesmo milhões de leitores diferentes. Um livro deve levantar questões. Respostas, só mesmo a que figura no título do segundo livro da colecção XIS: A Vida não se Aprende nos Livros. Nem mesmo nos livros que nos dizem isso mesmo. FG 03/07/2003

A LUTA ENTRE O BEM E O MAL (em exibição num concelho perto de si)

Poucas vezes a irracionalidade popular (nas suas vertentes colectiva e pessoal) chega a níveis tão elevados como quando se trata de criar ou não criar um novo concelho. Isso é particularmente claro no que toca às alegrias e tristezas resultantes da decisão dos políticos: não há lugar para um simples «Estou feliz», um comedidamente esperançoso «Agora vai ser melhor» ou um pragmático «Já não terei de fazer 30 km para ir à Câmara». Não, aqui não há lugar a meios-termos: dependendo de que lado se está na barricada, a criação (ou não) de um novo concelho é a coisa mais próxima que temos de uma manifestação do anticristo, do Quinto Império ou da libertação do Povo Eleito do vil jugo do Gentio (não fosse a música nestas alturas outra, e quase que se conseguiria ouvir o Va Pensiero no Largo de São Bento...).

Veja-se, por exemplo, a recente decisão de elevar Canas de Senhorim a concelho (em detrimento de Nelas): na imprensa escrita e televisionada houve lugar a baba e ranho. O presidente do agora menor concelho de Nelas era categórico. «O país estava de tanga, agora está em pelota.» Logo, a culpa da recessão não é do anterior Governo PS, da política económica da Ministra Manuela Ferreira Leite ou da conjuntura internacional (ao contrário do que, por ignorância ou ignomínia, insinua hoje o Governador do Banco de Portugal): a culpa é do «atentado» que foi a criação do concelho de Canas de Senhorim. Na recém-autonomizada freguesia o sentimento é bem diferente, mas não nos extremos que assume: «Acabou o nosso suplício», dizia um canense. «Chegou o nosso 25 de Abril», reforçava outro. Suplício? 25 de Abril? Quase conseguimos ouvir, vindos da cave dos Paços do Concelho, os gritos dos bravos resistentes de Canas sujeitos à «brutalidade do presidente de Nelas» e dos seus algozes. Comove-nos o som dos blindados libertadores que avançam pela madrugada: «Acabou a ditadura que nos atrofiava.» Realmente, nesta luta entre o Bem e o Mal ninguém pode ficar indiferente — há que tomar partido.

Sintomático desta irracionalidade é, também, o diálogo entre uma defraudada habitante de Samora Correia (que não é desta que volta a ser concelho) e um repórter da TVI. Com o rigor que a memória me permite, transcrevo-o a seguir:

— A senhora ainda tem esperança de que Samora venha a ser concelho?

— Sim, senhor, tenho a certeza! Tenho 73 anos de vida e sei que ainda vou ver Samora ser de novo concelho, como foi ainda no meu tempo!

— Ó senhora, acho que ainda não era viva em 1836...

— Não era eu, mas eram o meu pai e a minha mãe!...

Como em todo o combate épico contra as forças ctónicas, também aqui o tempo é o do mito. FG 02/07/2003

FÉRIAS

Uma pequena chamada de primeira página no Jornal de Notícias de hoje informa-nos que a cantora Ágata gostava de passar um dia de férias com um ET...

... Já o ET, questionado pela nossa Redacção, declinou o convite implícito: que já passa todo o ano na companhia de outros ETs — nas férias gosta de variar. FG 02/07/2003

FOLCLORE

Na capa do Público de hoje uma fotografia de um rancho folclórico. Não há manifestação popular que não os inclua. Na minha paróquia existem vários, claro. Recentemente houve até um refinamento do fenómeno etnológico inaugurado e incentivado pelo Estado Novo. No dia do concelho, há um desfile alegórico das freguesias perante uma tribuna constituída pelos notáveis da terra. Algures na fila da frente há-de estar o fantasma de Américo Thomaz. Talvez reencarnado em Sua Excelência o "inspirado" presidente da Câmara. Nos restantes dias festivos, somos acordados cedo por um gangue de bombos, sem qualquer noção de ritmo, que passa o dia a circular pelas ruas da terra e afugentar qualquer ouvido sensível num raio de centenas de metros.

Enquanto momento gregário, de partilha e divertimento, compreendo o folclore. É uma possibilidade de "desbunda" para populações solitárias e com a imaginação limitada, com o sentimento de tribo ainda muito presente. Mas que, por todo o país, ainda se tome como acontecimento artístico as confrangedoras coreografias e hediondas tentativas musicais, devia ser motivo de estudo. Antropológico.

Na maior parte dos países que mantêm o folclore como cartaz turístico, a coisa profissionalizou-se, tomou-se cuidado com as músicas escolhidas, seleccionaram-se com critérios mais exigentes as secções musicais. A sofisticação estética passou mesmo pelos corpos e rostos a exibir nas rodas e nos viras.

Não se trata de eugenia ou deturpação dos costumes — trata-se, sim, de inteligência. Se o objectivo é mostrar alguma coisa para seduzir (turistas ou quem quer que seja), por que raio de razão se há-de ir ao sótão buscar os cadáveres desajeitados dos avós quando temos netas e netos mais bem formados para o efeito? Se o objectivo é cativar clientela, por que carga de água se há-de insistir em cançonetas infelizes e horrendos instrumentistas?

Só vejo uma explicação. Portugal não quer seduzir ou cativar como um país moderno, civilizado, que mostra eficazmente, com bom gosto, alguma da sua tradição e alguns dos seus ancestrais costumes. Portugal quer ser visitado pelo "exótico", quer que os estrangeiros venham cá como os exploradores iam a África — pasmados com os selvagens. As terreolas portuguesas querem ser visitadas por gente que as olha entre o enojado e o fascinado pelos costumes bárbaros. O país, do Minho ao Algarve, quer ser olhado como naco de terra terceiro-mundista que é.

Mas, meus amigos, mesmo nesse (ou sobretudo nesse) campeonato perdemos por larguíssimos pontos. Não há tribo em África ou bairro na América Latina que aceitasse os "bailarinos" dos ranchos portugueses. E os agrupamentos musicais que acompanham a folcloretolice nacional eram todos corridos a pontapés. Isto porque ali já não há azagaias nem canibalismo. RAA 02/07/2003

QUAL QUINTO IMPÉRIO, QUAL QUÊ!

Cartaz de um manifestante de Canas de Senhorim (hoje no Público):

AGORA QUE SOMOS
CONCELHO!
VAMOS NOVAMENTE
RECONSTRUIR
O IMPÉRIO PERDIDO.»

FG 02/07/2003

Comentário a «CRÓNICAS AFÁVEIS»

O post anterior suscitou o seguinte comentário do leitor Pedro Peixoto:

Mal sonharia Pedro Rolo Duarte (PRD) que o seu texto "Impressões Digitais", de 14 de Junho, iria dar pano para mangas, em termos de crítica, polémica e diz-que-disse. Também eu, assíduo leitor do DNA e bem impressionado leitor da Periférica, jamais pensaria em ver citado o meu nome neste tipo de "intriga de comadres", desculpem-me a expressão, desencadeado por um artigo do dito PRD. De facto, fiquei deveras surpreendido ao ler no blogue da Periférica um post de Fernando Gouveia (FG), que utiliza um texto meu publicado no último DNA para, inconscientemente (espero eu) ou talvez não, alimentar a pseudo-polémica com PRD.

Assim sendo, penso ter o direito e o dever cívico de responder a FG, reclamando para este texto o mesmo tipo de destaque de que dispôs o seu. Diz FG que uma crónica cáustica é bem vinda desde que devidamente sustentada e que no meu texto dou uma conotação negativa ao termo cáustico. Pois bem, na minha humilde opinião devo dizer que, ao referir-me ao texto de PRD como cáustico, apenas pretendi discordar do tom agressivo e sem fundamento com que o articulista atacou a Periférica. Convenhamos que equiparar a Periférica ao pior do que se faz em Portugal é, porventura, mais do que cáustico: mais do que queimar, com esta insinuação, PRD parece desejar a morte da Periférica! Que pensará disto FG?

Quanto ao segundo aproveitamento, FG insinua que pretendi apelar às crónicas afáveis de PRD, como se tais crónicas fossem carinhosas, do género imprensa cor-de-rosa. Pois bem, informo de que apenas usei o termo afável como sinónimo de boa educação. De facto, penso que muitos dos cronistas de Portugal têm vindo a abusar do género "escárnio e maldizer", para se colocarem em bicos de pés e deste modo atacarem, a fim de serem atacados e, assim, falados. No meu texto publicado no DNA, apelo às crónicas pertinentes, imparciais e afáveis, no sentido de interessantes, independentes e moderadas na educação e no trato.

Caro FG, espero tê-lo elucidado e renovo os meus sinceros parabéns pelo trabalho realizado pela equipa da Periférica. Sem remorsos... Pedro Peixoto 30/06/2003

«CRÓNICAS AFÁVEIS»

Ainda no rescaldo da polémica Pedro Rolo Duarte vs. Periférica, o DNA de dia 28 publica uma carta do leitor Pedro Peixoto. Entre manifestações de apreço e de alguma discordância com a nossa linha editorial, o que fica de mais importante é a rejeição da maneira como o director do DNA atacou a Periférica, «como se esta fosse uma "arma de destruição em massa".» Até aqui tudo bem — agradeço pessoalmente o apreço, a discordância e o apoio. Mas, relativamente às duas últimas frases, não posso deixar de rejeitar, pelo menos em parte, o comentário e o apelo do leitor da Covilhã.

Diz Pedro Peixoto que não estava à espera de uma crónica «cáustica e deselegante» como aquela contra a nossa revista. Assino por baixo no que toca à classificação de «deselegante», mas o mesmo não se passa com o adjectivo «cáustica». Com esse discordo — quanto à sua aplicabilidade ao presente caso e, também, quanto à conotação negativa que Pedro Peixoto lhe dá. Comecemos por esta última. Que mal tem uma crónica ser cáustica? Desde que devidamente sustentadas, a ironia ou mesmo a sátira e a corrosão são bons condimentos num texto de opinião. Nós praticamo-las — estamos dispostos a ser alvos delas. Não vem daí mal ao mundo, muito pelo contrário. Mas, ainda que não querendo ser axiomático, diria que deselegância e causticidade são atributos mutuamente exclusivos. E é isso que se passa com a «Impressão Digital» de há duas semanas: se há coisa que a crónica de Pedro Rolo Duarte não é, é cáustica. Por um fenómeno que a Química não explica, o texto de «O pior de Portugal», apesar de básico, tem um pH que o aproxima mais do vinagre do que da soda cáustica — é um texto azedo, de uma azia gástrica, resultante de uma má digestão de críticas prévias.

Discordo ainda do apelo ao regresso, por parte do director do DNA, às crónicas «afáveis». Uma crónica (que, no caso das «Impressões Digitais», é quase um editorial — logo, um texto de opinião e posicionamento) não tem de ser afável. Da imprensa séria querem-se ideias sérias e sustentação séria dessas ideias. Querem-se argumentos de facto. Quer-se acutilância, mas com pertinência. Estas, sim, devem andar de mãos dadas, não os cronistas uns com os outros — sob pena de a imprensa se tornar pouco mais do que um episódio dos Teletubbies, com muitos beijos e abraços, muito carinho e canções de roda. Ninguém quer isso da imprensa séria. FG 29/06/2003

A OESTE DO QUÊ?

Porque apreciávamos o fenómeno bloguístico e porque, a bem dizer, a periodicidade da Periférica devia ser menos espaçada, resolvemos há tempos criar um blogue. Aí (aqui) faríamos os nossos comentários inadiáveis, aqueles que não podiam esperar pela edição impressa, trimestral.

A coisa devia ter um nome, claro. Achando que toda a gente lia a Periférica e perceberia a ligação, não demorámos a chamar ao nosso blogue «Oeste Online». Uma aberração, já se vê. Vemos agora.

Quem realmente for leitor da Periférica terá percebido que «Oeste Online» é um petit nom da versão electrónica da nossa secção «A Oeste Nada de Novo». Todos os outros devem ter achado que éramos escassos de imaginação e ignorantes de geografia. É que a revista tem origem no nordeste nacional e «Oeste Online», por si só, não quer dizer absolutamente nada.

Chegou a altura de darmos a mão à palmatória e corrigirmos a estultícia. O nosso blogue, o blogue da revista Periférica, passa, doravante, a chamar-se «A Oeste Nada de Novo». Queiram, por favor, actualizar os links das vossas páginas para a nossa. Obrigado. RP 28/06/2003

O DESPEITO

Após a publicação do texto sobre Miguel Esteves Cardoso no último número da Periférica, recebi alguns e-mails referindo que teria escrito o texto por estar "despeitado". O Grande Mestre não se dignara receber-nos e, vai daí, pancada no homem. Claro que quem assim acusa não percebe nada de nada do que se escreve na Periférica. Não percebe que a nossa linha editorial é um pouco mais sofisticada do que isso (passe a imodéstia). Como não percebe a ironia, a provocação, o humor. Meus amigos: tiram-nos estas três coisinhas e tiram-nos (quase) tudo. Acusem-nos de falhar literariamente, mas concedam-nos a sofisticação. Uma vida sem ironia, provocação e humor não é uma vida — é um drama. Leiam as coisas com minúcia, senão o drama é vosso, ó enfadonhos! RAA 28/06/2003

PONTO FINAL

Pedro Rolo Duarte pôs hoje um ponto final na sua polémica com a blogosfera. Acho bem. (Mas achei melhor ainda a «Escrita Automática» de José Mário Silva.)

Sobre o "ponto final" não resisto a referir aquele que um director de jornal cá da paróquia utilizou para pôr fim a um contenda entre mim e o próprio. Houve uma troca de artigos, um debate. Cansado ou sem argumentos, o dito director encheu a coluna do seu editorial com "blás blás" sucessivos (um predecessor de José Luís Peixoto, portanto) e terminou em grande. Literalmente. Anunciou, depois dos "blás": «Ponto final!». E cumpriu. Um enorme ponto final (para aí corpo 500) encerrava o editorial. Graficamente, a coisa estava um mimo, acreditem. RAA 28/06/2003

BATER NO SANTO

Não me parece ajustado desenvolver ou explicar no blogue artigos escritos na Periférica. Aquilo que escrevemos na revista tem um timing diferente da escrita bloguista — mesmo quando escrito com pressa idêntica, igualmente rabiscado em cima do joelho. Os artigos da Periférica são (deveriam ser) escritos para ter um tempo de digestão mais alongado do que os posts do nosso «A Oeste Nada de Novo» online.

Por exemplo, a polémica recente com o DNA podia ser lida à luz dum artigo que escrevi para o número 2 da Periférica, de Agosto do ano passado. Não acredito que as «Impressões Digitais» de Pedro Rolo Duarte tivessem ficado a incubar este tempo todo, mas noto que a maioria das críticas que depois foram feitas na blogosfera ao suplemento do Diário de Notícias foram ao encontro do que estava implícito no meu artigo. Aponto isto sem orgulho e com alguma tristeza pelo DNA. Como alguém notou num qualquer blogue, na altura o meu texto transportava tanto de afecto como de ironia. Pena que se revelasse diagnóstico correcto.

Na última edição escrevi sobre Miguel Esteves Cardoso. Igualmente com afecto, igualmente com ironia. Não deveria aqui acrescentar uma palavra sobre o assunto. Pelo menos tão cedo. Mas as recentes intervenções de Esteves Cardoso na blogosfera e um post de Pedro Mexia que li agora impelem-me a algumas reflexões.

(É este um dos malefícios dos blogues. A possibilidade de publicar sem edição, sem que haja tempo para o exercício duma autocrítica a priori. A autocrítica a posteriori nem sempre resolve os prejuízos das precipitações. Um risco que se aceita correr. Ou não. Outro dos malefícios dos blogues é a possibilidade de nos estarmos a meter em assuntos alheios. Mas creio que Miguel Esteves Cardoso é já quase património nacional. Pelo menos a julgar por alguns dos seus indefectíveis. E isso ameniza as coisas.)

Em toda a polémica que envolveu o fim d' A Coluna Infame estive do lado de Pedro Mexia e de Pedro Lomba. Não que me dissesse especial respeito o caso, mas fiz-lhes a defesa mais ou menos explicitamente. Percebi que as coisas se precipitaram vertiginosamente com um texto de Miguel Esteves Cardoso publicado no Pastilhas.

Por ser brilhante e disso ter feito prova abundantemente, Miguel Esteves Cardoso tem uma forte influência em alguma imprensa, em alguma opinião pública, em algumas (muitas) cabeças particulares. Há uma legião de seguidores de MEC. Mas enquanto alguns se limitam a reconhecer-lhe o enorme valor e a lamentar algum recente apagamento da chama, outros agem como se de uma guarda avançada se tratasse. Ofuscados pelo seu brilho, são mais papistas do que o papa Miguel. E agem em consonância. Podem não o ver existir fisicamente, mexer ou pestanejar (ou escrever, sequer) — mas isso não importa, porque eles têm-no como um ídolo de peso inquestionável, um novo buda.

Recentemente, Miguel Esteves Cardoso parece querer dar razão aos discípulos. Por duas vezes num curto espaço de tempo, ditou a máxima: «A plateia não existe. E muito menos o segundo balcão.» Cada um interpretará como quiser, mas parece-me perceber aqui uma vontade de mostrar uma existência transcendental. Imagine-se o quanto isto, assim entendido, não alimentará a ânsia canonizadora dos seguidores.

As explicações que Miguel Esteves Cardoso antepõe ao gran finale — como lhe chama Pedro Mexia — da sua última «pastilha» têm lógica; são bons ensinamentos («não se escreva para agradar a quem lê»); revelam e exigem carácter («Escrever é uma coisa da alma, que vem de onde nascemos, que acontece porque não se consegue suster. Por muito feio e impopular que seja»). Mas não consigo deixar de ligar esta coisa de não existir a plateia a uma passagem de A Cidade e as Serras, quando na obra de Eça se alude ao moralismo tardio de um Salomão outrora bon vivant.

A verdade é que alguma da prosa de Miguel Esteves Cardoso vive do lirismo e não resiste a boa argumentação. MEC é um prosador impecável — mas deixa que a poesia iluda o assunto. Poucos se lhe igualam no estilo — mas ele permite demasiadas vezes que o estilo exceda o conteúdo. Pior: permite-se aludir ao limbo aonde ascendeu e onde as palavras têm um valor que supera tudo o resto, mesmo que tudo o resto também seja descritível com palavras. Outras.

E as hordas de seguidores de um MEC contemplativo não se cansam de lhe cantar hossanas sem nunca se interrogarem da verdade contida nos salmos. Sem se perguntarem se o génio em ascese consegue descruzar as pernas e os braços quando deseja interromper a meditação transcendental. Como vamos lendo, por vezes não consegue. O que faz dele (da sua prosa) pouco mais do que uma estátua. Com utilidade proporcional. A quem pode interessar um (texto de) MEC inerte como um Santo António de barro?

E por que resolvi, de novo, bater no santo? Porque só se bate em quem se ama? Os indefectíveis, estou certo, hão-de outra vez dizer-me porquê. Mas antes podiam pôr lado a lado os dois textos que Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre os blogues. Aquele que publicou no DNA e aquele que agora publicou no Pastilhas. Talvez, por milagre que fosse, percebessem como os génios também são incoerentes. Mesmo que depois lhe perdoassem. A um génio tudo se perdoa, não é? RAA 27/06/2003

PARA DAR RAZÃO A PEDRO ROLO DUARTE

Porque hoje estou optimista, defendo que haverá uns milhares de portugueses capazes de suportar colunistas inteligentes, humorados, com estilo e imaginação. Aguardo contactos de jornais ou revistas para «Os Canhões de Navarone». Até pode ser o DNA. RAA 27/06/2003

A IMPORTÂNCIA DO «PÚBLICO ASSEGURADO»

Há um estigma sobre o leitor português. As lutas pelas audiências televisivas e a consequente tabloidização da informação recensearam (ou formataram) o cidadão-médio nacional. O campo electromagnético que resulta da soma de tais imbecis (os cidadãos-médios nacionais) influencia subtilmente o fotograma que é feito dos poucos milhares que escaparam à caracterização maioritária.

Os jornais de referência, que vendem tão pouco, têm, então, «dificuldade em encontrar e aceitar alguém não consagrado que não tenha o seu público assegurado» (José Manuel Fernandes; destaque meu).

Numa perspectiva pessimista da sociedade portuguesa, dir-se-ia legítima a preocupação sugerida por JMF. Arriscar a meter colunistas inteligentes, humorados, com estilo e imaginação — logo, sem público assegurado — pode trazer dificuldades acrescidas à circulação do jornal. Mas, por outro lado, após anos de tentativa de alfabetização das massas com bons modos, um qualquer director podia acordar uma manhã bem disposto e dizer: «Porra, isto não dá mais de oitenta mil». E a seguir contratava um qualquer escriba da blogosfera. O que, de certa maneira, daria razão ao Fernando Gouveia — ou provava que a tiragem do jornal estava muito inflacionada. E o título encerrava. Com justiça, diga-se. RAA 27/06/2003

A OPINIÃO NOS JORNAIS

Nunca concordei com a crítica recorrente que diz haver demasiado espaço de opinião nos jornais. (Pelo contrário: há jornais que compro sobretudo pela opinião.) Mas tenho de conceder que muita da opinião que se publica nos jornais não interessa nem para embrulhar peixe. Quando não é desinformada e irrelevante, é cinzenta, sem rasgo, incapaz de levar o leitor transeunte a chocar com um poste.

Ou capaz de levar um leitor info-incluído a desejar cruzar-se com um post... RAA 27/06/2003

JORNAIS EMPEDERNIDOS

No artigo sobre a blogosfera publicado na Visão, parece-me sobretudo interessante a confissão de José Manuel Fernandes, director do Público. Diz o homem que a escrita na imprensa está «um pouco empedernida. O sistema anda um bocado fechado ao aparecimento de pessoas com imaginação e ritmos de escrita diferentes. Temos dificuldade em encontrar e aceitar alguém não consagrado que não tenha o seu público assegurado». Numa palavra: os jornais, onde o Público se inclui, estão conservadores, no pior sentido do termo. Misoneístas. Já me tinha dado conta. RAA 27/06/2003

LISBOA TAMBÉM NÃO

A edição do Porto do Público de hoje inclui o Infometro, boletim informativo propriedade da Empresa Metro do Porto, S. A. Na última página, como sempre, mostram-nos «O Metro no Mundo»: desta vez é sobre o MetroSur, metropolitano da periferia sul de Madrid. A certa altura lê-se:

Note-se que mais de metade dos habitantes da capital espanhola têm uma estação de Metro a menos de 600 metros da sua porta e mais de 80 por cento a têm a menos de 900 metros.

Está tudo dito. FG 27/06/2003

TRAPOS & LETRAS: O EXERCÍCIO DA VAIDADE

Era para não voltar a este assunto, até porque já foi aflorado pelo RAA uns posts atrás, mas o artigo sobre os blogues na edição desta semana da Visão tornou-me inevitável a revisitação. Nele, o sociólogo José Bragança de Miranda sustenta que blogues feitos por pessoas que já têm lugar na imprensa tradicional são um exercício de vaidade: «É o narcisismo que atrai os criadores de blogues que já escrevem noutros espaços.» Com esta afirmação o senhor sociólogo vem mostrar que, para alguém que ganha a vida a observar a sociedade, anda muito desatento ou — o que é mais provável — que ainda não passou da "fase da contemplação" para a "fase da problematização"...

A mesma ideia, de resto, já tinha sido defendida por Pedro Rolo Duarte nas «Impressões Digitais» de sábado passado:

[...] Os «blogues», tal como existem, montados e alimentados por gente que tem acesso aos jornais e à opinião pública — Pedro Mexia, João Pereira Coutinho, Pacheco Pereira, José Mário Silva, entre outros —, constituem para mim uma espécie de «Portugal Fashion» da opinião: eles exibem naquela passerelle electrónica o que não têm lata, ou coragem, ou vontade de «vender» nos jornais onde podem e devem publicar o que pensam — como os estilistas mostram na passerelle o que nunca irão vender.

Trata-se, portanto, de um exercício de vaidade pura, de presunção sem pai nem mãe. [...]

Tal como o sociólogo, também o jornalista demonstra aqui a sua ignorância — quanto ao jornalismo e quanto à moda (o que é estranho em alguém que forra de trapinhos o interior do seu suplemento cultural...)

Comecemos pela palavra "vaidade". O latinista ilustre di-lo-á melhor do que eu, mas em termos largos "vaidade" provém do latim "vanitas", que por sua vez deriva de "vanus", palavra que nos chegou na forma de "vão". A vaidade é, pois, a qualidade do que é vão, fútil, sem razão de ser. É o acto por si mesmo, sem fim à vista.

Continuemos com a moda. A alta costura, o estilismo experimental, está longe de ser algo vão. Quem assim pensa não percebe nada de moda nem da maneira como as pessoas "funcionam". Os estilistas não mostram nas passerelles aquilo que nunca irão vender nas lojas — mostram nas passerelles aquilo que irá fazê-los vender os produtos que têm nas lojas. Concedido: são coisas diferentes, umas e outras, mas partilham a mesma griffe, o mesmo glamour. O estilismo de vanguarda existe para criar esse glamour à volta do criador, para criar no (potencial) cliente o desejo de possuir algo desse criador — as loucuras invendáveis de Donna Karan nas passerelles ajudam a vender a t-shirt banal com o "DKNY" no peito que se expõe nas montras do pronto-a-vestir. Quem não percebe isto, não percebe nada de moda e dos seus clientes. Ainda que forre de trapos as páginas do seu suplemento.

Terminemos com a pseudo-oposição ou incompatibilidade jornalismo/bloguismo (ou com o narcisismo que subjaz à sua conjugação numa mesma pessoa). Dinamizar um blogue está longe de ser um exercício de vaidade, narcisista, quando o seu dinamizador já tem lugar na imprensa tradicional. Pelo contrário: são, estrategicamente, actividades de interesse recíproco. Um jornalista/articulista/crítico consagrado verá o seu blogue ter uma maior projecção mediática devido à circunstância do seu autor ser quem é — mas o leitor em geral terá muito mais interesse nos artigos/opiniões/críticas desse jornalista/articulista/crítico consagrado depois de contactar com as suas opiniões — mais pessoais, menos formais — expressas diariamente num blogue. Um blogue bem feito e com impacto cria no leitor uma maior apetência pelos escritos — todos os escritos — do seu autor (de uma certa forma, dá-lhe glamour). Quem não percebe isto, não percebe nada do mercado da imprensa e dos seus leitores. Para dar um exemplo, ao Pedro Mexia (que já não é um desconhecido qualquer há muito tempo) deverá agora ser muito mais fácil vender um artigo a um jornal do que era há alguns meses atrás. Se não é, a culpa será das espinhas que se espetam na garganta mas afectam o raciocínio. FG 27/06/2003

EM TEMP(L)OS DO VAZIO

A televisão é, em noventa por cento do seu cortejo de imagens, aquele espaço onde tudo acontece e onde, efectivamente, nada se passa. Os reality shows, edificantes ilustrações deste princípio, têm o condão de devassar o íntimo e promover o vazio. Em A Mão de Ouro, a mais recente aberração da TVI, acrescenta-se a este cenário uma faceta original: a exaltação da estupidez e a sua figuração simbólica. Só por isso vale a pena alinhar algumas notas relativas ao concurso em causa, que no resto se apresenta digno do maior desprezo.

O que vemos n'A Mão de Ouro? Não, não é a realização da alquimia: é o símbolo do imobilismo acéfalo e grotesco do nosso tempo, acompanhado de uma adoração consumista. O concurso só não atinge o estatuto de vivência mística, porque, em vez de monges contemplativos, demoram-se ali duas dezenas de criaturas anónimas; em lugar de amplexos eternos, estendem-se enluvadas carícias; em detrimento da pureza, faz-se a glorificação do badalhoco; em substituição da Unidade Suprema, fulgura uma pick-up idolatrada. JFB 27/06/2003

LA PALICE

Aviso no rodapé duma página de publicidade a um livro que antologia os melhores cartoons da New Yorker: AVAILABLE WHERE BOOKS ARE SOLD. FG 27/06/2003

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