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O blogue da Periférica

Página de entrada do blogue (últimas)

PIADA

Hoje o Times de Londres lança nomes de possíveis futuros Presidentes da Comissão Europeia. Entre eles conta-se o de António Guterres...

Depois de listar as virtudes e os defeitos dos diferentes pré-candidatos (Blair, Aznar, Fischer, Chirac...), um analista sintetiza as qualidades que o sucessor de Romano Prodi deverá satisfazer: ao contrário do italiano, deverá ser «determinado e enérgico».

Nota-se que em Londres as notícias chegam algo truncadas... FG 27/05/2003

PASSEM POR NÓS NA FNAC

Ala para Lisboa, que se faz tarde!

Dias intensos, estes últimos. Depois de uma patuscada entre colaboradores e "mecenas" da Periférica (quem disse que publicitar na nossa revista não dá retorno?), das agruras logísticas da distribuição própria e da actuação dos amigos e colaboradores da companhia Visões Úteis em Vila Pouca (ontem à noite, com a peça «Estudos» — um sucesso), eis que urge pôr o pé na estrada e descer à capital.

Se adormecermos a meio da apresentação, não é porque o público não seja interessante... RP 27/05/2003

SPLEEN

O meu amigo José, desconcertante como só ele sabe ser, há um ano ditou, solene: «Agora que percebi a sensação de conduzir carro novo, não quero saber de literatura.» Não cumpriu, felizmente. A adrenalina da condução consumiu-se com a gasolina. Esta semana adquiriu um telemóvel de modelo recente e proclamou a mesma sentença grave. A que se seguirá, creio, o mesmo incumprimento, quando todos os segredos do aparelho estiverem desvendados. Pergunto-me se haverá tecnologia capaz de demover a sério o meu amigo José de se render aos benefícios brandos da literatura.

Comigo foi fácil essa dissuasão, e nem foi preciso tecnologia. Bastou certo problema de saúde e certa medicação que me desaconselhou de beber whisky. Resultado: em semanas não li um livro. Vence-me um desânimo sempre que devo escrever uns míseros "posts" para este nosso "blog". A consulta dos outros "blogs" dá-me tédio. Mesmo que me fique pelos três ou quatro que me interessam, desfaço-me em suores pelo esforço vão. Hoje, por exemplo, veio-me uma apatia estranhíssima quando li Pereira Coutinho defender que «o país está saudável». Passei horas terríveis a procurar pensar na aparente contradição de Coutinho. Aumentei a dose de ansiolíticos (talvez não tanto como o "infame" Coutinho). Nada. Só aumentei a ansiedade. Como é que o país rejuvenesceu e não dei por nada? Nem uma alegria breve, nem um pestanejar, nem uma batidela do coração. Do meu torpor, vejo o país apodrecido como julgava ser a sua condição.

Senhores doutores, se o meu país ressuma saúde, sacrifico a minha para o ver. Na próxima receita — Grant's, por favor. RAA 26/05/2003

CRUZ-CREDO!

É desta que o papa João Paulo II vai mesmo confirmar se o Criador existe ou não! Pois não é que um grupo de católicos decidiu fazer campanha para que o Vaticano deixe de ser um Estado não-membro da ONU (caso único na esfera das religiões) e passe ao corriqueiro estatuto de organização não-governamental?

Só pelo nome e pelo site do tal grupo dá para ver que é o Demo que orquestra na sombra: Católicos por uma Escolha Livre (Catholics For a Free Choice, CFFC), com sede em www.seechange.org. Escolha livre?! Mudança?! Uns tarados, é o que é. Se querem livre arbítrio, que não sejam católicos, ora esta! A obediência é boa e o papa gosta, e o que sempre se fez é que está bem. (E quanto àquele primeiro 'F', correspondente à preposição 'for', ninguém me tira da ideia que está lá para disfarçar a verdadeira vocação dos proponentes: a de buraco do ozono, a de corruptores das mansas almas...)

Se não bastasse o já dito para nos cimentar as certezas quanto às maléficas intenções, ainda escarrapacham sem despudor o seu programa: reduzir a influência que o Vaticano tem nas conferências internacionais da ONU, nomeadamente as que versam questões como o planeamento familiar ou os direitos das mulheres. Se a cada instante nasce um tanso, por que razão há-de a igreja católica apoiar a contracepção e o controlo populacional? E que é isso de direitos das mulheres? Desde quando uma encubadora tem direitos? E desde quando uma encubadora pode oficiar o culto? Ai, ai que estes CFFCs não percebem nada... (Uns transviados...)

Senhores CFFCs: tenham juízo! A igreja católica e as demais religiões monoteístas e patriarcais não se querem como motor, mas como travão. O travão que nos impede de cair pela borda do mundo — que, como sabemos, é plano. FG 26/05/2003

O CÉREBRO ANALFABETO

Faço aqui o meu mea culpa por há três semanas atrás ter dito (no post ORGULHOSAMENTE NA CAUDA DA EUROPA) que Portugal era imprestável no quadro europeu. Afinal ainda servimos para fins nobres, nomeadamente como fornecedores de cérebros analfabetos para estudos premiáveis com centenas de milhares de euros. E também servimos para analisar esses cérebros analfabetos. Falta saber se da próxima vez, com o andar da carruagem, não forneceremos apenas o objecto de estudo e já não o seu sujeito... FG 26/05/2003

OS TRABALHADORES E A CRISE

Vou pela rua e deparo-me com um cartaz, descorado e carcomido pelo tempo, de uma campanha eleitoral passada. «Só os trabalhadores podem vencer a crise», avisa o PCTP–MRPP. É bem verdade...

... Pergunto-me é se o Garcia Pereira percebe o alcance do que ele mesmo escreveu. FG 26/05/2003

EDIÇÃO ONLINE JÁ DISPONÍVEL

Para os mais distraídos, avisa-se que, com algum atraso em relação ao que é habitual, já está disponível a edição online da Periférica n.º 5. Mais uma vez, a versão online é apenas parcial, mas serve de aperitivo para a edição em papel — e para a sessão de lançamento na FNAC. RP 22/05/2003

27 DE MAIO NA FNAC CHIADO

Na próxima terça-feira, dia 27 de Maio, pelas 18:30, será apresentado no café da FNAC Chiado o n.º 5 da Periférica. Esta quinta edição (Primavera de 2003) marca um ano de vida da revista de que metade do país fala (a outra metade, se não fala, deveria falar), razão mais do que suficiente para convidar todos a estar presentes nesta efeméride.

Entre os conteúdos deste número, que será posta à venda na ocasião, destacamos:

  • entrevista ao convidado especial Ian Jack, editor da mítica revista Granta, que colabora ainda com uma crónica;
  • portefólio do fotógrafo holandês Erwin Olaf;
  • entrevista aos editores da Quasi;
  • poesia, ficção curta, crítica... e outras coisas de que o Diabo gosta.

Para os assinantes e demais afortunados a revista seguirá por correio nessa mesma semana.

Agradecemos desde já a presença de todos. RP 20/05/2003

UM HOMEM, UM VOTO?

Jack Goody, em entrevista hoje no Público, diz aquilo que alguns de nós pensamos: «Não acredito que "um homem um voto" seja a única solução para os problemas políticos. É a solução errada em alguns casos.» Tomemos o exemplo de Portugal... RAA 19/05/2003

O PODER AUTÁRQUICO

Faz-me sorrir o espanto de alguns anjos com o que se passa em Felgueiras, Marco de Canavezes e antros afins. Pensei já não existirem ingénuos no país. Pensei que só já acreditassem nos paraísos autárquicos os clones do sr. Cunhal — e, claro, as multidões de interessados nos bolos das respectivas Câmaras.

Salvo excepções (que deviam proclamar independência para proteger o bom nome), o país não está divido em concelhos — está dividido em zonas de saque ou, no mínimo, em Áreas Protegidas de Toda a Ética e Bom Gosto, as APTEBG. Cada APTEBG, em ocasional alternância política que se podia resumir na fórmula do «agora tu e depois eu», chama a si a tarefa de tirar proveito do erário público a favor de uns poucos e de umas instituições escolhidas por aclamação popular (o clube de futebol local, uma qualquer associação, um qualquer empreiteiro). Nas APTEBG onde sobrou alguma honestidade reforçou-se o mau gosto, a imbecilidade e o desperdício. Isto acontece porque, espantosamente, as Magnas Instituições Portuguesas e Europeias acreditam em contos de fadas, sonham que a civilidade está ao alcance de todos, como o oxigénio. RAA 19/05/2003

PORTUGAL É UM CASO À PARTE.

Teorias que se aplicam a outros países europeus não se verificam em Portugal. Se em Portugal se quisesse fazer uma operação mãos limpas não teríamos juizes e cadeias que chegassem. Teria de se mandar vir mão de obra judicial do estrangeiro e conquistar terreno ao mar para a construção de penitenciárias. RAA 19/05/2003

A BONDADE DO PORTUGUÊS

Em Portugal, qualquer ideologia política que mencione sequer a "bondade do ser humano" devia ser considerada uma aberração semelhante ao Ku Klux Klan, ao nazismo e a seitas afins. A verdade é que a imensa maioria dos portugueses não passa de uma espécie de xiitas fanáticos, prontos a tornar insuportável a vida de qualquer ser civilizado e ansiosos por acabar com o mínimo de honestidade e de decência ética que ainda sobre milagrosamente por aí. RAA 19/05/2003

A VITÓRIA

Durante anos habituei-me a admirar o director de um jornal aqui da paróquia transmontana. O jornal era o Semanário Transmontano e o director era o J. B. César.

Por uma vez, alguém queria exercer a actividade com profissionalismo, inteligência, isenção, imaginação e atenção crítica. A região (que ele defendeu como ninguém no referendo sobre a regionalização) urbanizou-se, fez rotundas e espelhos de água, construiu estradas, centros comerciais e hipermercados. O meu amigo César teve dezenas de processos em tribunal.

No final, as instituições da paróquia (imprensa incluída) não saíram um milímetro do seu século (o XIX). O meu amigo fez-se céptico, mandou às favas os conterrâneos. A região perdeu. Nós, os cépticos, ganhámos. RAA 19/05/2003

O FUNDAMENTAL E O ACESSÓRIO

Não interessa o que uma religião ou corrente política preconiza — interessa apenas o que os seus seguidores efectivamente praticam em nome dessa religião ou corrente política. Humanismo, pacifismo e fraternidade não praticados são enfeite de postal ilustrado.

Uma religião ou corrente política é o somatório de todas as acções dos que dizem segui-la — tudo o resto é treta ou hermenêutica dos textos fundadores (forma erudita de dizer treta). Supostas causas sem reflexo na praxis são nada.

E não, não falo só do Islão. FG 18/05/2003

UMA QUESTÃO DE GRAFIA

Para quem não viu, aqui vai (na íntegra, porque breve) um dos últimos posts de Pedro Mexia na Coluna Infame:

«O TOLERANTE ISLÃO: Penso que todos terão lido a carta do director da revista islâmica Al-Furqán ao PÚBLICO, dizendo que a nigeriana Amina Lawal, condenada à lapidação por adultério, sofreu uma condenação injusta porque não havia as quatro testemunhas exigidas. Se um responsável de uma igreja cristã dissesse uma coisa inifinitamente menos grave (sobre qualquer questão sexual, p. ex.) caía o Carmo e a Trindade. Mas o Islão é uma religião tolerante. Pois.»

Caro Pedro Mexia, há duas coisas a considerar, contra o risco de ser-se injusto para com a religião do Profeta e os seus seguidores: a primeira é que o Islão ainda só vai no séc. XIV — atravessa, por isso, o período medieval; a segunda é que a natureza "tolerante e pacífica" do Islão é uma questão de grafia: num país com a shari'a em vigor, se uma mulher comete "adultério" — PÁS! FG 18/05/2003

BENEFÍCIOS DA GUERRA

Na sua crónica da semana passada, aparecida no Público, João Bénard da Costa refere a sorte de Portugal ter sabido evitar a entrada da Segunda Guerra Mundial, mantendo-se numa «sossegada paz». Confesso que não tive acesso em primeira mão ao referido artigo, apenas o descobrindo graças à sua recuperação por parte de Esther Mucznik, hoje, igualmente no Público. E comenta Esther a dita sorte: «Dificilmente se discordará disto. Quem, no seu perfeito juízo, poderá defender que teria sido melhor Portugal entrar na guerra, sofrer as consequências inevitavelmente trágicas de um alinhamento, arriscar-se a ser bombardeado, invadido, a ver a sua população sofrer na carne os horrores da guerra? Ninguém, certamente.»

Não posso garantir o meu perfeito juízo — forte indicação de que gozo dele —, mas atrevo-me a discordar, pelo menos em parte.

É verdade que uma entrada na guerra implicaria muita morte. Se alinhássemos pelo Eixo, viria a ocupação ("cooperação") Nazi, a deportação dos judeus, dos ciganos e de outras minorias étnico-religiosas, os bombardeamentos dos Aliados, a destruição generalizada — e no fim o Eixo perdia na mesma, não ia ser com a nossa ajuda que esse aspecto da História mudaria... Juntando-nos aos Aliados (apesar das tendências fascizóides do Estado Novo), também não seria por aí que a guerra acabava mais cedo, seríamos provavelmente invadidos pela Espanha a "pedido" da Alemanha, mais tarde seríamos libertados pelos americanos, que desembarcariam cá ou no Norte de África. Em ambos os casos, pouca diferença para o Mundo, muita para Portugal.

Mas ainda faltam os aspectos positivos de uma entrada na guerra — que os há — e daí a minha discordância quanto a ser uma evidência que a tal «sossegada paz» foi a melhor das alternativas. Se entrássemos na guerra ao lado do Eixo, o rescaldo do conflito livrar-nos-ia de Salazar e do Estado Novo, teríamos um plano Marshall que nos faria avançar décadas em vez de dormir mais trintas anos à sombra de uma ditadura enfadonha, perderíamos as colónias e com elas a possibilidade futura de uma guerra colonial. Já apoiar os Aliados não traria benefícios — Salazar sairia reforçado como um dos vencedores, manteríamos as colónias até à inevitável guerra colonial (teríamos duas guerras, portanto), talvez recusássemos o plano Marshall por orgulho ou pelos "perigos da modernização": resumindo, tudo na mesma, mas com mais mortos.

Por isso, digo eu, a melhor solução para Portugal e para os portugueses das gerações futuras (incluindo a que somos nós) — ainda que não para os portugueses que sofreriam a guerra — seria ter apoiado activamente o Eixo. Sei que poderá parecer cruel, mas alguém duvida que o melhor que aconteceu ao (então) anacronicamente medieval Japão foi perder inapelavelmente a guerra?

(Sim, eu sei: nós não temos a determinação nipónica — infelizmente.) FG 16/05/2003

A ESCURIDÃO NO LUGAR DA CASA

Por vício atroz ou indesculpável ingenuidade, nunca abandono a meio um exemplar que a crítica mais generosa tenha consagrado. Acredito sempre que pelo menos uma frase, nem que seja a última, há-de salvar o livro e resgatar as horas ganhas ao lê-lo. Não foi preciso esperar pelo fim para obter esse benefício quando li Uma Casa na Escuridão, de José Luís Peixoto. Passeava o meu olhar, expectante de literárias volúpias, pela página 119, quando o autor decidiu não utilizar num parágrafo palavras com a letra a. Para além de genial, a opção constitui um momento alto no panorama da literatura portuguesa mais recente.

O único e lamentável senão é que, por um lado, as palavras não toleram o nosso abuso — e o autor é mestre nesse abuso, ao proceder a repetições caninas, ad nauseam, como se o leitor fosse uma criança estúpida — e, por outro lado, as letras exigem-nos igual prudência, não deixando impune quem tão astutamente as exclui. Senão vejamos estas pérolas: «O medo existe dentro do terror, muito perto do terror, como os homens existem muito perto de perder tudo.» Eu só teria perdido o meu tempo, se não apanhasse, logo a seguir, uma dose que me liquidou: «O medo, muito perto do terror, é um silêncio de homens e de mulheres que existe no momento em que todos, homens e mulheres, percebem que existem muito perto de perder tudo.» Perante este lance, confesso a estreiteza (e também a inutilidade) dos meus recursos hermenêuticos. Ainda assim, não é bonito julgar uma obra a partir de tão irrisórios dados. Como diria o poeta, a obra é excelente e o final é sorridente. «Eu sorri tanto», exclama, ao fechar a loja, o beatificado narrador. «Fui feliz e, nesse momento, morri.» Se o doloroso (perdão, luminoso) trespasse tivesse ocorrido logo na primeira página, o leitor, pelo menos, ficaria liberto do espectáculo e da lamechice desta interminável agonia. JFB 16/05/2003

O ESTADO

Para resumir o que é o «Estado português», comecei por procurar o significado da palavra «estado» na velhinha 5.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eram-me oferecidas duas hipóteses risonhas. «Nação organizada politicamente.» Ou: «Circunstância em que se está e se permanece.» Não precisei de pensar mais. RAA 10/05/2003

ABRUPTAMENTE

José Pacheco Pereira (JPP) é um dos cronistas que me faz ficar contente por acordar às quintas-feiras. Em certas ocasiões, quando o homem está mais radical ou toldado lá por uns achaques que lhe dão, apetece-me voltar para a cama. Mas a maioria das vezes passo o dia bem disposto.

Agora, parece que JPP criou um blog (o Abrupto). E confirmaram-se as minhas suspeitas: o eurodeputado ocupa-se demasiado. A sua prosa no Público (apesar dos revisores) sempre me pareceu apressada, com insuficientes leituras do autor, incaracterística. Por vezes o resultado é sofrível, ainda que ortográfica e gramaticalmente correcto. No Abrupto as coisas pioram, a prosa é... abrupta.

Ok, num blog não haverá que ter muitos pruridos estilísticos, mas há uma ortografia a respeitar. Assim, ou Pacheco Pereira contrata com o Público umas horas extras para o revisor ou ainda perde clientela. Pedro Mexia, por exemplo, por mais que genuflicta perante as ideias de JPP, pode enjoar-lhe os acentos e outros descuidos. RAA 10/05/2003

SOUSA TAVARES, O COERENTE

Num artigo assisado sobre os jornalistas da terceira geração do pós-25 de Abril ("O massacre do jornalismo", Público de hoje), Miguel Sousa Tavares diz a certa altura que «Tudo o que esta profissão tinha de apaixonante, de reconfortante e de compensação ao mérito e ao talento desapareceu por completo (...)». A culpa, claro, é do sensacionalismo, do populismo, do comércio de escândalos em que os jornais participam activamente. Há, no entanto, «honrosas excepções, de que este jornal [o Público] é, felizmente, uma delas. » Mas note-se que Sousa Tavares deixaria de escrever ali «no dia em que o Público caísse nas mãos de simples merceeiros do jornalismo.»

Quando par hasard vejo o mesmo Sousa Tavares perorar (assisadamente, reconheço) na TVI — que me parece estar há muito tempo nas mãos de "simples merceeiros do jornalismo" — confirmo pela centésima vez uma certeza cá muito minha: há um clone de Miguel Sousa Tavares. RAA 09/05/2003

EDUARDO MÃOS DE TESOURA

Eduardo Cintra Torres está de "olho vivo" na televisão. O colunista vem defendendo os efeitos positivos da participação do "povo" nas televisões e aconselha as "elites" a tomarem Lexotan se não gostam do espectáculo. «Faz parte do aprofundamento da democracia», pontifica Cintra Torres, citado hoje pelo jornal onde escreve. Num plano meramente teórico, até concordaria com Eduardo Cintra Torres. Não posso é concordar com o uso que ele faz dos advérbios quando se refere aos aspectos negativos da invasão popular dos ecrãs. Leia-se hoje no mesmo Público: «Há pontualmente tendência para algum populismo». Pontualmente, Eduardo? Outra: «Há uma alteração da agenda jornalística provavelmente exagerada no sentido de deixar de fora temas que seriam importantes para os espectadores.» Provavelmente, Eduardo?

Após tantas horas de exposição aos malefícios da TV, Cintra Torres tinha poucos caminhos: morria de amores pelo "povo", evoluía para "Eduardo Mãos de Tesoura" (uma espécie de Mário Castrim de direita, a minha opção preferida) ou emigrava, para falar com distanciamento higiénico do fenómeno televisivo. Alguém o tem visto por aí? RAA 09/05/2003

ORGULHOSAMENTE NA CAUDA DA EUROPA

No Público online de hoje, secção de notícias de última hora, revela-se que a Europa descobriu o que já toda a gente sabia: que os portugueses não sabem e estão pouco interessados em saber — seja o que for. Mais precisamente, 50 por cento dos inquiridos nacionais afirmaram o seu desinteresse em participar em programas de formação ao longo da vida. Andando a média europeia (UE, Islândia e Noruega) de orgulhosamente desactualizados na ordem dos 10 por cento, facilmente se percebem duas coisas: quão boas são as nossas perspectivas de progredir e encurtar a nossa distância face à Europa em termos de desenvolvimento, e que a nossa presença na UE é uma fatalidade geográfica (para a UE), pois, para além de estragarmos as médias da União, só temos a oferecer um mercado minúsculo e mentalidades ainda mais minúsculas. E vêm aí os países de Leste, com populações mais cultas e (parece) determinadas a alcançar o pelotão. Nem na Volta à França se assiste a tamanha ultrapassagem como esta que se antevê... FG 06/05/2003

O DÉFICE DO MEU VIZINHO MEU AMIGO É

Num jornal do fim-de-semana (não me lembro qual) comparavam-se os défices dos diferentes países da UE. Graças à protecção de Fátima, o da França e o da Alemanha é maior do que o nosso, e assim folgamos as costas. A Finlândia, pelo contrário, não tem deficit, mas superavit (coisa que nos é de tal forma desconhecida, que nem forma aportuguesada se lhe arranjou...): o Estado finlandês tem 4,6 por cento mais receitas do que despesas. Quando é que alguém toma uma posição de força e põe na linha esses arrogantes, que estragam a foto de família? (George W.?...) FG 06/05/2003

EM TEMPOS DE GUERRA NÃO SE LIMPAM ARMAS

Já tínhamos avisado que não teríamos a assiduidade de um blog. Numa altura em que se afinam as vozes para mais uma edição impressa (a número 5), é ainda menor a nossa disponibilidade para comentar o mundo. Mas que não descanse o mundo: haveremos de voltar! RP 03/05/2003

A PEDAGOGIA E A MEDIOCRIDADE

Com musgo, pedrinhas e areia humedecida, a criança erguia alegremente uma pequenina vivenda. Ao ver passar um adulto, pediu-lhe auxílio. O homem aproximou-se, de olhar afável, e ajudou-a a alinhar as pedras e a dispor o musgo; mas evitou o contacto com a areia, uma vez que esta tresandava. A casa erguia-se a bom ritmo quando o petiz solicitou ao homem de barba feita que urinasse na areia, para fazer argamassa. Aqui, o sujeito levantou-se, cheio de indignação, e disse-lhe que aquilo era feio e porco, sobretudo se podia usar água limpa com melhor resultado. A criança chorou, ao ver-se assim contrariada. Mas, com algum esforço, acabou por compreender.

Na atmosfera pimba que nos circunda, o convívio com a mediocridade exige-nos, muitas vezes, a finura diplomática, ainda que não consigamos evitar uma longa dose de solidão. Neste contexto, um gesto desdenhoso revelar-se-ia não apenas inútil, como gerador de ódio. É que, recordando Nietzsche, quanto mais nos elevamos, tanto mais pequenos nos vêem os olhos dos que não conseguem (ou não querem?) voar, e o mais odiado é aquele que dispõe de asas.

O certo, porém, é que há um limite para esta delicadeza, sobretudo se nos for pedida uma completa infantilização, soltando expressões de arruaceiros ou macaqueando gestos perfeitamente imbecis. Nessa altura, impõe-se o correctivo pedagógico. Se a plebe se lamentar, é bom sintoma: encontra-se em condições de aprender alguma coisa. Ser humilde não significa ser atrasado mental. JFB 29/04/2003

MAQUIAVEL OU VIDENTE?

Carlos Magno escrevia uns trocadilhos para o DN e lia outros na TSF. Tinha jeito para esse subgénero. Chamava-lhe análise política. Hoje, na Notícias Magazine, o jornalista escreve uns «Retratos para o Futuro», textos que nos apresentam «alguns daqueles que nos vão surpreender pela sua excelência». Ao lado do texto de Carlos Magno, aparece em cada semana a fotografia da vítima sorridente. Não quero parecer sádico, mas alguém devia lembrar àqueles «jovens promissores» que o simpático vidente da Notícias Magazine foi o optimista responsável pela concepção da NTV... RAA 28/04/2003

O PÚBLICO

O Público tem uma direcção algo esquizofrénica, é sabido. Isso não impede que seja o melhor diário português. José Manuel Fernandes [JMF], cada vez mais próximo do neoconservadorismo ou lá do que seja, vive rodeado de gente de esquerda. Por mim isso não tem mal nenhum. Pode até ser salutar. Desde que as opiniões divergentes (e bem necessárias, se pusermos de lado um ou outro exagero emotivo e alguma credulidade) do director não constituam motivo para um levantamento da Redacção ou para uma desistência de JMF.

Mas agora que se começa a ver alguma troca de recados nos editoriais, a gente começa a imaginar coisas. Como os directores vivendo em salas separadas, a comunicarem por estafetas, a não se falarem nos corredores, a mudarem de passeio na rua. Este organigrama sui generis do Público pode permitir um confronto de opinião interessante e uma equidistância serena na informação — ou zangas que só a ingerência do engenheiro Belmiro resolveria. Que o sr. Belmiro se meta é a pior coisa que pode acontecer ao jornal. É urgente, portanto, a mediação dum estafeta que, como no reclame da Coca Cola, se transmute em cupido quando designado para transmitir os recados. Um cenário do tipo: «Senhor Director, o dr. Eduardo Dâmaso manda dizer que o ama e tem saudades da sua barba». RAA 28/04/2003

PENITÊNCIA

Não sou escritor, provavelmente nunca o serei (pelo menos enquanto não arranjar uns minutos para descobrir aquilo que falta à ficção portuguesa actual), mas sempre há um contributo que posso trazer a benefício da classe. (Neste momento não me vêem, mas cresceram-me os cabelos, azularam-se-me os olhos, não visto jeans e pull-over mas uma toga alvíssima, acabei de abrir ligeiramente os braços, de inclinar a cabeça e de adoptar um olhar de incomensurável piedade.) É aconselhável ao plumitivo, (especialmente aos mais frágeis), ler uma crítica três vezes antes de pensar em reagir. De seguida deve esforçar-se por reconhecer que não existe uma conspiração contra a sua real pessoa. Em terceiro lugar, e se ainda achar que há lugar a reacção, deve reler uma boa dúzia de vezes a resposta que pretenda publicar e dá-la a ler a alguém íntimo e suficientemente forte para lhe aplicar um bom par de estalos se a coisa for a parvoíce costumeira. Se a reacção passar a tudo isto (e a uma multidão gritando ¡no passará!), então o escritor deve reescrever a sua resposta com humor, argumentação pertinente e agradecer ao crítico o facto de se ter dado ao trabalho de ler a obra.

É esta a penitência a que se deviam submeter os verdadeiros escritores. A bem do público, que prefere divertir-se com uma boa polémica do que ler respostas ressabiadas. Todos aqueles que reagem intempestiva e impensadamente devem desconfiar que provavelmente são como a Força de Reacção Rápida europeia — não existem. RAA 26/04/2003

ARQUITECTOS DA BOLA

O presidente da SAD do Sporting Clube de Braga, cujo nome agora lamentavelmente me escapa, proclamava há algumas semanas, orgulhoso e eufórico, que o novo campo da bola da cidade, pago sem tugir nem mugir pelos dez milhões de cidadãos que nem podem esperar pelo Euro-2004, era reconhecido «no estrangeiro» como um inigualável, cito, «estádio arquitectónico». De facto (e de jure também) a coisa não será para menos: em Braga, terra de tantos templos da fé e de lindas alminhas, sucessivamente ajeitada por gerações de infatigáveis empreiteiros e preclaros edis, a composição da paisagem não é, como se sabe, um primor. Digamos moderadamente, para não sermos injustos ou tomados como bárbaros, que vista à distância a cidade é mais bonita do que a infeliz Bagdad de Tommy Franks. É pois neste sortudo aglomerado populacional que, a pulso de angolanos, brasileiros, moldavos e ucranianos, se está a erguer aquele que nos garantem vir a tornar-se o mais belo, quiçá o mais extraordinário, dos recintos desportivos que vão encher a pátria e os patrícios de desmedido orgulho. Como aquele que experimentou o povo do Burkina Faso — país sede, em 98, da Taça das Nações Africanas — quando assistiu, também ele encantado, à construção de um conjunto de magníficos estádios, hoje entregues à volúpia dos mosquitos. Por isso a expectativa cresce todos os dias. E quando, sobre a relva verdinha em folha, chegar enfim o momento de viver o esplendor do primeiro pontapé de saída, todos nós agradeceremos a clarividência cinco estrelas de uns tantos dirigentes desportivos e de outros tantos responsáveis pelo nosso comum destino. Batendo palmas até que a voz nos doa ou a arquitectura nos caia em cima. RB 26/04/2003

JORNAIS

É sabido que o único jornal com uma tendência assumida, em Portugal, é O Independente. Os restantes, oscilam, ora para a direita, ora para a esquerda, consoante o jornalista (sendo que estes oscilam maioritariamente para esquerda) ou o colunista que escreve. O cidadão que se quer manter informado e que quer acompanhar devidamente "a conversa" nacional, compra diariamente o Público e o DN, e aos fins-de-semana compra O Independente. Se estiver para esbanjar dinheiro ou quiser saber as últimas sobre pedofilia compra também o Expresso.

Foi bonita a recente nota editorial do Público reassumindo a independência do jornal em relação à direcção e vice-versa. Vicente Jorge Silva desejava, escreveu-o no dia seguinte, um director à sua imagem e semelhança. Mas foi-lhe dito, cordialmente, que não podia ser, os tempos eram outros.

Analisando as direcções dos dois diários portugueses de referência, verifica-se que a esquerda vence claramente no Público. Mas, curiosamente, e apesar do Luís Delgado, não foi no DN que li o editorial mais crédulo e embevecido com a política de Bush.

Quando no final de Janeiro, no discurso sobre o Estado da Nação, George W. apresentou, não sei se ao som de violinos, o seu terceiro objectivo (a independência energética dos EUA em relação a outros países e «a melhoria do ambiente»), anunciou o desenvolvimento de um carro não poluidor, movido a hidrogénio. Adivinhe o leitor em que jornal português se podia ler que, agora mais do que nunca, ficava provado que a intervenção no Iraque não era movida pelo petróleo? RAA 24/04/2003

P.S. Mais tarde, perante a libertação de Bagdad, o mesmo editorialista viria a verter uma lágrima pelo "25 de Abril iraquiano".

ARTESANATO

É possível, admitimos, que haja quem confunda a Periférica com curioso artesanato de província e por isso a compre. Demasiado tarde essas pessoas verificam que a revista não fica bem no canto do Galo de Barcelos e da louça das Caldas.

No entanto, essa minoria desilustrada, que dá por mal gastos os dois euros e meio, baralha as estatísticas nacionais de literacia.

A bem da contabilidade das almas cultas, brevemente a Periférica terá duas edições. Uma que se lê. Outra em que, aberta a capa, saltará do interior um pirilau de linhas e proporções dignas da mesmíssima louça das Caldas. RAA 24/04/2003

NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA

«A máquina mediática é tão eficaz que até esses camaradas ficaram confusos.» Reinaldo Lafferte, embaixador de Cuba, comentando as críticas de membros do PCP à situação dos direitos humanos em Cuba. 24/04/2003

EXPRESSO

O jornal preferido dos sem-abrigo. PA 24/04/2003

CRÍTICA? CRUZES CANHOTO!

Vi, por uma entrada no nosso site, que o Cruzes Canhoto faz alguns comentários elogiosos sobre a Periférica. Ensina-nos aquele blog que os rurais (onde nos incluímos) são, entre outras coisas, tipicamente «elitistas». (Teremos, talvez, que rever o comentário onde falávamos de «conotações ideológicas».) Mas, num post subsequente, o mesmo blog toca num ponto sobre o qual é interessante discorrer.

Parece que a Periférica inaugurou o seu blog cumprindo uma tradição muito portuguesa — a de falar mal dos seus congéneres — o que será imensamente nefasto.

Há aqui um equívoco, este sim muito tradicional e português: não há, nunca houve problema nenhum em «falar mal» seja do que for. Haverá, no máximo, falta de chá ou de carácter quando se «fala mal» por inveja ou mesquinhez. De resto a crítica (creio que é disto que se fala) é, pelo menos, o motor de arranque de muitas das melhorias que vamos fazendo à nossa idiossincrasia. E Portugal precisa de melhorar, e muito, o seu perfil.

Haverá problema se a ocupação exclusiva dos portugueses for «falar mal» do próximo. Haverá algum problema literário se os portugueses não souberem «falar mal». Haverá problema — para o maledicente — se ele não conhecer aquilo de que «fala mal». O resto, meus amigos, são balelas.

Aliado ao estigma existente sobre o «falar mal» há o problema da ironia. Este segundo problema revela ainda mais a alma do portuga. Não é de admirar que os menos letrados, desconhecedores em absoluto das subtilezas das figuras de estilo da língua pátria, reajam à ironia com indiferença alvar — ou com fúria bestial, se ironia tiver uma costela de sátira. Mas, meus caros, é confrangedor ver tanto «intelectual», ou similar, passar ao lado das maravilhas duma boa toada irónica. É risível observar tanta luminária tomar o comentário irónico à letra e reagir com coices semelhantes aos dos seus concidadãos menos dotados. Vejam-se as polémicas literárias ou políticas nos jornais.

Deixem lá que se fale mal. Ofereçam é à inteligentzia nacional um manual da boa maledicência. Pode ser As Farpas — com anotações para principiantes. RAA 23/04/2003

P.S. Não se precipite o Cruzes Canhoto tomando estas observações como críticas ao percurso do seu blog. Não o conheço minimamente para me dar a tais intimidades.

CLONADA INVEJA

De vez em quando leio às escondidas, no sítio do Portugal Diário, as crónicas da ultra-citada Margarida Rebelo Pinto. A novelista e cronógrafa mais invejada e invejável de Portugal (nas suas próprias e insuspeitas palavras), faz transbordar também por ali o fulgor electrónico, por assim dizer, da sua pena. Numa das últimas, inspirada na morte da ovelha mais conhecida do planeta, escrevia: «Dolly teve muito mais do que os possíveis 15 minutos de fama que o visionário Andy Wharol atribui a cada ser». É um facto, embora, colocadas as coisas nestes termos, pareça que a plumitiva lisboeta experimenta um pouquinho de inveja pela memória da falecida alimária. Mas apenas por instantes, pois logo de seguida, lamentando com aparente sinceridade o passamento do tão adorável quão lanudo ente, culpa por aquele «o chamado "mundo científico", essa elite parda que anda a experimentar coisas que nem imaginamos». Acrescentando adiante, sob a perspectiva do seu loquaz nervo óptico, que «a ciência já não serve para salvar vidas, prevenir doenças e pragas, ajudar os pobres e subnutridos», mas, sem dúvida desgraçadamente, para «desafiar as leis da Natureza, alterar a ordem natural das coisas». Não iria tão longe, pois reconheço que os diferentes saberes genericamente designados como "ciência" servem, entre outras coisas, para que os seres humanos se distingam dos bichinhos ao natural que a Dona Margarida, com toda a legitimidade, tanto aprecia. Tal como sei que o mundo não é tão simples quanto ela o alegadamente concebe. Todavia, por uma ordem lógica das coisas, deveriam ser pessoas com ideias assim espontâneas, objectivas, certeiras, para além de coloridas, a alimentarem as experiências de clonagem. E não elas a clonarem as ideias com os quais exercitam a literacia dos contemporâneos. Mesquinhos e desmedidamente invejosos, os mal-agradecidos. Invejosos, invejosos, tão invejosos, os brutos. RB 23/04/2003

GOLD OVER BLUE

A guerra do Iraque trouxe para os canais nacionais e para as capas das revistas de sociedade (como a do Expresso, essa conveniência ÚNICA de banheiro e antecâmara de odontologista) um conjunto de comentadores militares em uniforme número um e sapato luzidio. Atestados de medalhas — ganhas, com toda a probabilidade, nos cursos acelerados de especialização em West Point e na Rua de Pedrouços, em torneios hípicos com saltos de obstáculos ou em complicadíssimas provas de tiro ao alvo — discorriam pelos cotovelos da coisa militar, sobre mapas com um certo aspecto de construções na areia, deixando, helas!, «a política para os políticos». Desde a altura, já lá vão uns bons anitos de ordem unida e marcha acelerada, em que o senhor general von Clausewitz calçava as botas todos os dias, que aceitamos sem pestanejar — e neste nós incluo, naturalmente, estes garbosos oficiais — a guerra como continuação da política por outros meios, pelo que o absurdo das análises assépticas, puramente técnico-tácticas, é por demais evidente. Mas aquilo que me fascinou não foi essa acrobacia houdiniana de falar do míssil pelo míssil, transformado pessoas em alvos, mortos em baixas e estropiados em danos. O que me deixou profundamente impressionado, ao ponto de me ver fixado ao televisor a fazer zapping entre o tenente-coronel em cinza e o major em tons de blue, foi o ar obscenamente excitado com que eles comentavam os acontecimentos no Iraque. Facturavam números ao cronómetro, e, à medida que o faziam, iam ficando cada vez mais corados, os olhos a brilhar, a testa a gotejar, o brio a tinir por via do seu ecstasy de pólvora e electrónica. Não me admiraria nada se algum deles, desligadas as câmaras, batesse os tacões e, logo de seguida, esmurrasse o próprio peito com dois socos à Tarzan. Emitindo o medonho som gutural com o qual, na selva da ficção de Edgar Rice Burroughs, o herói chamava os seus amigos macacos. Creio que o mesmo usado pela espécie para acasalar. RB 21/04/2003

CRIANCICE

O sr. Possidónio Cachapa disparatou grandemente. Vendo-se caído das nuvens da sua glória, confrontou-se com um sentimento novo: a vaidade irritada! Nos compêndios de medicina chamam-lhe papeira literária.

Tudo se passou na Fnac, enquanto folheava, distraidamente, o número 4 da revista a que este site pertence. Tratando-se de uma revista «produzida em pleno mundo rural», o escritor balbuciou de alegria: «sou um dos maiores defensores da descentralização cultural!». Ainda por cima, podia lê-la «à borla», no conforto das alcatifas da Fnac. Até que chegou à página 44, onde um «sincero camponês que se assina pelo aristocrático nome de João George» manifestava uma opinião pouco favorável ao seu último livro, O Mar por Cima. Todo agoniado, o sr. Possidónio Cachapa correu para casa — os lábios tremiam-lhe! — carregou as pistolas e disparatou contra o «boy George». Deste lado houve risos, galhofa, porque afinal o sr. Possidónio Cachapa tinha algum sentido de humor. Além disso, mostrava atrevimento. Para quem se assina pelo Possidónio nome de Cachapa, era preciso ter coragem e estômago de baleia. Há quem lhe chame completa ausência de boa educação e sugira a leitura quotidiana de manuais de urbanidade. Eu chamo-lhe apenas criancice. JPG 19/04/2003

O CURTO PRAZER DA EJACULAÇÃO PRECOCE

Se não fosse denúncia de costela inculta considerar como fruta os cogumelos, diria que a fruta da época estes últimos meses têm sido os blogs, que pululam pela internet como os ditos cogumelos é suposto pulularem.

Nos anos iniciais da internet, qualquer australopithecus internetensis achava em si suficientes motivos de interesse para se dar a conhecer ao mundo. Em especial a partir de 2002 deu-se um salto evolutivo: o internauta que se preza já não se satisfaz com manter um sitezinho mais ou menos rico em conteúdo — o que está a dar, o que é in, o que é fashion, é criar um bloguinho, na certeza de que, algures, há alguém interessado em ler o que temos a dizer sobre um assunto — qualquer assunto. A palavra de ordem, agora, não é darmo-nos a conhecer ao mundo — é comentá-lo: surgiu o homo commens internetensis.

Mas a moda dos blogs não é sem contra-indicações. A maior de todas advém do seu imediatismo: o interesse de um comentário esgota-se quando se esgota o interesse pelo assunto comentado, e assim a reacção aos acontecimentos tem de ocorrer antes que a sombra do passado que se avizinha se lance sobre aquilo que queremos comentar. Donde resulta um desagradável fenómeno de precoce ejaculação verbal: quando a cabeça não tem juízo, ainda mal nos demos conta e já o produto não cerebralmente filtrado do trabalho dos dedos sobre o teclado está online, disponível para quem quiser ver — e lançar as culpas sobre o cérebro que, coitado, até nem teve nada a ver com o assunto.

Felizmente, no mundo dos blogs é possível dar o ejaculado por não ejaculado (volta, Bill, que estás perdoado!), limpar atabalhoadamente as calças com a mão e assobiar para o lado. Depois, é apenas uma questão de tempo até que a marca do precoce acto ejaculatório se desvaneça das memórias dos passantes. FG 19/04/2003

COUTINHO TRIVIAL

João Pereira Coutinho é o enfant terrible dos cronistas nacionais. É corrosivo e implacável, mas é também profundamente culto. E conservador. E é irritadiço com as diversas esquerdas ou sensibilidades vacilantes (leia-se não-conservadoras) no que à política e à cultura diz respeito. Talvez por isso, pela irritabilidade, em alguns momentos tropeça na argumentação. Num artigo do Independente de 11 de Abril, Pereira Coutinho havia de mostrar à sra. Diana Andringa que estava errada no seu apoio ao jornalista Peter Arnett (que foi despedido em pleno conflito do Iraque por manifestar uma opinião pueril e precipitada, contrária aos interesses americanos). O cronista do Indy lembrou à perene Andringa «duas coisas aparentemente triviais», mas igualmente demolidoras. Uma só basta para percebermos o fio da argumentação. Diz Coutinho: «a atitude do sr. Arnett, na presente guerra, foi vergonhosa e hostil para com o seu próprio país.» Que mais restava senão a demissão?

Depois disto, Bernardino Soares poderia ter chamado, sem constrangimentos, "um mero excesso de zelo" à recente detenção de jornalistas dissidentes em Cuba. RAA 17/04/2003

...E PERDEU-SE UMA POLÉMICA

Prado Coelho tencionava «dar um tratamento piedoso» (ou seja, responder) a um texto que os srs. Ramalheira e Marques lhe haviam dedicado (parece que a temática era o sexo oral). Mas não é que o exemplar do periódico onde tal texto vinha «foi parar ao lixo» por «uma espécie de justiça divina»?

Agiram mal os deuses. Em vez de todo um texto edificador sobre «uma matéria apaixonante» como a alma humana (que, no caso, se manifestava em dois «indómitos cavaleiros da triste figura», «funestamente» associados, que se prestavam a «patética fúria» e parece que tinham uma «estranha pulsão destruidora»), tivemos que gramar com dois terços de texto sobre uma «conversa interessante» publicada no DNA.

Roga-se daqui a todo espectro divino, de Zeus a Alá, que deixe em paz os jornais de Eduardo Prado Coelho — ou à empregada de limpeza que seja um bocadinho mais displicente nas suas tarefas. RAA 17/04/2003

A ILHA DO DIA ANTES

E eis que José Saramago se demarcou face ao fidelíssimo regime de Havana. O breve artigo de opinião que publicou no El País deu direito a rescaldo um pouco por toda a imprensa mundial. Não tive acesso ao texto em primeira mão, mas, pelo que li aqui e ali, o relevante — isto é, aquilo que não tinha já sido dito por todos antes de Saramago — resume-se a duas curtas passagens: «[Cuba] perdeu a minha confiança, danificou as minhas esperanças, defraudou as minhas ilusões» e o lapidar «Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico».

Lido à pressa, o artigo de Saramago parece dar azo a finalmentes com pontos de exclamação: o Nobel português lá conseguiu abrir os olhos, pôr a mão na consciência e encetar um processo de revisão das suas ideias políticas, de desmontagens das suas «ilusões». Mas também isso (o abrir de olhos) é ilusão: uma leitura mais atenta revela que Saramago não parou, não olhou para trás a avaliar o seu percurso. Está certo: sendo ele um legítimo representante das "forças progressistas", não há que olhar para trás, nem mesmo para reavaliações — para a frente é que é o caminho, Avante! De facto, quem mudou foi Cuba, que, ao sair do recto caminho da Revolução, «perdeu a minha confiança, danificou as minhas esperanças» (dele, Saramago). A ilusão foi Cuba, não a Revolução.

No entanto, fica-nos uma dúvida: em que altura, na opinião de Saramago, se deu o empenamento da direcção do Governo cubano, levando ao abandono (ou ao despiste) da faixa de rodagem da auto-estrada que conduz ao Socialismo? Sim, em que altura deixou Cuba de ser o Paraíso Terreal? Há um mês atrás? Na semana passada? No dia anterior às (mais recentes) execuções de dissidentes? FG 17/04/2003

CONOTAÇÕES IDEOLÓGICAS

A Periférica tem um problema com conotações ideológicas. Quer dizer, até nem tem, porque o objecto do problema não existe. Lamentamos desiludir, mas a revista não é revolucionária no sentido marxista, leninista, trotskista, ou qualquer outro. Também não é politicamente conservadora, muitíssimo menos tradicionalista. Se tem algo de anarquista é porque as condições de produção e uma redacção algo esquizofrénica no que às ideologias diz respeito impedem outras veleidades organizativas. Na verdade, a Periférica nem sabe muito bem o que é porque ainda está a aprender.

Uma coisa sabemos: a perifericidade inerente ao título (escolhido em dia de esplanadas e sol e pouca inspiração) tem a ver apenas com as margens do produto massificado. O que nos causa urticária são as massas elles mêmes. E tudo aquilo que é feito em seu nome ou para elas. Tudo o resto é bem vindo.

Esta confissão frustrará alguns leitores que eternamente aguardam a salvação por interposto messias. Mas alguma honestidade se impõe. A Periférica é só a nossa salvação. RAA 17/04/2003

JORNAL DE LETRAS

A Periférica é recorrentemente censurada ou elogiada (depende das sensibilidades) por ser corrosiva, usar veneno nas apreciações que faz. A secção «A Oeste Nada de Novo», claro, é o bombo da festa. Sobre ela tecem-se as maiores considerações. Antes que alguém se lembre de fazer dela matéria de ensaio ou tese, revelamos que a rubrica pretende apenas que não nos confundam com o Jornal de Letras. É que neste as setas da rubrica «Sobe e Desce» estão sempre para cima. RAA 17/04/2003

FÓRUNS

Havia o da TSF. Criou-se a SIC-Notícias e abriu-se o microfone aos telespectadores. A Antena 1 reformula-se e, claro, cria, não um, mas dois espaços para o ouvinte botar a boca no trombone. Alguém me explica como havemos de deixar de ser deprimidos? Enquanto apenas nos cruzávamos na rua, a coisa não deixava mossa. Mas agora que nos ouvimos enquanto povo, diária e multiplicadamente, percebemos a dimensão da catástrofe.

Portugal não precisa de ouvir a opinião pública (que, de resto, não tem). Portugal não precisa de ter o Mercado do Bolhão no ar em vários canais, várias vezes ao dia. Portugal não precisa de mostrar o quanto se parece com Bagdad em hora de saque. Portugal precisa, a sério, muito mais do que a Coreia do Norte, de um Grande Educador das Massas. E de não emitir ondas rádio e feixes hertzianos para o estrangeiro. Há que ter vergonha! RAA 17/04/2003

ET TU, BRUTUS?

A Periférica não se contém. Três meses é muito tempo de espera para comentar a vertiginosa vida portuguesa. Inauguramos agora, na nossa edição online, uma espécie de blog onde vamos colocar os nossos comentários mais prementes, aqueles que não podem esperar pela edição impressa. Chamamos-lhe «Oeste» online porque se trata duma versão mais imediatista da nossa secção «A Oeste Nada de novo».

A criação desta versão online inspira-se, é claro, no fenómeno bloguista que cresce em Portugal. Mas não é um blog (apesar de lhe chamarmos assim).

E nem prometemos ter a assiduidade que existe em alguns blogs (longe disso, nós temos profissões sérias, com horários rígidos, famílias para sustentar, e essas coisas todas), mas sempre que houver uma abertinha lá botaremos comentário.

Para a edição impressa seleccionaremos alguns destes comentários. RP 17/04/2003

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