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Página de entrada do blogue (últimas) O MAGNETISMO DO ISLÃOTítulo na edição de hoje do Público: «Arábia Saudita suspende mais de mil imãs» FG 26/06/2003 AMINA LAWALQuem me alertou para a nova data de lapidação de Amina Lawal pelo "crime" de procriação fora do casamento (27 de Agosto) foi o Animal do Blogue dos Marretas, por isso aqui fica a referência. A secção espanhola da Amnistia Internacional está a organizar uma petição internacional online a favor de Amina. Como sempre, o sucesso destas coisas nunca é garantido (vai acontecendo), mas, se não se fizer nada, o garantido é que Amina Lawal morre apedrejada daqui a dois meses. Por isso, deixem de ler este blogue (os restantes posts até já cá estavam ontem...), passem pelo site da petição e mostrem aos mullahs nigerianos que o mundo se opõe à sua visão medieval da mulher e da "lei". É fácil, é rápido e pode — literalmente — fazer a diferença entre a vida e a morte. FG 25/06/2003 O DILEMASem camarins para solistas, nunca entrarão na Casa da Música do Porto nomes como Luciano Pavarotti, Plácido Domingo, Josep Carreras ou Itzhak Perlman. Sem elevador privado que o leve da entrada ao gabinete e daí ao cagadoiro, nunca lá entrará S.ª Ex.ª o Sr. Administrador Dr. Rui Amaral. Pobre Ministro Pedro Roseta, a ter de escolher entre duas perdas irreparáveis... FG 24/06/2003 CASA DA MÚSICAVem o post anterior mais ou menos a propósito da Casa da Música no Porto. Por coerência, preferia ver o dinheiro ali gasto aplicado em condutas de saneamento e ETARs pelo país fora. Mas agora dificilmente se poderia dar outra utilidade aos metros cúbicos de betão moldados e erguidos na rotunda da Boavista (como fossa, seria insuficiente, ainda assim). Seja. Haja música. Vendo bem, até existe alguma lógica no meio da barafunda que é o planeamento nacional. Desperdício por desperdício, ao menos que todos possam usufruir dele. Para a populaça, os estádios de futebol. Para os mais viajados, a Casa da Música e equipamentos semelhantes. Encolho os ombros. Só que, no seu proverbial cosmopolitismo, o Porto não poderia terminar a coisa discretamente. Tinha, claro, que arranjar maneira de nos lembrar, de novo, como o perfil portuense encaixa bem na geometria projectada por Rem Koolhaas. As esquinas das várias personalidades componentes da administração da Casa da Música vincavam bem os vários planos das suas personalidades. Onde alguns viam camarins e salas de ensaio, outros viam mais espaço para a administração e um elevador privado. A história, que envolve a desejada demissão de Pedro Burmester (por ter opinião), vem toda hoje no Público e é edificante. O mais morigerador no meio da polémica é a actuação da Distrital e da Concelhia do PSD Porto, a pedir demissões a eito, a pretender o despedimento de todos os que manifestaram opinião a favor da manutenção de Pedro Burmester. A julgar pelo comportamento do executivo portuense (do PSD) no que concerne à cultura e pelo que ouvi no fórum da TSF (um pecadilho que confesso), não me admira que estivesse em acção uma tentativa de fazer da Casa da Música um sãojoódromo e do Rivoli uma sala para stand up comedy à moda do Porto. Esperemos que seja verdade, que Pedro Roseta demita a administração da Casa da Música e reinvista Pedro Burmester na programação. Uma ilha de bom gosto na cidade do Porto não é coisa despicienda. São tão poucas. RAA 24/06/2003 NOVO-RIQUISMODesde sempre me enjoaram todas as manifestações de novo-riquismo. Pelo que de inconsistente, incoerente, mimético e kitsch existe nelas, mas também pelo desperdício que as define. Pelas mesmas razões a Expo 98, o CCB, certas pontes e rotundas, o Porto 2001, o Euro 2004 — nada disto mereceu a minha simpatia. As razões com que os promotores das avantesmas justificam a construção de certas obras, a realização de certos eventos, provocam-me um esgar de desprezo pela raça a que pertenço. Não é só por saber que mais de metade da população portuguesa não tem saneamento básico. Não é só porque aquelas obras e aqueles eventos pretendem simbolizar um desenvolvimento que não temos. É, sobretudo, porque me lembro da história do meu tio, grumo num hotel, na sua infância. Por força, os sapatos de tais irrelevâncias na hierarquia dos funcionários deveriam andar impecavelmente engraxados, como era obrigação geral. Os do meu tio não eram excepção de brilho e limpeza — mas quase não possuíam solas. Ao meu tio entristecia-o o esforço para aparentar aprumo — e doíam-lhe os calos. Claro que nunca se atreveu a pedir uns sapatos novos: não estava prevista no orçamento do hotel verba para tais desperdícios. Que o Estado Português goste de andar de sapatos engraxados sem solas decentes enerva-me um pouco, reconheço. Mas que ande constantemente a lembrar-me as histórias com que o meu tio me dilacerava a alma, não posso perdoar. Não haverá maneira de o novo-riquismo do Estado Português me poupar os dramas familiares? RAA 24/06/2003 AS RAZÕES DO MEU (FORÇOSO) ELITISMODe regresso do psiquiatra. Sem camisa de forças nem indicações para afastamento compulsivo de blogues, polémicas e divertimentos afins. Certo, não poderei exagerar. Convém conter a ânsia de sair a terreiro a esbofetear gregos e troianos. O mais indicado serão posts ponderados, textos breves e reflexivos, comentários pausados. Devo evitar o abuso da reacção, evidentemente mais propensa ao stress, o meu grande inimigo recém-adquirido. A ironia e a provocação não me estão proibidas — em doses adequadas. Mas devo estar consciente das consequências. Há, por isso, que seleccionar os alvos. É razoável escolher as futuras causas de stress. Não convirá que seja qualquer um. Por dia, não devo senão passar os olhos pelos títulos dos jornais, talvez ler o "destaque" do Público e o "DN num minuto", fazer uma selecção criteriosa dos colunistas que não resistirei a espreitar. Criteriosa deve ser também a escolha dos blogues que deverão constar nos "favoritos" do meu computador. Enfim. Nada que eu não fizesse já (com uma condescendência aqui ou acolá, um deslize além ou aquém, reconheço). Mas fica a informação para quem me leia: por indicações médicas, devo tornar-me mais elitista. Escusa a esquerda de objectar — com a saúde não se brinca. RAA 24/06/2003 FOGUETÓRIOSou só eu, ou esta disputa entre o Porto e Gaia mais parece a rivalidade entre Villariba e Villabajo nos anúncios do Fairy?... FG 24/06/2003 CTT: A SAGA CONTINUA(ver post abaixo) Não se me afigura outra solução que ir à estação de Correios da Araucária — menos central, logo, muito menos movimentada —, que até fica a meio caminho para a Universidade. Uma vez mais, entro e tiro a senha. Enquanto espero, deambulo pelo espaço, observando os selos nas vitrinas. A certa altura tomo consciência de que (desta vez não é desatenção) o contador que regula o atendimento não avança, mas as pessoas sim. Intrigado, dirijo-me a um dos balcões: «Desculpe, isto não está a funcionar por senhas?» Não precisam de acreditar nas minhas palavras, mas a pergunta — honesta, resultante de uma dúvida genuína — foi feita com educação. O mesmo não se pode dizer da resposta do funcionário, que em vez de me explicar as razões desse "passar à frente" (compreensíveis, quando depois fui informado), começa a barafustar que ainda não era a minha vez (de facto), que só agora eu chegara e que não sabia o que se passava (de facto!). Aí afirmo a minha intenção de apresentar uma queixa formal ao Serviço de Clientes. Que é inaceitável que ponham no atendimento ao público pessoa tão falha em civilidade. Que a dúvida era compreensível, a pergunta educada e a resposta também o deveria ser. Acreditem ou não, mas entre dentes até ameaças à minha integridade física são insinuadas (o que, quem me conhece nem que seja de vista poderá comprová-lo, é coisa denotadora de rara coragem por parte de quem faz as ameaças...). Entra em cena a Chefe da Estação. Leva-me para o gabinete anexo e explica-me os porquês do serviço estar a funcionar assim. Aceito as razões apresentadas, mas digo-lhe que o meu protesto não é por isso: no boletim próprio para o efeito, faço-lhe ver, acabo de assinalar «atitude do pessoal» e não «funcionamento do serviço». — Não sei o que se passou — diz-me a Chefe. — Ele até costuma ser simpático... — Ele não precisa de «costumar» ser simpático — replico eu. — Precisa é de ser civilizado todos os dias. FG 24/06/2003 ISTO DAS BOAS ACÇÕES...Isto de fazer uma boa acção também deve ter uma reserva legal: os benefícios para o benemérito agente só serão efectivados se ele, como dizia Afonso em Os Maias, o fizer «por medo às caldeiras de Pêro Botelho [ou] com o engodo de ir para o reino do Céu...» Uma estação de Correios, 08h 50m. Entro e tiro a senha de atendimento: 48. Como o contador ainda só vai no 13, guardo o papelito, saio de novo e vou comprar o jornal. De regresso aos Correios (depois de uma passagem frustrada pela CGD, onde as duas caixas automáticas e o actualizador de cadernetas estão em manutenção), encosto-me a um canto, um olho nas notícias, outro nos números que avançam anquilosadamente. Os minutos vão passando. Quando a contagem chega ao 45 aproximo-me de uma posição mais central, que me permita aceder facilmente a qualquer dos balcões em funcionamento. Ali perto, um ar de perdida perante a máquina de venda automática de selos e envelopes, uma senhora mais velha apresenta-se-me como um claro caso de lady in distress. Atribuam-no ao apelo do escuteiro que nunca fui, à pulsão do humanismo secular, ao fascínio das engenhocas ou à minha clara vocação de educador — o que é certo é que antes de duas piscadelas de olhos lá estou eu a explicar o funcionamento da geringonça. Quando dou por mim o contador do atendimento já vai no 51. Ainda meio incrédulo (nem por uma vez me apercebi do som da buzina que acompanha a progressão dos números), retiro nova senha: 104. Saio, certo de que Deus existe e reconhece os seus... FG 24/06/2003 O HORROR! O HORROR!A blogosfera também é corporativista! FG 23/06/2003 PERSPICÁCIA E SINCERIDADEEm resposta às mais recentes diatribes de Pedro Rolo Duarte, Pedro Mexia referiu-se à Periférica como a «publicação indie mais original e bem escrita». Se fôssemos dados a falsas modéstias, diríamos que o Pedro Mexia é demasiado simpático; como não somos, dizemos apenas que é muito perspicaz. FG 23/06/2003 RIGOR CLÍNICO, ANTES DE MAISApós acesa discussão com os meus pares, e face ao peso das provas apresentadas, sou forçado a admitir que o caso Pedro Rolo Duarte não se inscreve num quadro de pessoas que usam bonés-com-hélice, sendo antes aparentado do mais comum rush cutâneo. Fica aqui, por isso, a correcção do diagnóstico. FG 21/06/2003 LEITURASAcabei de comprar aquele que penso ser o mais recente livro de José Carlos Fernandes: Pessoas que usam bonés-com-hélice, cujo subtítulo indica ser «um pequeno catálogo de perturbações mentais.». Lá podemos encontrar, por exemplo, «A rapariga que julga possuir duas cabeças sobressalentes» e «O caixa de supermercado que vê poetas famosos em todo o lado». Longe de mim achar-me alguém digno de corrigir o autor de A pior banda do mundo, mas ainda assim sugiro uma adenda: «O editor de Dês Énes Ás que se irrita com os blogues»... FG 21/06/2003 INFANTILIDADESNa sua Carta do Editor desta semana, Pedro Rolo Duarte refere a infantilidade que abunda na blogosfera. Na página ao lado, pergunta-se que interesse poderá o fenómeno bloguístico encerrar para alguém que já escreve na imprensa tradicional. Essa ocasional infantilidade (ou excesso de hormonas) é um reflexo do principal atractivo de um blogue: o seu imediatismo, a possibilidade (ou o impulso, ou a obrigação) de responder a quente, quase sem pensar. O imediatismo nunca será compatível com uma imprensa semanal; o infantilismo das respostas a quente e sem pensar são-no, como pela segunda semana seguida nos vem o Pedro Rolo provar. FG 21/06/2003 PEDRO ROLO DUARTE E A PERIFÉRICA (2)A carta do editor Pedro Rolo Duarte tem pecadilhos e revelações curiosas. Em tudo o que pude ler na blogosfera sobre esta polémica, não encontrei nada que se pudesse parecer com a «ofensa pessoal sem tom nem som» ao DNA. Os posts que li eram bem humorados; críticos, sim, mas sem atingir a linha do mau gosto. Todos, portanto, uns furos acima do inefável texto com que Rolo Duarte resolveu brindar a Periférica. O curioso no meio disto tudo, e que poderá ter chocado Rolo Duarte, é que os blogues que se revelaram críticos do seu DNA (todos, sem excepção), manifestaram pelo caminho simpatia pela Periférica, a revisteca mal intencionada, arrogante, arrivista, ignorante e despeitada que ele, estranhamente acossado, resolveu odiar. Ora, sejamos sérios, ainda que a matéria quase o não merecesse. A Periférica tem sido assídua na crítica ao DNA. É um facto. É quase uma linha editorial. Mas, se Pedro Rolo Duarte se tivesse dado ao trabalho de ler a revista antes de resolver elegê-la como ódio de estimação e de ridícula sobranceria (até geográfica, imagine-se), perceberia que existem razões para as críticas. Nada é inventado. Quando muito é opinião discutível. Logo no número 2 da Periférica (em «DNA: Dias Naturalmente Aborrecidos») se explicava a relação de crescente desgosto que temos com o DNA. O bocejo que ali atribuímos ao DNA, e que agora muitos blogues revelaram sentir também, deve-se sobretudo às opções editoriais tomadas, aos caminhos escolhidos. Se alguém no meio disto tudo quis achincalhar alguma coisa, nunca foi a Periférica, com certeza. O mesmo não se pode dizer da prosa irreflectida e prenhe de emoções pueris de PRD. Altamente risível, e sintomático dum estado de espírito e duma deambulação editorial, é que PRD venha agora confessar que duvidava que o DNA tivesse «relevância» e que o que ali se escreve «não é ignorado ou indiferente». Ó homem: o seu suplemento é distribuído com um dos dois diários de referência! Sempre são umas dezenas de milhares de cópias! Dispõe de meios invejáveis. Claro que tem relevância, descanse. Agora, o timoneiro é você — é a si que compete que essa relevância seja a de um grande bocejo ou a de algo capaz de fazer bem aos neurónios. O saldo da polémica, para já, é positivo. Com meses de atraso, Pedro Rolo Duarte reage e parece querer incluir algumas alterações no seu suplemento induzidas por aquilo que se discutiu à volta da Periférica. A tal revista insignificante. Mas repare que até o «trazer a cultura bloguista para as páginas deste caderno» era sugestão nossa já na edição n.º 4. De Fevereiro!... Esperemos então pela pancada. RAA 21/06/2003 PEDRO ROLO DUARTE E A PERIFÉRICA (1)Vamos agora ao que mais (nos) importa: a polémica sobre a Periférica. Quem leu os nossos comentários às «Impressões Digitais» que Pedro Rolo Duarte escreveu sobre a Periférica percebeu que, estupidamente, não levamos muito a sério a violência do ataque que o homem quis desferir. Como, de resto, foi comentado noutros blogues, aquilo era mais risível do que escorreito. Mas, disse-nos depois o nosso director de marketing, fizemos mal. Muito mal. Se repararmos, a tiragem do DNA é bastante superior à da Periférica. Uma polémica que tivesse repercussão no suplemento do Diário de Notícias não era despicienda para uma revista com fracos recursos como a nossa. Poderíamos pensar que conquistáramos uma maior visibilidade na blogosfera, mas isso foi pouco mais do que aparente — muitos blogadores eram já leitores da revista. Não aumentámos tanto quanto isso o universo de clientes. Ainda por cima, para agravar a ira do nosso director de marketing e realçar a nossa estupidez, diz Pedro Rolo Duarte que «não se esperava outra coisa: a crónica das "Impressões Digitais" da semana passada, sobre a revista Periférica, deu pano para mangas para alimentar uma polémica, sobre a revista, sobre o DNA e sobre a imprensa em geral». Como pudemos ser tão burros? Como pudemos passar ao lado desta oportunidade? Não contente, Rolo Duarte espeta o dedo na ferida, com notória crueldade: «O que talvez possa surpreender, e fazer pensar, é o facto dessa polémica ter passado ao lado do Diário de Notícias e de toda a imprensa.» Não adianta deitar culpas para as vistas curtas dos editores do DN (e da imprensa em geral): cabia-nos a nós tornar visível a polémica na imprensa tradicional. É certo que na blogosfera está uma boa parte da nata dos intelectuais — mas não a totalidade. Há ainda uma boa dúzia de leitores a conquistar. Na edição de hoje, Pedro Rolo Duarte foi condescendente e generoso (e contraditório, já agora). Não só atribuiu à Periférica a capacidade de ser o centro de um debate «sobre o DNA e sobre a imprensa em geral», como nos permitiu emendar a mão. Ao trazer o assunto, de novo, às páginas do seu suplemento, abriu a possibilidade de fazermos passar a polémica para a imprensa propriamente dita. Mas como? A nova edição da Periférica só sairá daqui a dois meses e tal. Ninguém terá paciência para esperar tanto. Pelo resto dos jornais, nem Pedro Rolo Duarte nem nós podemos decidir. Ficamos, então, com o DNA. Por exclusão de partes, é ao DNA que cabe transferir a polémica para as páginas impressas. No final da sua Carta do Editor, Pedro Rolo Duarte parece indicar essa disponibilidade. Mas, pelo sim, pelo não, vamo-nos adiantar. Caro Pedro Rolo Duarte, que espaço nos reserva na próxima edição para que possamos responder às suas «Impressões Digitais» da semana passada? Uma página? Meia? Enviar-lhe-emos um e-mail com esta pergunta (a sério). RAA 21/06/2003 PEDRO ROLO DUARTE E A BLOGOSFERAOk, como ainda não fui à consulta, permito-me reagir, ainda que isso me custe um resto de dia horrível. Pedro Rolo Duarte, na Carta do Editor do DNA de hoje, vem dizer que leu as reacções na blogosfera às suas «Impressões Digitais» sobre a Periférica. Num outro texto, faz considerações sobre os blogues. A estas considerações muita gente responderá (o Espigas e os Marretas já o fizeram), pelo que não me demorarei aqui e até (quase) farei a defesa de Rolo Duarte. De facto, tem pertinência a pergunta: «O que escrevem eles [José Mário Silva e Pedro Mexia] no "blogue" que não possam escrever no Diário de Notícias?» Não custa perceber que os limites na blogosfera, mesmo sem passar as barreiras do mau gosto, da ética e da lei, são bastante mais alargados do que na maioria dos media tradicionais. Já para não dizer que as agendas dos jornais não coincidem muitas vezes com as intenções de comentário dos jornalistas ou colunistas. Em contactos que tive ao longo dos anos com diversos profissionais da comunicação social (ou com simples colaboradores da mesma) fiquei sempre com a ideia clara de que havia um limite sensível imposto à opinião publicada. Havia um ponto a partir do qual muitos não passavam. Por simples medo de despedimento ou por receio de arranjar chatices com polémicas, consoante os casos. A minha dúvida foi sempre saber se era maior a influência das direcções ou a auto-censura do escriba. Claro que no caso de alguns plumitivos estes limites são menos visíveis ou não existem de todo. Porque conquistaram essa liberdade no próprio órgão onde escrevem ou porque a trazem consigo, como uma mais-valia, de outras paragens. É aqui onde quero chegar. Um blogue tem todas as utilidades já mencionadas na blogosfera. Permite comentar com mais rapidez e abundância. Permite escrever em vários registos e abordar várias áreas. Mas tem mais uma utilidade: o capital de respeito, de admiração, de consideração que se pode adquirir. O marketing pessoal capaz de proporcionar novas regras na relação com editores e directores. Os homens da Coluna Infame eram muito bons antes de terem um blogue. Mas nada ficou como dantes para cada um deles na era pós-Coluna. Exagero? Voltemos à pergunta do início. «O que escrevem eles no "blogue" que não possam escrever no Diário de Notícias?» Aguardo respostas dos visados, mas também de Pedro Rolo Duarte, enquanto editor do DNA, e de Mário Bettencourt Resendes. RAA 21/06/2003 DÍVIDA ATRASADAUma passagem de uma obra de Vergílio Ferreira: «Se de uma parede branca disseres que ela é cinzenta, é possível que ela não passe a ser dessa cor. Mas passa pelo menos a ser branca, porque ninguém tinha talvez reparado na cor que tem. » Mutatis mutandis, se de uma revista interessante disseres que ela é medíocre, é possível que ela não passe a ter essa qualidade. Mas passa pelo menos a ser interessante — para aqueles que não tinham reparado ainda nessa virtude. Depois, envie-nos a factura da publicidade. JFB 21/06/2003 P.S. Em quanto importaria aquela célebre meia página se nela tivesse incluído uma foto da capa e o endereço da edição online? ATIREI O PAU AO GATOSe não tivesse já um emprego, candidatava-me a assistente da Maya. Conforme previ ontem, Pedro Rolo Duarte atirou o pau ao Gato, na pessoa do Ricardo de Araújo Pereira, esse perfeito espécime da «gente anónima e cheia de raiva para destilar». Não sei o que me assusta mais: se os meus poderes precognitivos, se a previsibilidade do Pedro Rolo... FG 21/06/2003 DIÁRIO ÍNTIMOPensava, inicialmente, que a crise de ansiedade de que padeço nos últimos tempos me impedia de escrever no blogue periférico. Que me impedia de escrever tout court. Exceptuando um ou outro post anémico, apenas me arrastei para o teclado durante o affaire DNA, com uma multidão por trás a impelir-me. Nesses dias aumentei a dose de ansiolíticos. Passada a festa, a semana foi calma. Fui serenando e retomei a vida normal — onde a escrita não ocupou qualquer espaço. Havia o sol, os umbigos, as esplanadas, os livros, os filmes, as caminhadas na natureza e, claro, o trabalho. Mas nem uma linha de texto. Minto: respondi a alguns e-mails ainda entristecidos por causa da crónica sobre o MEC, fiz um ou outro contacto para a Periférica 6 e respondi aos amigos (não a todos, infelizmente). Olhando a minha participação na blogosfera (supostamente dinâmica e atenta — não sei bem porquê), noto que não comentei — reagi. Não analisei — estrebuchei. Não provoquei — deixei-me levar. Agravando a patologia. Agora os amigos dizem-me que haveria de escrever qualquer coisa para o blogue — e a ânsia sobe. A imprensa tradicional está de olho na blogosfera e é preciso ler o que se diz, compreender o fenómeno — deito a mão à farmácia. Há novos bloguistas a ler com atenção (Francisco José Viegas) — mordo o lábio e fecho os olhos com força. Fala-se num manifesto anti-blogues de Pedro Rolo Duarte — encho-me de lágrimas, sinto dores nas articulações e convulsões nos músculos. Já percebi o que se passa comigo. O meu organismo (ou Alguém superior) diz-me que deveria estar de férias. Do trabalho e da blogosfera. Da imprensa e de Portugal. Que a literatura que me cabe é a passiva, a do leitor. A ideia disso poder acontecer serena-me mais do que o cocktail de fármacos. A ansiedade que me tolhe será consequência de problemas de saúde recentes — mas salta fora da escala de Richter quando estou em frente ao ecrã. A necessidade de ler um post são 5,5 graus. A ideia de comentar um post equivale a um sismo na Turquia, 6 graus. Que me obriguem, corporativamente, a reagir a Rolo Duarte é o Big One, aquele que arrasará a Califórnia. Comentar a vida fora da blogosfera, a vida real, a da imprensa e da televisão, faz desabar em mim terramotos, maremotos e tsunamis, tornados, ciclones e até, parece-me, uma ou outra arma de destruição maciça. Nesta fase da minha vida, o meu timing é a estação do ano. Uns comentários por trimestre, umas provocações no Verão, outras só lá para o Outono. A opinião é sazonal, a crítica precisa de meses até chegar ao disco rígido. Já pedi aos meus amigos que me deixassem em paz por uns tempos. Não sou como Pacheco Pereira, com quilómetros de estantes de livros e vida política activa (nem tenho revisor pessoal). Não sou como José Viegas, José Mário Silva e outros com trabalho facilmente acumulável com o bloguezito. Não sou como os das Produções Fictícias, com necessidade de treino permanente e um país para gozar. Não sou, enfim, como Pedro Mexia, incapaz de conter a superior verve. Um post meu que pudesse, nesta altura, eventualmente, interessar a alguém, passaria por comentários a O Pianista que vi ontem em vídeo. À Linha de Sombra que li há dias. Aos Contos Apátridas e à Ficções 7 que vou alternando. A O Impressionista, que comecei com avidez. Mas nada disto me apetece "exteriorizar", partilhar. Só "interiorizar", egoisticamente. O que talvez me apetecesse, se alguém quer saber, era verberar a boçalidade do presidente da Câmara cá da paróquia, espécie de paradigma do autarca português. O que talvez me apetecesse era falar da fuzilaria que ontem teria feito, se tivesse uma AK47 (eis uma manifestação de antiamericanismo), na praia fluvial que só ainda é interessante na minha memória. O povinho a desfazer-se em pedaços à minha frente, as suas motoretas e os seus 4x4 a explodirem hollywoodescamente, no brilho dos meus olhos... Segunda-feira visitarei um psiquiatra. Depois se verá se continuo num registo de diário intimista, se desisto das letras e da opinião de vez, ou se continuo a reagir, a estrebuchar e, quem sabe, a provocar um ou outro incauto. Como nos velhos tempos. RAA 20/06/2003 667 – O VIZINHO DA BESTATalvez imbuído de espírito "oprahtico", aqui deixo a minha sugestão, desta feita não de leitura mas de teatro: estreia amanhã no Porto 667 – O Vizinho da Besta, um espectáculo da companhia Visões Úteis. Estará em cena até dia 30 (excepto 22 e 23), às 19:30, no Rivoli. Eu vou — ainda não sei quando, mas vou. Quem se sentar ao meu lado não venha depois dizer que, veramente, foi o vizinho da besta... FG 20/06/2003 AINDA A OPRAHPergunto-me se algum entertainer português conseguiria um impacto (proporcional) semelhante ao da sugestão de leitura de Oprah Winfrey. Pergunto-me se — a consegui-lo — a fariam. FG 20/06/2003 OPRAH 6 – MARCELO 600Leio no Público que Oprah Winfrey, a famosa apresentadora de televisão americana, decidiu retomar a sua rubrica de sugestões literárias. O beneficiário desta rentrée de Oprah foi A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. Resultado: em poucas horas o livro alcançou o segundo lugar do top da Amazon e a Penguin USA prepara já uma nova edição de 600 mil exemplares. (Para se ter uma ideia, antes da menção de Oprah A Leste do Paraíso vendia 50 mil exemplares por ano, o que nos EUA é pouco.) Segundo anunciou, Oprah pretende fazer 5 a 8 sugestões literárias por ano. Isto recorda-me aquela história do touro novo e do touro velho:
FG 20/06/2003 BLOGOS DE OUROAinda no mesmo post, o Gato Fedorento outorga-nos o carinhoso epíteto de «os blogueiros preferidos de Pedro Rolo Duarte». Caríssimo Gato, muito me orgulharia esse galardão, mas temo não sermos merecedores. Blogamos tão pouco, que dificilmente estaremos no top ten do Pedro Rolo. Seja como for, amanhã por esta hora teremos as dúvidas tiradas, pelo menos a acreditar na inside information do José Mário Silva. Uma coisa é certa, se as «impressões digitais» de amanhã foram escritas no calor das Guerras Pricocolinas dos passados domingo e segunda-feira (a edição do DNA fecha à terça), então o Pedro Rolo deve ter atirado o pau ao Gato... FG 20/06/2003 NICHO DE MERCADO (2)Não querendo entrar em polémicas com o Gato Fedorento, nosso maior aliado nas recentes Guerras Pricocolinas, venho ainda assim, e uma vez mais, reclamar o pioneirismo na "Questão Marcelã". O Gato pode ter-se-lhe referido em Março, mas nós fizemo-lo em Fevereiro, altura em que saiu o número 4 da Periférica. Reddite quae sunt Caesaris Caesari! FG 20/06/2003 NICHO DE MERCADOOntem, no Abrupto, José Pacheco Pereira comentava brevemente a última edição da revista Os Meus Livros. O segundo e último parágrafo rezava assim:
Caro JPP, não poderia concordar mais com a sua opinião — nem poderia preocupar-me mais o facto de tê-la expresso por escrito. Por uma questão de direitos adquiridos (aqui e aqui), de facto se não de jure, comentários jocosos à rubrica de MRS são o nosso nicho de mercado! Se nos tira isso, aí sim, que será da nossa linha editorial? FG 18/06/2003 EIS O QUINTO IMPÉRIOFala-se em António Guterres para a presidência da Comissão Europeia. Com a desistência de Kristin Krohn Devold (ministra norueguesa da Defesa), António Vitorino tem o caminho aberto para a NATO. Se da Casa Branca vierem notícias animadoras sobre o Xerife Fontoura e a Tânia do Nascimento ganhar o Big Brother britânico, podemos finalmente entoar: «Assim se cumpre Portugal!» RAA 17/06/2003 PRAÇAS E QUINTAISAgora vamos falar do que realmente interessa. Folheemos o DNA, que não acaba na página 4. Avancemos para o reduto da crítica literária: aí mesmo, Pedro Mexia analisa longamente o «imprescindível» último livro de Rui Pires Cabral, «um dos dois ou três melhores poetas revelados na década passada», afirmando que «não deve haver poeta novo que tenha escrito versos mais memoráveis». O livro chama-se Praças e Quintais e acabou de sair sob a chancela da Averno. Sobre o mesmo livro, nesse mesmo dia mas no Mil Folhas, Mário Santos era taxativo: «Isto pode ser dito de maneira rápida e indolor: "Praças e Quintais" é o melhor livro de um poeta português publicado em Portugal no primeiro semestre de 2003.» O que é que isto nos interessa? Muito, porque uma parte substancial de Praças e Quintais viu primeiro a forma impressa nas páginas da Periférica. E porque temos a sorte de ter Rui Pires Cabral entre os nossos colaboradores permanentes. FG 17/06/2003 O FIMA polémica com o Pedro Rolo Duarte, vista em abstracto, até era interessante. Passávamos umas edições a trocar argumentos e farpas. O DNA ganhava vida. A Periférica vendia mais. Mas é injusta. Não só porque temos possibilidades quase ilimitadas de adicionar posts a este assunto, como somos em maior número aqui na Redacção. Para ajudar à festa, ainda houve a intervenção de outros blogues, como o Gato Fedorento e o Insanidade Mentol. É de bom senso não esticar a corda. A bem da auto-estima do Pedro Rolo Duarte, considerem — os leitores e o Pedro lui même — os posts anteriores sobre o assunto mera incontinência verbal duma Redacção «arrivista», que «perde demasiado tempo a olhar para os outros». RP 17/06/2003 PARA AS BANCAS, RAPIDAMENTE E EM FORÇA!As polémicas têm destas coisas: com o cheiro a sangue no ar, ontem e hoje os acessos ao nosso discreto blogue mais que triplicaram face à média das últimas semanas. Só gostaríamos de saber se esta pequena «corrida à Periférica» (na sua versão online) se terá traduzido em igual euforia no que concerne a compra da revista (estamos neste momento a contactar as livrarias). Sim, porque hits no contador de acessos dão algum alento ao ego (ou alimentam o convencimento), mas é a venda da revistinha que paga as contas ao fim do mês... RP 16/06/2003 DES-ULTIMATUMRetiro o que disse mais abaixo. Isso mesmo, dou o dito pelo não dito: não desejo o lugar do Pedro Rolo. E não se deve este recuo a que ache tão nobre o meu palheiro no Quelho do Lameiro de Baixo como o gabinete do Pedro Rolo ao cimo da Avenida da Liberdade. Não o é. Simplesmente, pensei melhor (algo nem sempre fácil na blogosfera) e achei duas boas razões para mudar de objectivos. Pois dá-se o caso que não conduzo. Assim sendo, e esta é a primeira razão, enquanto não ficar concluída a linha de metro Vilarelho-Marquês do Pombal, não me dá jeito abandonar o meu palheiro no Quelho do Lameiro de Baixo. A segunda razão resulta num recuo ainda maior: ao contrário do que deixámos dito no editorial do n.º 3, não gritarei nem escreverei nas paredes «Morra Dantas! Morra! PIM!» Não para este Dantas. Porque... vai que o sucessor do defunto até sabe o que faz; vai que o sucessor do defunto resolve trazer o DNA aos bons velhos tempos; resumindo: vai que o DNA deixa de ser um bocejo — nessa altura perdíamos irremediavelmente um dos nossos desgostos de estimação! Aí sim, que seria da linha editorial da Periférica? FG 16/06/2003 EU, PE(S)CADOR, ME CONFESSOAo cabo de vinte e sete anos e alguns meses, sofro de uma profunda derrota interior. A minha existência ostenta as marcas do fracasso em todas as suas dimensões. Ultimamente, no entanto, tenho consagrado à pesca o grosso das horas, assim conseguindo mitigar o quebranto que sobre mim se abateu. A catorze de Junho, um articulista muito lúcido pôs a nu as derradeiras misérias do meu espírito. Numa diatribe indignada, Pedro Rolo Duarte, editor do DNA, desancou a Periférica e seus vilões (entre os quais me conto), cobrindo-os de justos epítetos. Embora referindo-se ao geral da súcia, acertou em cheio no meu caso e fez-me ver o que eu desejaria oculto. Sou ignorante? Não duvido, ainda que ensaie, com frequência, humildes tentativas de fuga. Arrogante? Pior do que isso: ostensivo, provocatório, desprezador do povaréu e das sanguessugas adjacentes. Invejoso, ressentido, arrivista? Se o Pedro o diz, não terei como negá-lo. Membro da geração rasca? A idade não o desmente. Porque nada disto me dignifica e tudo me envergonha, receio sucumbir ao pé de tão humilhante quadro. Caro Pedro, graças a si consolidei o sentido da minha vocação: a pesca solitária, à luz da Lua, escutando o doce murmúrio das águas de um afluente sem nome. Só lhe faço um último pedido: se acaso deparar com algum texto meu (tarefa complicada, uma vez que escrevi pouco), achincalhe-o, verbere-o, reduza-o à sua estrutural insignificância. Faça-me sentir o verme e o trapo que sou. Prometo que porei fim às minhas pretensões críticas e literárias. Além disso, como paga substancial, enviar-lhe-ei truta fresquinha e anelante. Prefere assada e com tempero? O seu desejo é uma ordem. JFB 16/06/2003 ULTIMATUMAté aqui tenho operado na sombra, no mais vil e reptiliano anonimato, mas não mais. Agora que a nossa conjura (de saltimbancos?) foi exposta, não há por que esconder os meus intentos. Sabe, ó Pedro Rolo, que entre nós não haverá um dia de descanso, uma hora de paz — nem mesmo para recolher os feridos, enterrar os mortos e trocar prisioneiros. De facto, não farei prisioneiros: terás de mim a guerra total! Não descansarei enquanto não for meu um gabinete ao cimo da Avenida da Liberdade. O teu. FG 16/06/2003 «O PIOR DE PORTUGAL» (2)O pacato Pedro Rolo Duarte escreveu no DNA um editorial a pôr-nos na linha. Num primeiro momento de pânico, surgiu nas nossas cabeças a pergunta: o que teríamos nós escrito para que Pedro Rolo perdesse «a serenidade», a compostura, o estilo, o tempo e o espaço para nos chamar à razão? Lemos o texto de trás para a frente. De pernas para o ar. Contra a luz, em busca de qualquer coisa nas entrelinhas. Fizemos telefonemas. Mandámos e-mails. Estafetas. Telegramas. Sinais de fumo. Tocámos tambores. Perguntámos ao vento que passava. Fizemos inquéritos. Sondagens. Apelámos aos deuses. Visitámos oráculos. A Maya. Nada. A teoria com mais adeptos por estes lados é que Pedro Rolo quis concorrer ao lugar vago de Dantas que nós anunciámos edições atrás. É uma possibilidade. Mas tenhamos pena do homem. Como é que alguém tão novo se pode achar à altura das funções? Ser Dantas implica sentir o peso da idade. Não pela sabedoria que as barbas brancas e os anos podem trazer — mas, infelizmente, por alguns problemas de discernimento que as décadas podem induzir. Quando alguém de nós, por brincadeira, ensaia um «Morra Pedro Rolo Dantas, Morra, Pim!» nem risos provoca. Soa mal. É constrangedor. Dá pena. É inimaginável. No fim de contas, o homem é da nossa idade. Da nossa geração. RAA 16/06/2003 «O PIOR DE PORTUGAL» (1)«A revista completa será aquela que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, rapazes, só vos faltam as qualidades.» José de Almada-Negreiros (mensagem enviada da cripta) 15/06/2003 A PIOR REVISTA DE PORTUGALO fim de tarde era de pastorícia, como todos os outros. Não havia rede no cômoro onde se encontrava, pelo que só ao recolher as cabras teve conhecimento da mensagem que ficara no telemóvel. Um telefonema amigo alertara-o para uma crónica que sairia no sábado a denegrir a Periférica. Não deu grande importância. Já não era a primeira vez. A vida é feita de altos e baixos, como as serras que o rodeavam. Mas a voz gravada no Nokia acrescentou tratar-se de um texto "violento" de Pedro Rolo Dantas. Aí, tremeu. Pedro Rolo Dantas? O próprio Pedro Rolo Dantas?! O editor do ADN?! Tocou os sinos a rebate. A Redacção acorreu: uns vinham de mungir as vacas; outros, calaceiros, de jogar a bisca lambida na taberna do Mó; o último veio de longe, da Regatinha, onde virava a água para os feijões. As primeiras horas da madrugada do sábado apanharam-nos na galera do tractor em direcção a Vila Real. Ao volante o director, carregado de anti-depressivos. Havia que apanhar o Diário de Notícias nesse mesmo dia. Esperar pelo Domingo (quando a imprensa de véspera chega à sede de Concelho) não passava pela cabeça de ninguém. Após o regresso, caía a noite, o regedor leu o texto de Pedro Rolo Dantas no largo da capela. As pessoas ouviram assombradas. Foi declarado dia de luto no Vilarelho. Vieram carpideiras das freguesias vizinhas. Choraram-se lágrimas torrenciais. Era o fim da aventura...
«PIOR É IMPOSSÍVEL»Estamos a carpir as mágoas. O blogue segue dentro de momentos. RP 14/06/2003 OPORTUNISMO SINCERONão tenho sido muito assíduo do fenómeno bloguista. Falta de tempo, trabalho incompatível, livros para ler, copos para beber e outras razões menos publicáveis. Para além da finada Coluna Infame e, não tantas vezes, do Blog de Esquerda, pouco mais espiei no mundo peculiar dos blogues. Visitava o Abrupto, porque aprecio a opinião do autor e (confesso) me divirto com a sintaxe. Numa noite a pedir esplanadas, enchi-me de forças e encafuei-me em frente ao computador a saltitar de blogue em blogue. Vi muitos. Li muitos posts. Cheguei a duas conclusões. A primeira é que há blogues que não interessam a ninguém. A segunda é que jamais poderei ler todos os posts de todos os blogues interessantes que existem. A "blogosfera" é um Portugal à parte. Aquilo que as televisões e os jornais mostram, o "material humano" de que se servem as estatísticas internacionais, a gentalha com quem nos cruzamos na vida não está presente senão residualmente no conjunto dos blogues onde me demorei. Ou eu tive muita sorte nos caminhos que escolhi, nas opções onde cliquei, ou existe um Portugal culto, interessado, crítico, que só não é subterrâneo porque é cibernético. Não acredito que sejam meros programas de computador. Bytes a fingir de gente. Uma matrix em versão lusa. No meio de boa prosa, divulgação criteriosa e erudita, opinião interessante e crítica empenhada, havia lapsos, erros, empolgamento. Demasiadas reacções sensatas à indigência do país para que se tratasse de linguagem programada. (Quem se daria ao trabalho de programar algo tão impopular?) No final da noite tomei uma decisão. Oportunista, reconheço. Avisei os meus comparsas que haveríamos de conseguir uma base de dados para oferecer exemplares da Periférica a cada um dos bons bloguistas lusos. Não para exibirmos o nosso génio a quem é capaz de o reconhecer. Não para aumentarmos a tiragem (não são assim tantos os blogues interessantes). Só porque, se a blogosfera nacional começar a ser leitora empenhada e crítica da nossa revista, estaremos a um passo de fazer, efectivamente, a New Yorker nacional. RAA 13/06/2003 EXTREMA-DIREITASubscrevo o artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje. Era para dizer só isto, mas eis que reflicto. Sou um céptico. Não acredito nos homens nem nas mulheres. Quando se trata da cultura, não acredito na direita nem na esquerda. A direita no poder é populista. Parece de esquerda. Quer fazer bem ao povo. Dá os subsídios em função do grau de adesão popular. Promove aquilo que mais povo junta. Porque se sabe (quando sabe) distante das aspirações do povo, tem o remorso dos benfazejos e compensa a sorte que acha ter dando a esmola a quem mais precisa. O povo. A esquerda é elitista. Parece de direita. Pensa que os subsídios devem ser entregues aos iluminados, aos experimentalistas, que normalmente são os amigos e conhecidos. Porque é a esquerda, presume que o povo aderirá espontaneamente, cantando hinos, à cultura que ela escolhe. Surpreende-a as salas vazias, os livros por vender. Surpreende-a o povo. Afinal, ninguém ama mais o povo do que a esquerda. O povo é estúpido. Com a direita no poder adere espontaneamente, cantando hinos, às festarolas que a direita lhe arranja para o distrair do que importa. O povo é estúpido. Com a esquerda no poder, não põe os pés num só espectáculo que os intelectuais organizam confiantes na sua curiosidade natural e vontade de evoluir. A esquerda julga acreditar na igualdade entre os seres humanos, mas, com um pragmatismo inconsciente, torna-se elitista, vive em circuito fechado, sonhando com marés de multidões enquanto fala para salas vazias. A direita (quando não é povo) tem consciência daquilo que a separa do povo. Mas tem remorsos do que pensa. Em casa ouve Bach, mas na rua, por expiação, dança Emanuel. A esquerda, a direita e o povo deviam ser banidos deste paraíso terrestre. Por mim, só acredito e amo a paisagem. A flora e a fauna não humana. O que faz de mim um radical ecologista. (Serei de esquerda?) Na impossibilidade verificada de se cumprirem os meus desejos, voto contra a democracia participativa. A esquerda é bem intencionada ao desejar esta forma de democracia. Mas, crédula que é na mirífica igualdade dos homens e possuidora de péssimos dotes matemáticos (resultado do sistema de ensino que vem pondo em prática), ignora a estatística e não quer ver que isso equivale a uma sentença de morte do bom gosto e do direito. (Sou de direita?) Porque tenho amigos à esquerda e à direita, congeminei uma solução política para o país. A esquerda esquece os igualitarismos, faz as malas e muda-se com as suas artes, o seu experimentalismo. Vai viver com a direita num vastíssimo condomínio oligarquicamente fechado, tipo villa romana. A direita deixa de ter piedade ou de se identificar com o povo. Assume a diferença sem escrúpulos beatos e deixa o povo entregue a sua sorte. Assiste, crítica mas despreconceituada, aos espectáculos da esquerda. Por fim, nesta solução o povaréu tem plena liberdade de movimentos e opiniões — dentro de uma cerca electrificada. Definitivamente, sou de extrema-direita. RAA 12/06/2003 COLUNA: THE DAY AFTERNão valeria a pena regressar ao fim de A Coluna Infame se as causas e consequências do declínio se reduzissem aos assuntos pessoais e se a importância daquele blog não fosse maior do que a soma dos três jornalistas que o compunham. Sobre esta importância é bom ler o texto do "abrupto" Pacheco Pereira. Quando escrevi o meu último post e pedi ao nosso webmaster que o colocasse "no ar", desconhecia que os Infames já haviam feito descer oficialmente o pano sobre o blog. Como se lê na declaração final da Coluna, sobre a decisão terão pesado, entre outras coisas, as reacções, o feed-back negativo. Tenho para mim que a "pastilha shame on you" de Miguel Esteves Cardoso encabeçou a lista que fez abalar as vértebras à coluna. Se bem que me tenha esforçado, não fui a tempo com o antídoto que se oporia à danosa medicação. O desastre possivelmente só recuaria com massagens lombares de mãos mais sapientes do que as minhas — ou com acupunctura. Mas o momento não era de espetar farpas, reconheço-o agora. Mas se é inútil (e talvez impertinente) continuar a discussão sobre as causas e razões do fechamento da Coluna Infame, não será descabido pensar nas consequências. E retomo o texto de Pacheco Pereira (com a sua sintaxe muito própria): "A Coluna Infame foi a principal responsável pelo facto da hegemonia cultural da esquerda (...), tão dominante nos sistemas dos media, na educação, em todas as formas de comunicabilidade social, não o tenha sido nos blogs. (...) Isso não é mérito do meio, mas sim da influência dos autores da Coluna." Há, reconheça-se, outros blogs interessantes nesta "reacção" à hegemonia da esquerda e das suas fantasias nos domínios citados. Mas, por pouco tempo que alguém dedicasse à blogosfera, era impossível não perceber o ascendente da "Coluna Vertebral da Infâmia". É certo que as partes constituintes da Coluna têm intervenção importante noutros media. Mas não me parece que as opiniões n'O Independente e as críticas literárias no Diário de Notícias (DNA) alguma vez tenham tido a influência e a visibilidade que teve a Coluna Infame. A crítica literária por ter um domínio muito especifico. O Independente por ter um público já mais ou menos cristianizado (às vezes demais) e circunscrito. Não que as intervenções dos autores sejam ali menores, quer em quantidade quer em qualidade — no caso de Pereira Coutinho até bem pelo contrário. Toda esta prosa para uma pergunta simples. Haverá agora desculpa para que não se inicie a publicação da Spectator portuguesa? Parece-me ter lido um post qualquer na Coluna onde se falava na existência de um empresário de vistas largas... Caso tenha desistido, há sempre o Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho... Mas aí lavo as minhas mãos. A minha influência só dá para projectos multiculturais e politicamente equidistantes. Ok, posso meter uma cunha. RAA 11/06/2003 PROVAR DO PRÓPRIO REMÉDIOTudo muito bonito. João Pereira Coutinho, ofendido por Daniel Oliveira o ter empurrado para a extrema-direita, reagiu intempestivamente, deixando a blogosfera em estupefacção geral. No seu blog, Miguel Esteves Cardoso estendeu-se na defesa do amigo. As reacções dos dois conservadores, indignadas ou moralizadoras, pareceram-me sobretudo literárias. Permitam que me meta no assunto. Quando comecei a ler João Pereira Coutinho no Independente surpreenderam-me várias coisas. A erudição do colunista, a coragem, a frontalidade, a ironia e até o humor. Mas surpreendeu-me mais ainda que muitos dos seus textos abordassem, sob um ponto de vista análogo, partilhando opiniões semelhantes, matérias sobre as quais eu próprio me debruçava nos vários sítios onde deixei o meu rasto de tinta. Havia diferenças grandes, claro. Desde logo JPC era um intelectual e escrevia melhor do que eu. A haver semelhanças, eu seria, no máximo, uma espécie de «JPC em versão softcore», como diria José Mário Silva, mais tarde, no DNA. Na altura, com o ego algo tremido, aceitei a inquestionável secundarização. Não havia, de facto, comparação possível, quer na forma e no conteúdo dos textos (brilhantes, os dele), quer na sua maior radicalização do pensamento político. Neste affaire bloguístico, o mais fácil e mediático era estar do lado de JPC. Fazer como Miguel Esteves Cardoso a apologia da "palavra", da "identidade" e da "honra". Mas não posso. O panegírico de Miguel Esteves Cardoso, bonito e bem argumentado, peca por, também ele, exagerar as putativas consequências (ou intenções) das palavras de Daniel Oliveira. Por uma vez, ponho-me do lado contrário. João Pereira Coutinho é muitas vezes injusto e exagerado nos termos. Não raras vezes, usa epítetos capazes de ferir aqueles a quem se dirige. Generaliza excessivamente. Tudo em nome de uma imagem. Tudo em nome de um estilo. Tudo em nome da provocação. Tudo em nome de uma morigeração. Não raro, em nome do humor. Quando os excessos são cometidos em nome de tais "deuses", não custará a ninguém perdoá-los e procurar perceber a argumentação por detrás deles, a intenção pedagógica que a eles recorre. A "acusação" de Daniel Oliveira pode ter sido gratuita, ao contrário das diatribes de João Pereira Coutinho. Mas era tão banal que a reacção de JPC só podia significar duas coisas. A mais nobre e útil seria a tentativa de desbanalizar o uso das palavras (aquilo que MEC fez). Mas esta exigia, talvez, posts suplementares, adendas à explosão. Ou seja, a sua continuação na Coluna Infame. A outra é que JPC simplesmente se passou e não gostou do remédio que tantas vezes receita. Todos temos momentos desses. (O que nem todos temos é um MEC a justificar-nos.) Se tomarmos à letra, pelo seu significado, o post de Pereira Coutinho, é salutar que os Pedros da Coluna Infame se tenham demarcado da sua reacção. (Ao contrário do que defende a parte final do texto de Miguel Esteves Cardoso — que, a propósito, dá razão ao que escrevi na Periférica...). Repare-se: uma coisa é a gente ofender-se porque o nosso adversário utiliza intencionalmente mal as palavras para nos definir. Outra coisa é achar-se que alguém «radicalmente analfabeto» possui uma «manifesta personalidade de verme»... A apologia dos "duelos atrás da Igreja" é em Pereira Coutinho um belo efeito de retórica — mas o mundo civilizado já vai uns passos adiante. Se virmos a coisa pelo lado literário, pelo seu efeito estilístico, não haveria realmente razão para os restantes infames se porem de fora. Afinal, tratava-se apenas duma argumentação um pouco mais "picante". Daniel Oliveira poderia retorquir apelidando de "osga intelectualizada" Pereira Coutinho. Uns dez posts destes mimos chegariam para os cansar e poderiam então passar a argumentação propriamente dita. Mas, nesta possibilidade literária dos factos, teria Pereira Coutinho de explicar, entre outras coisas, como é que um ser "radicalmente analfabeto", utilizando portanto palavras cujo significado não conhece, pode ofender alguém... RAA 09/06/2003 NADA SERÁ COMO DANTESJoão Pereira Coutinho (JPC) abandonou a Coluna Infame, um dano colateral da troca de galhardetes com o Daniel Oliveira. Sem JPC, o que será da Coluna? Lá vai ter o Pedro Mexia de começar a escrever qualquer coisita para aguentar o barco. Realmente, nada será como dantes... FG 07/06/2003 DISFUNÇÃO PÚBLICAUm autocarro do centro de Vila Real para o campus da UTAD. Vai atrasado, claramente não chegará às 9 horas ao destino. Alguns passageiros, funcionários da universidade, manifestam o seu desagrado ao motorista. A resposta não se faz esperar, mas não é o expectável recurso à desculpa do trânsito. Não, muito prosaicamente, o motorista replica: «Que é que interessa? Vocês são funcionários públicos, podem chegar a que horas quiserem...» É assim Portugal no seu melhor, é esta a mentalidade. E são estas as pessoas que — noutra ocasião, numa repartição pública — criticarão à boca pequena esse mesmo atraso (ou a ineficiência, ou a antipatia) da pessoa que os atende do outro lado do balcão. Mas só à boca pequena, que a coragem e o civismo não chegam para mais. No fundo, ninguém deseja funcionários públicos mais eficientes e trabalhadores — simplesmente desejamos, quase todos, ser funcionários públicos também. FG 06/06/2003 ELES ANDEM AÍJá o disse várias vezes, até já o escrevi, mas não consigo evitar a reiteração: há livrarias onde os empregados claramente se enganaram na morada, falhando a mercearia da porta ao lado, tal é a demonstração diária de desconhecimento do produto que vendem. E não me refiro apenas às livrarias obscuras de vilas e cidades ainda mais obscuras, onde supostamente para quem é bacalhau basta. Não, «eles andem aí», infiltrados até em grandes lojas do ramo. Concretizemos, porque de um caso concreto se trata. Passo pela Bertrand do Chiado e deparo-me com um livro que não é muito fácil encontrar (pelo menos por quem, como eu, vai fugaz e esporadicamente ao Porto ou a Lisboa). Como naquela manhã não me dá jeito andar carregado, deixo-o na mesa de destaques onde o encontrei e continuo a vaguear pela loja. No entanto, quando passo por uma funcionária, apresso-me a apurar se a presença do livro é uma excepção ou se, pelo contrário, já é habitual encomendarem-no. «Costumam receber a American Illustration?», pergunto. «Nunca tivemos isso», responde-me. Assim mesmo, peremptória, sem um segundo de dúvida, sem um «Não sei; espere aí, vou ver ao computador.» Simplesmente, cheia de certeza — um dos mais curtos caminhos para a ignorância. Percebi depois como tudo se passou, como foi o livro que eu vi parar à mesa dos destaques de Arte e Design da Bertrand do Chiado. Com certeza foi lá colocado por um novo tipo de delinquente juvenil: já não os shop-lifters, mas uma espécie muito mais perigosa, os shop-bringers. Também eles, descubro agora, andem aí. FG 06/06/2003 A VELHA INVEJAAinda de ressaca pelo lançamento da revista e pelas agruras da distribuição (não nos cansamos de realçar o trabalho que isto dá — há que trabalhar para a mística...), deparámos ontem com um artigo de Carlos Câmara Leme no Mil Folhas sobre este número 5. Quem não teve acesso a ele (ao artigo), pode consultá-lo na nossa secção de recortes de imprensa. Mas para lá da crítica positiva há algo que nos salta à vista, algo que nos corrói as entranhas: na mesma página, mas acima de nós e com mais destaque, figura, desafiadora, a £§@$# Egoísta, uma vez mais em clara declaração de guerra à nossa pessoa (leia-se, revista). A uma clara conclusão chegámos nós há muito tempo: a única solução para esta infame subalternização seria a atribuição do alvará do casino do Alto Tâmega ao Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho — mas até isso nos negaram! (Felizmente, foi para a Solverde — Take that, Stanley Ho!) FG 01/06/2003 |
Fernando Gouveia [www] |
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